fbpx

Uma vida dedicada a cuidar de gente com alzheimer

Por Maya Santana

Judy

Nos primeiros anos de trabalho, Judy Robbe, 73, mantinha um telefone ligado 24 horas, para atender os familiares das pessoas com a doença – Foto: Marcos Takamatsu

Déa Januzzi

Nossos caminhos se cruzaram por volta de 2002. Eu era repórter num grande jornal de Minas e conheci Judy Robbe, uma inglesa radicada em Belo Horizonte. Ela se preocupava e trabalhava com um grupo de apoio para familiares de pacientes com a doença de Alzheimer. Altiva, nobre, educada, Judy foi fonte de diversas matérias minhas sobre esse mal irreversível, que vai destruindo a memória, apagando todas as lembranças, a história de vida dos portadores de Alzheimer.

O interesse de Judy pela doença começou quando ela foi visitar um dos filhos na Alemanha, em 1988. “Ao chegar à casa de meu filho fiquei sabendo da história dos vizinhos dele. O casal Heinemann. Sem filhos ou parentes próximos, eles moravam em uma linda casa decorada com tapetes e adornos trazidos das viagens internacionais. O senhor Heinemann era um homem inteligente e alto funcionário da linha aérea Lufthansa, falava vários idiomas, mais foi forçado a se aposentar precocemente porque apresentava sintomas da doença de Alzheimer.”

Sem conhecimento sobre o Alzheimer, “a esposa não entendia as mudanças de comportamento do marido. Não havia alguém com quem pudesse conversar ou procurar informações. Os amigos foram se afastando. Havia na casa uma adega muito bem abastecida e ela começou a usar o álcool para fugir da triste situação. Na época, meu filho se ofereceu para levar o senhor Heinemann todos os dias para passear – e algumas vezes ao chegar à casa encontrava a senhora embriagada. Depois de vários meses, a esposa ficou viciada em álcool, e o senhor Heinemann foi internado em uma instituição onde permaneceu até morrer”, conta Judy.

Impressionada com a história do casal, Judy voltou a Belo Horizonte – e criou o grupo de apoio aos familiares dos pacientes com Alzheimer por incentivo de dois amigos médicos. Ela queria melhorar a qualidade de vida dos pacientes e resolver os conflitos dos familiares que viviam os desatinos da doença. Participei de várias reuniões do grupo, entrevistei pais, filhos, esposas e maridos desesperados, sem rumo, sem norte quando era anunciado o diagnóstico. Conheci Heloisa Lélis, na época com 58 anos, mulher de Jaime, de 59 anos, com a doença há mais de quatro anos. Ele era engenheiro civil em uma construtora da capital, trabalhava no setor de finanças, até que um dia chegou para trabalhar e não sabia mais fazer os cálculos. Desaprendeu a ler e a escrever. Esqueceu os idiomas inglês e francês que dominava tão bem Não sabia mais o que eram e para que serviam a escova e a pasta de dentes, fora as mudanças de humor várias vezes ao dia que deixava Heloísa esgotada. Ao conhecer Judy, Heloisa não estava mais só. Passou a entender os caprichos, cada etapa da doença. Jaime viveu mais três anos, sob os cuidados da mulher amparada por Judy.

Aos poucos, Judy me conquistou com sua missão de oferecer mais qualidade de vida aos pacientes e seus familiares com Alzheimer. Delicada, mas segura, Judy me falou, pela primeira vez, em Testamento Vital, hoje aprovado pelo Conselho Federal de Medicina, em que cada um de nós pode lavrar em cartório, os desejos de como quer envelhecer e morrer, sem atos cirúrgicos invasivos e inúteis. Conheci Paul, o marido de Judy que assinou junto com ela o Testamento Vital – e que morreu sob os cuidados de um médico e da mulher, tudo como ele planejou. Morreu na sala de visitas da casa dele e de Judy, sem dor, sem sondas, ao som das músicas que amava, com o perfume de suas flores preferidas, ungido por óleos essenciais.

Hoje, Judy é minha amiga e cada vez mais admiro essa mulher, que vai completar 74 anos em junho. Incansável em sua luta contra o preconceito de quem tem a doença de Alzheimer, há 25 anos ela não para. Faz palestras em associações, igrejas, universidades e recebe os familiares dos doentes em sua casa para uma conversa, um chá, mais um esclarecimento.

