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Flávio Gikovate: Sobre estar sozinho

Por Maya Santana

Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva

Maya Santana, 50emais

Lendo este artigo, publicado no site osegredo.com.br de autoria do psicanalista Flávio Gikovate, falecido em outubro de 2016, eu me lembrei do esforço que fiz na minha juventude para aprender a ficar sozinha. Como sou de uma família extensa – éramos 12 filhos -, cresci rodeada de gente por todos os lados. Só entrei em contato comigo mesma e passei a desfrutar do prazer de estar só quando ganhei uma bolsa no exterior e passei vários meses lá fora. Foi duro. Mais tarde, fui morar novamente em outro país. Aí, o ciclo se completou – consegui ficar comigo mesma, sem entrar em pânico. Esse é um dos grandes prazeres da vida: não depender do outro ou da outra para se sentir bem, em paz. “A ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século”, diz o psicanalista, acrescentando: “O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.”

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Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.

O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino. A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei.

Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal. A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo.

Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.

O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral. A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado.

Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade.

Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva. A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém.

Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal.

Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não à partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo.

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1 Comentários

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Olma 24 de março de 2018 - 10:38

Com toda certeza. Me identifiquei inclusive nos pormenores deste artigo. Estamos cada vez mais em busca de soluções sociais coletivas. Entretanto, só as encontraremos quando voltados ao nosso eu, entendermos nosso papel e nossa individualidade. E isso é possível quando nos conhecemos melhor por inteiro. Estar sozinha me permite pensar com mais tempo e liberdade de pensamentos. É como se estivesse do lado de dentro de uma redoma de vidro fino cheia de portas abertas visualizando o lado de fora sem necessariamente ser vista. Estamos ali porque queremos, porque nos faz bem estar e pelo tempo que assim quisermos, mas, sem perder a conexão com os demais e com a realidade que nos cerca.

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