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Eu fiz aborto

Por Maya Santana

Bendito Francisco! Papa da Esperança

Bendito Francisco! Papa da Esperança

Déa Januzzi

Confesso, de joelhos, que fiz aborto. E que por muito tempo tive que abortar a minha fé para comungar com Deus.

Confesso que sofri horrores, fui chicoteada pela culpa católica, que deixei a religião de lado, pois a igreja do Vaticano não me amparava mais, apesar da minha dor de ter cometido “um pecado”.

Confesso, depois de ser pregada na cruz dos meus martírios, que nem sabia como era bom ser mãe, que um filho me salvaria de mim mesma, das minhas loucuras, das minhas insanidades e desvarios, da eterna solidão de ter um companheiro, que ficou em silêncio na hora da decisão, que não disse sim para a minha gravidez.

Confesso que nem conhecia o meu corpo e o que a vida me reservava no futuro. Eu fiz aborto, sim, antes de o meu filho nascer e me cobrar que não tem irmãos, não vai ser tio e que caminhará sozinho pela vida sem essa irmandade biológica.

Confesso que vivi com essa culpa por muito tempo. Como jornalista fiz uma série premiada sobre o aborto para o Caderno Feminino do jornal Estado de Minas, com a aprovação da editora Anna Marina e que ganhou, na época, o prêmio da Federação do Comércio.

Confesso que as minhas inquietações me levaram ao inferno dos meus dias, até que conheci o salesiano Irmão Raimundo Rabelo Mesquita, em 1979. Ele entrou na minha vida, primeiro como fonte de matérias para acolher os meninos de rua, que na época eram conhecidos como trombadinhas e roubavam cordões de ouro na rua. Com a missão de Dom Bosco, Irmão Mesquita e eu saímos para as ruas. Ele me mostrou o outro lado dos meninos. Lembro-me de que um desses meninos me disse que “na rua a gente vira bicho para não ser comido como um bicho”. Esses meninos falavam a língua do pê, tinham cicatrizes no corpo de maus-tratos e até de marcas de cigarro apagados por outros no corpo. Irmão Mesquita me mostrou que a torneira do abandono e do risco da marginalidade tem que ser fechada na família e na comunidade desses meninos e não pode ficar pingando, porque escorre morro abaixo, diretamente para o asfalto.

Irmão Mesquita foi o primeiro a me perdoar pelo aborto cometido. Sentados no Bar da Dona Dica, na Rua Rio de Janeiro, ele me ouviu atentamente e me livrou de todas as culpas Depois disso pude, finalmente, engravidar em paz. Há 31 anos, sei o que é ser mãe de todo o coração.

Confesso que nessa caminhada para a maternidade, outra pessoa me abrigou, me amparou e contribuiu para que eu me livrasse dessa cruz. Doutora Alba Pimenta Sizenando, ginecologista e obstetra que fez do meu o seu filho. Ela me disse: “Esse filho você não vai tirar, porque ele é meu”. E o meu filho nasceu, sob as bênçãos de Irmão Mesquita e da Dra. Alba. Os dois são meus amigos até hoje e torcem por mim.

Confesso, em ato de contrição, que fiz psicanálise por mais de 20 anos, para expurgar as minhas culpas e aprender que filho não vem com manual de instrução nem com modo de fazer. Educação não tem receita. Confesso que criar um filho homem sozinha é entrar num labirinto, é pisar em areia movediça, é aprender a rezar todos os dias. É contar com a ajuda de toda a milícia celeste de anjos e arcanjos. É ver o rosto de Deus e conversar diretamente com Ele, sem dogmas, sem doutrina, mas sabendo que Ele está por perto.

Confesso, de pés juntos, que fiz aborto, mas que a culpa não é só minha. O homem diz não primeiro. É um aborto masculino também. O parceiro aborta antes toda a esperança de vida, o amanhã, a luz. O homem aborta a vida antes da mulher. Ele não quer o fruto do prazer, do gozo, da emoção que escorre pelo corpo todo. Ele não quer que um corpo deseje o outro corpo e se enraize num terceiro. O homem diz não ao nascimento. E a mulher não sabe o que fazer, porque terá que correr todos os riscos de vida e de morte.

Assim, fui mãe sozinha do meu único filho. Trinta e um anos depois, ele está comigo para provar que ser mãe é receber um presente de Deus. Apesar de todas as dificuldades, ser mãe é degustar a vida passo a passo, é acreditar no futuro e em todos os milagres do dia a dia. É perdoar a si mesma e compartilhar a fé num mundo novo, menos caótico e violento com seus fiéis.

Confesso que ao ouvir as palavras do Papa Francisco, redimindo as mulheres que praticaram aborto, agradeci, de joelhos. Ele é o Papa que vem desmontando a Igreja falsa do Vaticano. Toma uma atitude que tem a ver com os poucos grandes homens do século 21. Ele sabe que a excomunhão tira das mulheres o alimento espiritual.

Nesse contexto caótico, Francisco afirmou que “o drama do aborto é vivido por alguns com uma consciência superficial, quase sem se dar conta do gravíssimo mal que um gesto semelhante comporta. Muitos outros, ao contrário, mesmo vivendo este momento como uma derrota, julgam que não têm outro caminho a percorrer”. O Papa dedicou atenção especial às mulheres que recorreram ao aborto. “Conheço bem os condicionamentos que as levaram a tomar esta decisão. Sei que é um drama existencial e moral. Encontrei muitas mulheres que traziam no seu coração a cicatriz causada por essa escolha sofrida e dolorosa. O que aconteceu é profundamente injusto – sublinhou o Papa – “contudo somente a sua verdadeira compreensão pode impedir que se perca a esperança. O perdão de Deus não pode ser negado a quem quer que esteja arrependido, sobretudo quando com coração sincero se aproxima do Sacramento da Confissão para obter a reconciliação com o Pai.”