Mas foi outro dia que fiquei sabendo como Judy veio parar em Belo Horizonte, aos seis anos. Veio com a família e o pai dela, contratado para trabalhar na Mina de Morro Velho, na região de Nova Lima. Na época, a concessão para explorar a mina era dos ingleses. Eram mais de 100 famílias inglesas, cujos filhos tinham o privilégio de serem alfabetizados nas duas línguas. De manhã, eles freqüentavam a escola de inglês e à tarde, iam para o liceu de português.

Judy ficou em Minas até os 12 anos, quando voltou para um internato na Inglaterra. Nas férias de verão voltava para visitar os pais. Quando já estava mocinha conheceu Paul, um alemão que também trabalhava na Mina de Morro Velho. Eles se olharam, se enamoraram, mas Judy teve que voltar para a Inglaterra. Durante um ano inteiro, eles se corresponderam por cartas. Foram 150 cartas que ultimamente ela anda digitando uma por uma e catalogando no computador e no seu coração.

Paul pediu Judy em casamento por carta. Mandou as alianças por carta, até que foi para a Inglaterra onde se casaram. A lua de mel foi num navio de passageiros que fazia a sua viagem inaugural para a América do Sul. Foram 16 dias de lua de mel no barco ondulando de volta para o Brasil. Era no tempo em que se quebravam as champagnes na proa do navio. Judy jamais vai se esquecer da lua de mel e na vida com Paul no Brasil, mais exatamente em BH.

Há cinco anos, ela vive sozinha, na casa construída por Paul num dos bairros mais bucólicos e privilegiados de BH. Aliás, tem Hana a cadela da raça Akita. Tem suas flores, jardins e as cinzas de Paul que foram jogadas em algum lugar da casa que ela não revela para ninguém.

Judy é assim: quando não está em reuniões, recebendo as pessoas ou postando em seu blog Harmonia de Viver, ela vai com um grupo de amigas aos asilos para cantar. E quando a gente pensa que ela está parando, ela inventa reuniões para decidir como quer envelhecer. E digo: hoje não abro mão, de jeito nenhum, de sua amizade. Mesmo que a gente fique tempos sem se falar, Judy sempre me surpreende com boas notícias.
Saiba mais: www.harmoniadeviver.net.br

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

12 + cinco =

13 Comentários

Avatar
Aline Pinheiro 11 de abril de 2019 - 12:44

Boa tarde,
Meu nome é Aline. Minha mãe tem 86 anos e esta em estágio inicial do Alzheimer. Ela cozinha, sai sozinha pelo bairro e ainda está no controle de suas ações. No entanto de umàs semanas pra cá tenho notado que ela não está tomando banho. Quando me aproximo sinto aquele cheirinho bem desagradável. Como devo abordar o assunto com ela? 1 vez tentei falar mas ela disse que devia ser o vestido e que pode ter derramado nele alguma coisa. Ou seja, ela não admite. E.mesmo depois desse comentário ela.continua cheirando mal. Como abordar o assunto sem causar constrangimento?

Responder
Avatar
VALDIR ANTONIO RODRIGUES 15 de julho de 2018 - 20:22

Tenho uma tia que esta iniciando o alzheimer e vejo muita dificuldade de minha prima filha dela em lidar com este inicio, mudança de comportamento e etc., vcs tem apostila ou algo parecido para eu passar para ela pois mora no interior e sair é muito complicado.

Responder
Avatar
Patricia 21 de dezembro de 2017 - 12:45

Quero muito receber dicas para cuidar do meu pai, o q devo fazer para participar

Responder
Avatar
Rogéria 22 de setembro de 2017 - 11:51

Gostaria de conhecer o grupo de apoio a familiares com Alzheimer. Endereço e horário dos encontros. Obrigada, Rogéria

Responder
Avatar
Rogéria 22 de setembro de 2017 - 11:49

gostaria de conhecer o grupo de apoio a familiares. Solicito informação de onde são feitas as reuniões e horário

Responder
Avatar
nilo junior 21 de agosto de 2017 - 16:05

Parabens JUDY!!!

