As pessoas estão cada vez mais sem compromisso com a palavra

Por Maya Santana
Uma pessoa sem palavra não tem identidade

Uma pessoa sem palavra não tem identidade

Magrace Simão*

E o Verbo Se fez Carne. A frase está na Bíblia e significa que o poder da palavra ocupou o homem desde o início. Mas é exatamente a falta de compromisso com a palavra que tem me deixado perplexa. Hoje, quase ninguém se preocupa em dizer uma coisa e mostrar coerência com o que disse no seu comportamento.

As pessoas de mais idade como eu, 66 anos, devem se lembrar da época em que o carioca era criticado por dizer, na mesma hora que conhecia alguém, “vá tomar um café em minha casa amanhã”. Mas não dava o endereço.

Desde muito cedo isso me chamou a atenção e eu sempre tive compromisso com o que dizia. Essa postura é uma herança do meu pai, que não mentia e não precisava assinar contratos. Sua palavra bastava. Lembro-me, ainda adolescente, de quando minha mãe perguntava onde eu tinha estado na noite anterior e eu falava a verdade. Isto a deixava louca, pois não esperava tal postura da filha caçula. Mas à época eu sequer pensava que essa atitude já refletia meus passos pela vida.

E comecei a prestar atenção ao que o outro dizia. “Eu te passo tal documento amanhã cedo! ” Dois, três dias e nada. Nem no quinto ou no trigésimo dia. Mesmo que o papel seja importante, mais que qualquer palavra dele.

O que de mais importante eu aprendi com essas reflexões foi que, afinal, minha palavra expressa sempre o que eu sou. E se eu mentir ou não me comprometer realmente com o que estou dizendo, na verdade, estarei criando uma imagem falsa de mim. Só depois de colocar minha devida palavra no lugar é que poderei pronunciá-la com a certeza que eu sou Magrace Simão.

Com a internet, vem o inglês, comprometendo ainda mais o português. E todo mundo embarca na onda além das abreviaturas apavorantes. O beijo passou a ser bj. Como posso mandar bj para uma pessoa que gosto ou amo? Economia de tempo? Mas um segundo para acrescentar as vogais só vai acrescentar o verdadeiro afeto para o destinatário. “Passo na sua casa no fim de semana”. Não vai e nem avisa. E eu ingenuamente esperando. Que respeito é esse pelo outro, que espera com alegria a sua presença? Como confiar na palavra dessa pessoa? Os exemplos são inesgotáveis.

Li pela oitava ou nona vez Grande Sertão Veredas, do extraordinário Guimarães Rosa. E vou encerrar com uma frase dele (é uma frase, embora não pareça): “Estradeei”. Ele foi o meu grande mestre no compromisso não só com a minha palavra, mas com a sua própria palavra. Obrigada, Mestre! Estradeando…!

*Jornalista


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3 Comentários

Cirlene souza 15 de dezembro de 2018 - 22:28

Muita verdade dita! Q triste esperar por algo q não vem . Parabéns pelo texto

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luisa miranda 20 de janeiro de 2016 - 21:42

MAGRACE,

Gostei muito do texto. Tudo e todos tem compromissos mas com a palavra fica – se sem compromisso e de ter tempo para o compromisso.

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Déa Januzzi 19 de janeiro de 2016 - 06:59

Magrace,

É mesmo incrível. Hoje, fala-se por falar. Não há compromisso nem com a amizade. Tudo é breve, rápido, desimportante. Você precisa estar na vitrine, vivemos na sociedade do espetáculo. Parabéns pelo texto.

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