Aos 59 anos, a disposição e a energia de Mônica Dias não têm limite

Por Maya Santana
Mônica Dias, 59 anos: no topo do Everest, o monte mais alto do mundo

Mônica Dias, 59 anos: no topo do Everest, o monte mais alto do mundo

Déa Januzzi

O que é envelhecimento ativo para você? É comer bem, fazer atividade física, viajar, continuar trabalhando e idealizar novos projetos? Mônica Dias, de 59 anos, a três meses de completar 60, é muito mais do que uma mulher ativa. Diretora e sócia do Instituto Hoffman – curso de autoconhecimento e educação emocional – ela conhece 22 países, morou em três deles. Aos 17 anos morou nos Estados Unidos, no estado de Indiana. Aos 26 anos trabalhou no Iraque para a Mendes Júnior como tradutora de inglês. Viveu na Inglaterra para conseguir o título maior do inglês britânico, até voltar ao Brasil como diretora do Instituto Hoffman.

Direta e prática em sua vida, ela não deixou passar nenhuma oportunidade. Enquanto esteve no Iraque trabalhando para a Mendes Júnior recebia 1.500 dólares de seis em seis meses para vir ao Brasil descansar. Ela vinha? Não. Aproveitava o tempo livre e o dinheiro para conhecer outros lugares, como Nepal, Tailândia, Índia, Chipre, Grécia, Egito, Dinamarca, Suécia. Em alguns desses países, voltou duas vezes.

Desde jovem, essa mulher desbravadora tem essa inquietação, esse jeito de levar a vida. Ela não para. Independente financeiramente, ela tem apartamento próprio, carro e tudo o que lhe permite viver confortavelmente, mas não é exagerada na vaidade. “Apronto-me em cinco minutos”, confessa. Aos 50 anos, começou a fazer balé clássico e se apresentou em um espetáculo no Sesiminas. Também começou a correr com a mesma idade. E hoje corre uma média de seis quilômetros quatro vezes por semana. Já fez duas meias maratonas – uma em Belo Horizonte e outra em Londres, em 2015. Faz a volta a Lagoa da Pampulha, praticamente todos os anos.

Calma! As aventuras dessa mulher incrível só estão começando. Sabe como ela comemorou o aniversário de 50 anos, em 2006? No Caminho de Santiago de Compostela, a pé e sozinha, como manda o figurino e os ensinamentos de Paulo Coelho. Percorreu os 800 quilômetros de Saint Jean, na França, até Santiago na Espanha, em 28 dias. Para receber o diploma, no final do caminho, há uma entrevista – “e eles quase caíram para trás quando contei a minha trajetória, pois quase ninguém consegue. Os peregrinos fazem parte do caminho e param. Tempos depois voltam para mais uma jornada, até que conseguem chegar, mas fiz tudo de uma só vez”.

Mônica é incansável. Perto de completar 60 anos, está aprendendo     árabe

Mônica é incansável. Perto de completar 60 anos, está aprendendo árabe

È preciso fazer umparênteses. Antes de conhecer o processo Hoffman, Mônica Dias vivia incomodada, apesar de ter voltado ao Brasil e estar trabalhando ainda na Mendes Júnior. “Já havia ficado noiva três vezes, morado em três países e trabalhado em sete empresas aos 30 anos. Eu estava mal. Então, me lembrei do Processo Hoffman e fui atrás. Era uma terça-feira e a próxima turma começava na sexta, mas eu não tinha dinheiro. Corri para conversar com Teresa, minha mãe, que morreu em setembro do ano passado, aos 85 anos. Na época, ela me disse que se eu tivesse de fazer uma cirurgia ou morrer, que eu arranjaria o dinheiro. Pronto, ela me deu o sinal verde e eu corri até a Mendes Júnior e pedi demissão. Espantados, eles me mandaram embora e pagaram tudo o que eu tinha direito. Fui para o curso. Aí, minha vida começa a ser. Antes, era fazer. Dos vários cursos que participei, um deles era o do eneagrama, o estudo do caráter humano. O papa do eneagrama é o chileno, naturalizado americano, Cláudio Naranjo,que estuda os egos das pessoas. Cada ego corresponde a um pecado capital, além da vaidade e do medo.”

Em 1989, ela passou a sócia do Instituto Hoffman, além de ser a gerente administrativa. Com um mês de trabalho, Mônica Dias ficou grávida do seu único filho, hoje com 27 anos. Durante um ano, ela levou o bebê para o trabalho, pois ainda estava amamentando. Ele ficou no berçário improvisado no Instituto Hoffman todo esse tempo.

Ao fechar o parênteses, é preciso correr atrás da energia dessa mulher, cujo ego no eneagrama é o de número 4, que tem a palavra certa para ela: tenacidade, ou seja, o de assumir o caminho do sacrifício.

O que ela fez, então? Aos 57 anos, em 2013, resolveu escalar o Monte Everest sozinha – fazer tracking no Himalaia. Pela internet conseguiu um guia em Katmandu, no Nepal. E foi embora, agora para assumir o caminho da sua essência. Eram 13 dias entre a Índia e o Nepal, subindo e descendo os 5.365 metros até o campo base do Everest, o ponto mais alto do mundo. Na verdade são 8.848 metros, mas os turistas só podem subir até o campo base. Daí para a frente a escalada é um risco, torna-se perigosa demais e é preciso muito treinamento.

