
50emais
“Estamos criando uma Humanidade magra e sem gosto, sem músculo, sem viço, mas com uma velocidade incrível pra caber em algum lugar. Nem que seja numa calça jeans.”
Essa é uma das afirmações fortes feitas pela atriz Ingrid Guimarães, 53, nesse relato importante da experiência mal-sucedida ao aderir à “canetinha da magreza temporária.”
Experimentei a canetinha da magreza temporária. Por um motivo bem raso: me convenceram de que eu precisava emagrecer três quilos pra caber em vestidos nas minhas pré-estreias e fazer uma capa de revista. Não sou diabética, não tenho questões com obesidade, nem tenho grandes dificuldades em emagrecer. A não ser aquelas óbvias para as mulheres acima de 50: menopausa ou um metabolismo que decide tirar férias sem aviso prévio.
Eis que o milagre da canetada, que rapidamente ia me deixar sem fome, se transformou num enjoo permanente junto com um desânimo que eu só tinha sentido no meu pós-parto.
Meu corpo não entendeu nada. Nem eu.
De pessoa animada, passei a ser um pequeno corpo cansado, com preguiça de grandes movimentos. Fiquei magra e sem pressão. E sem assunto também. Virei uma daquelas mulheres quietas de quem sempre tive inveja. Aquela gente meio desanimada que fica sem ânimo até pra gargalhar e parece cool.
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Sim, cada corpo reage de um jeito, mas todo mundo não come. E quando você não come, você diminui o apetite pela vida: para os jantares com os amigos, para as reuniões em volta do fogão bebendo um vinho e até para um pão de queijo com cafezinho. Sempre achei impressionante as pessoas que “não gostam de comer”. Eu fui criada em volta da mesa com almoços de família intermináveis, com mesa de bolo posta à tarde, e quando viajo já reservo restaurante no avião. Sem o ato de comer me sobra até tempo de vida.
Estamos criando uma Humanidade magra e sem gosto, sem músculo, sem viço, mas com uma velocidade incrível pra caber em algum lugar. Nem que seja numa calça jeans. Com uma facilidade de desafiar seu corpo e mandar ele parar de desejar. Eu sei que pra muita gente é necessário. É o começo de uma mudança de vida. Um caminho mais curto para saúde. Mas eu tô falando de outro uso: aquele para tentar caber num padrão.
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Criticamos a gordofobia enquanto no grupo dos amigos a gente pergunta “tem em qual farmácia?”.
Nós somos os novos drogados da magreza escondendo nosso vício pela perfeição. Mesmo que isso nos custe a inanição. A falta de tesão. E o preço alto da injeção. Caber numa calça jeans não vale meu feijão.
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