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“Foi como aceitar morrer violentamente devagar”

Por Maya Santana
Com a morte, também o amor devia acabar

A desumanidade de se perder quem não se pode perder

Trecho do livro “A máquina de fazer espanhóis”, de Valter Hugo Mãe, no qual,já no asilo, onde provavelmente terminará seus dias, o autor fala de seus sentimentos diante da perda da mulher. O texto me foi enviado pela querida amiga, a atriz Bruna Bressani.

Leia:

“Estávamos escondidos de todos, eu e a minha mulher morta que não me diria mais nada, por mais insistente que fosse o meu desespero, a minha necessidade de respirar através dos seus olhos. A minha necessidade vital de respirar através do seu sorriso. Eu e minha mulher morta que se demitia de continuar a justificar-me a vida. E que, abraçando-me como podia, entregava-me tudo de uma só vez. E eu, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar.

Com a morte, também o amor devia acabar. Ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. Pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. E não é compreensível que assim aconteça.

Com a morte, tudo que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que os aos vivos o fardo não se torne desumano. Esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. Foi como se me dissessem, Sr. Silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos que levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante. Caí sobre a cama e julguei que fui caindo por horas, rostos e mais rostos colando-se diante de mim, e eu por ali abaixo, caindo, sem saber de nada.

Quando , por fim, me levantei, estava anos luz do homem que reconheceria, e aprender a sobreviver aos dias foi como aceitar morrer devagar, violentamente devagar.”

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2 Comentários

bruna 21 de janeiro de 2015 - 11:40

O que é belo tem que ser compartilhado!

Esse livro é arrepiante.

beijo

Responder
Ana 20 de janeiro de 2015 - 08:28

Ave-Maria!

Responder

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