Ela é tão independente, autosuficiente, que afugenta os homens

“Eu tenho essa coisa de atropelar, de deixar o homem sem função”

Nem pense em ir de carro ou de bicicleta. É a pé mesmo. Se houver um acidente, por exemplo, é preciso pedir um helicóptero. Mônica saiu de Katmandu até Lukla, onde começava o treck. Sem pressa, pediu ao guia para ir na frente e disse: “De vez em quando você olha para trás”, porque essa peregrina queria descobrir os vários sentidos do ser. Aguçou a visão para ver o que ninguém via, como o movimento das árvores, a cor do rio que desce o Himalaia que é verde-água, sentir o vento, o sol. “Fechava os olhos e sentia tudo à minha volta”. Ela conseguiu. Subiu e desceu o Monte Everest aos 57 anos.

Se ela está satisfeita? Nem pense nisso. Ela está se preparando para escalar o Monte Roraima, que marca a divisa e três países da América Latina, Brasil, Venezuela e República Guiana. Depois? Subir o Kilimanjaro, na África. Enquanto isso, corre e pratica aeroboxe (mistura de aeróbica e boxe), e desfila na Escola de Samba “Pisa na Fuló”, de Venda Nova, na bateria, tocando surdo. Todos os carnavais.

Ah, cansei só de ouvir essa mulher impossível contar sobre os seus sonhos, inclusive, o de nunca parar de trabalhar e de estar aberta a qualquer transformação e mudança. Sabe o que ela faz nas horas vagas? Estuda árabe – e me mostra os cadernos escritos (para mim, verdadeiros desenhos em árabe). A disposição e a energia de Mônica Dias não têm fundo.

É preciso dizer que há um porém. “Homem nenhum aguenta uma mulher tão independente. Tão autossuficiente. O pai do meu filho, um dia chegou para mim e disse que do meu lado sentia que não servia para nada, que era um inútil. Fiquei chocada, porque eu precisava tanto dele. Não para as coisas práticas, mas para as afetivas. Gosto muito da companhia masculina, mas tenho essa coisa de atropelar, de deixar o homem sem função”.


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13 Comentários

Carmen Moreno 14 de outubro de 2016 - 15:19

Adorei ler uma historia magnifica de uma mulher de fibra. Nos encoraja muito. Obrigada

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Valéria 28 de junho de 2016 - 19:42

Que maravilha!!! Quanta alegria ler esta história!

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Sônia M. A. Sobrinho 24 de maio de 2016 - 00:03

Relato que nos encoraja a não nos contentarmos com a mesmice. Obrigado Mônica, adorei !

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juliana 18 de maio de 2016 - 15:44

Monica,
Gostei de conhecer a sua história, mulher corajosa e ativa.
Juliana Iani Nascimento

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Ione Diniz 17 de abril de 2016 - 21:33

Mônica, parabéns pelas suas escolhas, seu caráter, sua opção de ser FELIZ.
Sua coragem e determinação são exemplos a serem seguidos.

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Cristina Capanema 15 de abril de 2016 - 08:42

Mônica, parabéns pela sua coragem e determinação! Continue assim! Sucesso!

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Cristina 5 de abril de 2016 - 23:27

Sou amiga de Monica desde os anos 80 e sempre tive orgulho dessa super mulher. Difiícil de acompanhar mas fácil de amar

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Maria da Gloria Souza Rodrigues 5 de abril de 2016 - 09:11

Monica e eu fizemos a faculdade juntas, portanto a conheci quando tudo começou.
Existe mais uma característica dessa mulher, que considero uma das melhores: é o seu desprendimento, seu bom coração e a amizade que dedica as pessoas.
Sou testemunha da sua bondade, pois em uma época em que tudo era difícil, até lanche ela pagava para mim. Mulher extremamente determinada e digna de admiração…

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Adriana Andrade 5 de abril de 2016 - 06:53

Mônica é isso tudo aí e muito mais……Boa amiga, boa mãe, boa filha. boa prima, enfim tudo de bom. E ainda um coração gigante. Parabéns prima……vc é exemplo pra todo mundo.

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Lúcia Soares 4 de abril de 2016 - 21:59

Ótimo texto, Déa, como sempre. Muito prazer em conhecer uma mulher assim, tão diferente de mim.
Beijo.

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Julia Rocha 4 de abril de 2016 - 17:19

Quando temos ação, o caminho é de superação. Um relato que toca almas. Vontade de chegar a essa idade e vivenciar o além da vida.

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Déa Januzzi 3 de abril de 2016 - 17:03

Obrigada, Rosy Cardoso, beijos

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Rosy Cardoso 3 de abril de 2016 - 12:55

Me senti forte lendo o relato desta mulher que considero normal, porém que usa os recursos da mente e do corpo o que a torna a frente da coragem. Parabéns às duas ,à protagonista da história e a você escritora que nos envolve com seus encantos usando o recurso da palavra com a emoção.

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