Ex-ídolo do basquete ganha a vida como vendedor

Por Maya Santana
Da Penha, jogador de basquete de cadeira de rodas - foto: Tinda Costa

Da Penha, jogador de basquete de cadeira de rodas – foto: Tinda Costa

Maya Santana

Eu e todo mundo que não o conhece há tanto tempo o chamamos de Francisco. Mas o que ele gosta mesmo é quando aparece algum antigo conhecido  para lembrar aos que estão em volta que ali está o Da Penha:  o atleta que participou de equipes de basquete em cadeiras de rodas, defendendo o Brasil em competições  mundo afora –  Itália, França, Alemanha, Portugal, Estados Unidos, Peru, Marrocos , Canadá. Apesar de ter nascido na pobreza, de ter passado fome, o menino de Colatina, no Espírito Santo, que perdeu as  duas pernas aos 10 anos, em um acidente no Rio de Janeiro,  foi ás também em outras modalidades esportivas  – arremesso de peso, dardo, corrida a distância -, colecionando  50 medalhas de ouro, prata e bronze.

Hoje, aos 62 anos, três filhos de dois casamentos e dois netos, Da Penha pode ser encontrado todos os dias, a partir das seis da manhã, na esquina da Avenida Ataulfo de Paiva com a Rua Almirante Guilhen, no Leblon, no Rio, sentado em sua cadeira de rodas, vendendo   panos de chão e de prato, confeccionados pela mulher.  Vai  para casa e volta para o mesmo ponto há 23 anos, graças à carona oferecida por um amigo. É a forma que encontrou para sobreviver.  Ao contrário dos atletas de hoje,  mesmo sendo um mestre na arte de fazer cestas, um ídolo do basquete  durante os seis anos –  de 1971 a 1976 – em que representou o Brasil no exterior,  Da Penha não ganhou dinheiro .

Com as 50 medalhas no pescoço e no tabuleiro

Com as 50 medalhas no pescoço e no tabuleiro

A história de José Francisco da Penha  se assemelha à de tantos outros  Da   Penhas espalhados pelo Brasil. As glórias da carreira esportiva efêmera passaram, deixando somente lembranças de um tempo em que a vida prometia  um futuro de conquistas,  o mais longe possível da infância paupérrima.  Ao rememorar os primeiros anos de vida, o ex-atleta se recorda de quando, acompanhando a mãe, Cercondina  Francisca da Penha,   o irmão José Carlos e a irmã Odete, se mudou para o Rio, por volta dos seis anos de idade.

“Morávamos num cubículo. A porta podia ficar aberta o tempo inteiro, porque não tinha nada para roubar”, conta ele. No dia 12 de outubro, data em que comemoraria o aniversário de 10 anos, atravessava a rua, quando um carro o lançou debaixo de um bonde. “Perdi as duas pernas. Era o destino. Mas não perdi a vida”, comenta. No entanto, se a vida já era difícil, a partir daí tornou-se um sacrifício para o adolescente, que chegava a ficar uma semana sem sair de casa, porque o short que usava esgarçava no atrito com o chão e ele não tinha outro para trocar. Se quisesse se locomover, só se arrastando no chão.

Carteirinha dos Jogos Paraolímpicos do Canadá, em 1976

Carteirinha dos Jogos Paraolímpicos do Canadá, em 1976

Apesar da extrema dificuldade, Da Penha não parava. Alguém viu seu desempenho em brincadeiras e jogos com as crianças na rua, gostou e logo ele estava em uma instituição para paraplégicos. Foi ali que começou no basquete. Não precisou muito para mostrar seu enorme talento com a bola. De lá para a seleção brasileira, foi um pulo. Brilhou em todos os países onde jogou com a camisa do Brasil. É desse período de sua vida que Da Penha mais gosta de falar:

“Eu era o ídolo de muita gente. Parecia um Deus dentro da quadra. Quando as partidas terminavam, eu não conseguia sair, tamanho o número de pessoas querendo me abraçar, passar a mão em mim. Era preciso que fizessem um corredor e alguém empurrasse a minha cadeira para que eu pudesse sair da quadra”, diz, emocionado. Por trás dos óculos, os olhos se enchem de lágrimas, que ele, tímido, tenta disfarçar.  Foi assim em vários momentos das nossas conversas.

Com a secretária Aspargo Camargo: convidado de honra do PAN, 2007

Com a secretária Aspargo Camargo: convidado de honra do PAN, 2007

Ouvindo a história de Da Penha, seus feitos no Maracanãzinho defendendo o Brasil,  me chamou a atenção  a multiplicidade de seus talentos. O basquete foi o esporte no qual se sobressaiu mais, mas ele também ganhou medalhas atuando em várias outras modalidades esportivas, inclusive como corredor de distância. Numa das corridas, disputando um campeonato internacional no Rio, ele se lembra dos muitos elogios que recebeu  de um americano: “O americano disse que, pelo meu desempenho, eu deveria estar entre os melhores do mundo.”

Pintando no terreiro da casa onde mora

Pintando no terreiro da casa onde mora

Da Penha também faz incursões fora do esporte, se aventurando na arte. Chegou a ganhar algum dinheiro como pintor de quadros, vendidos na feira dominical da Praça General Osório, em Ipanema. Continua pintando, quando está em casa. Algumas  de suas pinturas podem ser encontrados em uma loja, em Copacabana.  Mas não expõe mais ao ar livre. Deixou a feira de Ipanema e no local onde vende os panos de prato, na frente do shopping Center Rio Design, fiscais não deixam que exponha seu trabalho.

O São Francisco saído dos pincéis do ex-atleta

O São Francisco saído dos pincéis do ex-atleta

Agora, talvez, Da Penha reflita sobre a razão de tudo ter se dado assim. Foi abandonando o esporte aos poucos e nem ele sabe explicar ao certo porque deixou a bola de vez. A vida do ex-atleta, que ainda vibra com seus feitos e se alimenta das memórias grandiosas do passado, daria um alentado livro.  Enquanto nada acontece, ele continua lá, vendendo seus panos de prato e sonhando  com algo ou alguém que vai resgatá-lo do total esquecimento a que está relegado.


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4 Comentários

Delair Silva pedroso 5 de julho de 2014 - 15:14

Tiro meu chapéu pra vc , parabéns Francisco….

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marta silva pedroso ribeiro 5 de julho de 2014 - 14:38

um exemplo de pessoa e de um coração enorme .parabéns

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Benta Tergilene 5 de julho de 2014 - 05:57

Me orgulho de voce meu querido Da Penha, pelo que passou e pela forca de vontade e superacao.

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Antonio f reis 1 de julho de 2014 - 02:32

Bom ler isso……. bjs

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