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Frei Betto: Igreja corre o risco de ter duplo poder

Por Maya Santana

Agora papa emérito, Bento 16 continuará mandando

Agora papa emérito, Bento 16 continuará mandando

A única consequência que terá no Brasil a renúncia de Bento XVI como chefe da Igreja Católica será a mudança dos cartazes anunciando sua presença em julho nesta cidade para participar da Jornada Mundial da Juventude, ironizou Frei Betto. O prelado alemão Joseph Ratzinger, que se retirará este mês após quase oito anos de papado como Bento 16, imprimirá seu selo na eleição de seu sucessor, disse o religioso brasileiro em conversa com a IPS.

Frei Betto, pseudônimo de Carlos Alberto Libânio Christo, e outros destacados pensadores, sacerdotes e bispos expoentes da Teologia da Libertação, uma linha progressista do catolicismo originada na década de 1960 na América Latina, foram os alvos preferidos de críticas e até censuras de Bento XVI.

Ratzinger foi o mais férreo opositor desta corrente, que enfatiza a necessidade de enfrentar as injustiças sociais a partir do compromisso cristão de opção pelos pobres, inclusive desde sua anterior função como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora da Inquisição, a partir da qual proibiu que personalidades como o suíço Hans Küng e o brasileiro Leonardo Boff ensinassem teologia.

“Sou muito pessimista” quanto ao novo papa mudar o rumo conservador da Igreja Católica e modernizá-la, opinou Frei Betto, autor, entre outros livros, de Fidel e a Religião, amigo e ex-assessor especial no começo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) em programas como o Fome Zero.

Em termos sociais, João Paulo II também era conservador

Em termos sociais, João Paulo II também era conservador

IPS: Quais repercussões terá para a Igreja Católica, especialmente para o Brasil e o resto da América Latina, a renúncia anunciada pelo papa Bento XVI?

Frei Betto: Creio que para o Brasil em especial a única consequência será refazer toda a propaganda da Jornada Mundial da Juventude, que acontecerá de 23 a 28 de julho no Rio de Janeiro, trocando a imagem de Bento XVI pela de seu sucessor, que será escolhido em março. A renúncia em si mesma não tem maiores efeitos. A eleição de um novo pontífice sim, dependendo da orientação que imprima à Igreja Católica.

IPS: Nesse sentido podemos antecipar uma modernização da Igreja?

FB: Não sou otimista, pelas seguintes razões: Bento XVI desempenhará um papel principal na eleição do novo papa. E decidiu continuar vivendo no Vaticano. Assim, a Igreja corre o risco de ter um duplo poder durante algum tempo. O novo papa jamais fará algo que desagrade seu antecessor. Portanto, manterá a proibição de se debater na Igreja temas como aborto, fim do celibato sacerdotal, direito das mulheres ao sacerdócio, uso de preservativos, aplicação de células tronco, união homossexual, etc. