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Feliz natal para o centro das cidades, para nós e para o planeta!

Por Maya Santana

No Natal, as compras e o comércio se sobrepõem a tudo

Elisa Santana, 50emais

O centro de Belo Horizonte anda insuportavelmente cheio e engarrafado de gente e de carro, principalmente agora em época natalina. Não há onde estacionar. E os estacionamentos andam caros e abarrotados. Escolho ir de ônibus, que me oferece algum conforto. Entro e me assento relaxada, olho a paisagem, casas e prédios que eu não reparava há tempos, ouço conversas ora engraçadas ora terríveis e me vejo de volta a um tempo em que eu andava misturada com as pessoas na rua. A gente começa a andar de carro e esquece a rua, que é riquíssima, nos leva ao encontro de uma realidade que, por comodidade ou não, deixamos para trás.

Nas primeiras vezes em que fui ao centro, quando desci do ônibus, não desci na realidade imediata. Desci na minha infância de menina de seis anos, lá pela década de 1960, acompanhando pela primeira vez a minha mãe na ida ao cabeleireiro, na cidade grande. Quedei chocada, porque Belo Horizonte não era colorida como eu imaginava. Havia visto na revista “O Cruzeiro” da época fotos da cidade que me pareceu linda. Lembro-me de edifícios da avenida, que mais tarde identifiquei ser a Amazonas, retratados com belos coqueiros verdes.

Quando cheguei e vi tudo em preto e branco, as ruas cheias de gente, barulhentas e sem cor, chorei. Minha mãe não entendeu nada e achou que era mal que a viagem de ônibus me fizera. Não tive coragem de falar a verdade. Foi horrível. Eu que saí de casa menina curiosa, de olhos grandes, para deixar entrar a beleza do que eu ia ver, voltava abatida e vomitando, com minha mãe achando que era só por causa do sacolejar do ônibus. Eu sabia que era decepção com a falta da cidade colorida que eu só havia encontrado nas páginas coloridas da revista.

Já mais tarde, na minha adolescência na década de 1970, eu gostava de, principalmente no natal, ir fazer “compras” em Belo Horizonte, o que deixava meus pais apreensivos. Apesar de Santa Luzia, minha cidade natal, ficar a poucos quilômetros, Belo Horizonte era vista, pelo olhar deles, como “perigosa” para uma moçoila de 15/16 anos andar sozinha. Eu só podia ir lá de quando em vez, com as irmãs ou acompanhada de amigas escolhidas a dedo, para não correr o risco de fazer “coisas erradas” – o que não impedia nossas loucuras ingênuas.

Tempo de alegria solta e bagunça só. Tempo de comprar, para presentes natalinos ou não, sapatos na “Elmo” ou “Leila calçados”, bijouteria na” Sloper”, LPS, compactos simples ou duplos na loja de discos de um dos departamentos da “Mesbla”, andar de escada rolante na “Galeria do Ouvidor”, o lugar mais moderno da cidade, ir ao “Cine Paladium” ver filmes “água com açúcar”, andar nas ruas onde se misturavam gente de todas as raças, credos, cor e origem social. Olhar, sem compromisso, e com certa insegurança e timidez, para rapazes que eu achava lindos. Naquela época, refeita da desilusão da infância, via aquele centro da cidade como uma promessa quase inalcançável para mim que, apesar de gostar de algumas coisas da cidade grande, sempre fui menina de quintal.

Aos 22 anos e já fazendo teatro troquei o quintal da minha casa por um apartamento em Belo Horizonte. Morava no bairro da Serra, mas passei a viver no centro, com as contradições que a ruas traziam. Tornaram-se material do meu trabalho.

Natal ou não, o centro borbulhava, como na minha adolescência. Só que agora sozinha. Ou escolhia minhas companhias, longe do olhar severo dos meus pais.

Na década de 1990, Belo horizonte ganhou as nove regionais nas quais é dividida até hoje. O que foi bom para os bairros tornou-se péssimo para o centro da cidade, pois a partir daí os bairros se tornaram autônomos, com seus shoppings Centers e vida comercial próprios. O centro da cidade deixou de ser o “centro das atenções”. Foi se tornando mais e mais um corredor de passagem para quem atravessava a cidade.

Quando desço do ônibus no centro de Belo Horizonte nesta época natalina, nos tempos difíceis de agora, uma realidade imediata, dura e feia, se impõe. O centro da cidade já não borbulha de novidades. Tudo me parece velho, pobre, abandonado e cansado: os prédios, as ruas, as pessoas… O natal se transformou em lojas. Hordas de vendedores perambulam de um lado para o outro oferecendo produtos chineses de baixíssima qualidade. Tudo igual.

É o Natal de uma enganosa “Black Friday”. As compras e o comércio se sobrepõem a tudo, me lembrando de um documentário com o respeitado arquiteto japonês contemporâneo, Tadao Ando, 76 anos, no qual ele desdenha destes tempos tão materialistas. Dado à beleza, mostrando a necessidade das artes na vida do homem, Tadao Ando diz: As pessoas correm de um lado para o outro sem ver o tempo, sem ver o céu , sem ter alegrias e sem fazerem o que mais gostam, em busca apenas do dinheiro, achando que têm vida boa. E se esquecem que o que tem que ter vida boa é o espírito.

Feliz natal para os centros das cidades, para nós e para o planeta!

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