Confesso que quase 40 anos depois, tirei o peso das minhas costas e agradeci: “Perdoai-me, Papa Francisco, pelos pecados cometidos e por todos os que ainda vou cometer. Perdoai-me Francisco por todas as culpas católicas que cultivei, perdoai-me pela tortura do aborto. Pelos pecados cometidos pela Igreja Católica. Pelas mulheres que foram queimadas na fogueira da Inquisição. Pela difícil tarefa de ser mulher num mundo masculino. Perdoai as mulheres que têm que fazer o papel de pai, perdoai, Francisco. Hoje, as mulheres unidas dão graças: “Bendito Francisco!”

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19 Comentários

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Márcio 12 de setembro de 2015 - 18:08

Quão pungente…!

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glaucia albernaz 8 de setembro de 2015 - 08:16

É como uma oração. Um abraço afetuoso, Déa.

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Evelise Santos 8 de setembro de 2015 - 02:36

Belo e emocionante texto Déa! Um abraço!

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Maíra 7 de setembro de 2015 - 21:44

Muito lindo o texto! Bjos

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melanie 7 de setembro de 2015 - 14:26

Bendito Papa Francisco que como Cristo acolheu a todos e perdoou. abrindo as portas da igreja para todos.Esta é. a verdadeira igreja católica.

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Magdala Ferreira Guedes 7 de setembro de 2015 - 13:20

Querida Déa, que caminhada minha amiga.
Parece mesmo uma Procissão onde vamos arrastando nossas culpas e nossas dores.
Francisco,só podia ser mesmo um Francisco ,dá as mulheres a redenção do martírio do aborto e as liberta da maior culpa.
Mais uma vez ,parabéns pela sua coragem.
Magui

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Vilma Fazito 6 de setembro de 2015 - 20:12

Déa, minha amiga. Lindo, comovente e corajoso texto!

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José Brun 6 de setembro de 2015 - 14:56

Essa declaração do Papa Francisco pegou muita gente de surpresa, será que agora a legislação brasileira irá evoluir? Se o aborto é um pecado que pode ser perdoado por que a legislação brasileira aplica punição às mulheres que o praticam?

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Mariangela Sepúlveda 11 de setembro de 2015 - 15:17

José a Igreja não mudou em nada a sua maneira de pensar a respeito do aborto. O q o Papa fez foi estender, durante o ano da Misericórdia, a possibilidade de dar a absolvição para aqueles que sinceramente estejam arrependidos aos sacerdotes também. Somente os Bispos podem dar absolvição aos pecados mortais!

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Rachel Kopit 6 de setembro de 2015 - 11:51

Confesso, amiga Déa, que minha admiração por você aumentou n graus, por essa “confissão”, essa mea culpa, desnecessária e tão necessária. Um grande abraço,

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Déa Januzzi 6 de setembro de 2015 - 11:37

Obrigada a todas você mulheres que sabem a dor e a alegria de ser mãe, profissional, dona de casa, num mundo que não ajuda em nada cada uma de nós. Compartilhar com vocês uma confissão dessas, é receber colo, pois muitas vezes a gente precisa de abrigo, de acolhimento. Obrigada a vocês, amigas e leitoras que me cobriram com o manto da ternura, da compreensão. Muito obrigada.

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Andrea de Souza 6 de setembro de 2015 - 21:16

Sempre fui contra o aborto, mas, sempre imaginei o quanto uma mãe que se viu numa situação difícil, onde essa parecia ser a única alternativa, o praticava e, em razão disso vivia um martírio interior. Tenho um filho de 5 anos e imagino o seu sofrimento. Sempre acreditei num Deus amoroso e que perdoa. Somos imperfeitos! Parabéns pela sua coragem em publicar esse belíssimo texto. Viva Francisco!

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Salete 7 de setembro de 2015 - 22:09

Parabéns pela coragem,confesso que quando comecei a ler o texto fiquei em dúvida se era sua história,se era uma crítica ao Papa….mas me emocionei muito.

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Jeanette Freitas 6 de setembro de 2015 - 10:16

Emocionante, Déa!

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Raquel 5 de setembro de 2015 - 22:54

Sou solidária à dores que não são minhas, mas essa conheço de perto. Seu texto foi como olhar no espelho. E hoje, avó de um belíssimo neto sinto que está tudo certo.
Um forte abraço.

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Marta De Divitiis 5 de setembro de 2015 - 21:43

Lindo seu texto, exprime uma dor tão profunda, imensa…

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Silvana Nascimento 5 de setembro de 2015 - 21:32

Querida mae,
Querida filha
Querida irmā….
Somos todos aprendizes do vir a ser….
Muito Amor por si…..e assim o espelho aos demais sera compartilhado.
o Amor é tudo….e o empodeiramento ,a coragem, fé e confiança sāo os espaços por onde o Amor dança.

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Maria 5 de setembro de 2015 - 20:41

Essa é sua historia, mas poderia bem ser a minha. Me sinti assim, mas já algum tempo tive a graça de descobrir que nosso Deus nos quer feliz, quer que vivamos no amor. Liberta ouvir o Papa, nosso guia espiritual, assim declarar. Vida longa ao nosso Papa.

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regina sales 5 de setembro de 2015 - 19:58

Que texto lindo! Eu chorei a tua dor…nunca fiz aborto, mas eu penso que deve ser um peso de consciência terrível. Esse papa veio para salvar a todos!

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