Com esta sua dedicação aos portadores deste mal de alzhaimer, voce coordena este grupode familiares e amigos deste mal, e com a sua exsperiencia e a dos participantes e as trocas de idéias deixa o tratamento mais fácil para aqueles que nãda sabem da doença.
estou mAIS SATISFEITO AINDA COM O MODELO DE GRUPO QUE IRÁ deixar mais facil para que eu crie um grupo para ajudar pessoas com um outro tipo de doença, que tenho há 28 anos.

Responder
Avatar
Eneida Resende Silva Rego 8 de agosto de 2017 - 22:06

Tenho um cunhado com Alzheimer e minha irmã está precisando muito de participar de reuniões de grupo de apoio a familiares.
Como participar do grupo da Judy?

Responder
Avatar
Eula Saraiva 3 de janeiro de 2017 - 19:01

Minha mãe foi diagnosticada com Alzheimer, estamos com mt dificuldades em conciliar trabalho e disponibilidade para cuidar dela, além disso em como lidar com suas crises mt vezes agressivas. Fala histórias imaginárias, nunca sabemos quando é real.
Outra fator complicado, aceitação familiar da real situação… Onde e guando acontece os encontros?

Responder
Avatar
celia gomes 18 de maio de 2015 - 17:58

Parabéns, pessoas como Judy nos anima a encontrar um sentido para ajudar o próximo.

.Vou me informar melhor sobre o testamento vital, é bom que a família saiba o que se deseja.

Realmente as doenças do idoso são varias e todas parece tem um tronco comum, até os profissionais de saúde evitam o diagnostico preciso…é complicado. Precisamos sim de pessoas e entidades como a Judy.

Responder
Avatar
Claudia fontes de Azevedo 18 de maio de 2015 - 14:06

Judy querida que lindo trabalho! Tenho minha mãe com Alzeimer e é muito duro, estamos tocando o barco, porém é perde-lá um pouquinho a cada dia .
Um beijo no seu coração , que seus dias sejam muito serenos.

Responder
Avatar
Sonia Guimarães 18 de maio de 2015 - 11:10

Meu pai tem este mal há 8 anos . Não se lembra de palavras que acabamos de proferir mas do passado lembra tudo . Antes era uma pessoa que saia do estado de Paz para a de violência facilmente
Hoje se tornou muito amoroso . deixa a gente dar bejinhos nele e fazer carinhos e tem a iniciativa de fazer o mesmo com a gente .
Adora cantar e declamar
Penso que não sofre porque se mostra muito feliz ! Ele toma insulina pois tem diabete e não acredita nisto porque se tornou diabético depois da doença e agora está com insuficiência cardíaca .
Tem surtos de desesperos onde grita e parece que esqueceu naquele momento como respirar
Sofremos muito de ver nosso pai assim nestas crises mas um dia descobrirão como exterminar este mal
Deus abençõe voce por uma vida dedicada a estas pessoas tão queridas que precisam ser tratasas com dignidade .

Responder
Avatar
Genoveva 17 de maio de 2015 - 14:54

Maya, boa tarde!
Bom vou tentar me lembrar e aproveito para lhe dizer que nesse tempo que acesso aqui, também já lhe enviei tres emails atraves de CONTATO (sobre correções em autorias) e que não foram respondidos, pois como não postei aqui em comentarios, depois outras pessoas informaram sobre o mesmo equivoco e vi sua resposta; algo não deu certo …

Déa,
Acompanho a historia de Judy na Midia faz muitos anos e inclusive a conheci pessoalmente quando devido a minha sugestão, compareceu para uma palestra na Cruz Vermelha em BH, onde sou voluntaria no trabalho com idosos; também já fiz contato por email. Mas sobre o testamento vital, assunto que já comentei em outra postagem sua, pretendo seguir essa orientação e guardo até hoje cópia da entrevista que fez com Judy em 2010 aqui nesse BLOG:https://www.50emais.com.br/arquivo/2010/12/e-hora-de-falar-de-envelhecimento-e-morte/#comments.
Estou sempre apresentando Judy para profissionais da saude e familiares de doentes…é uma pessoa que está além de nosso tempo em sabedoria de vida e tem muito a nos ensinar!
Afetuosamente,
Genoveva

Responder
Avatar
Genoveva 17 de maio de 2015 - 10:14

Ontem a noite postei um comentario aqui….
Por favor verifique o que aconteceu.
Abraço de Genô

Responder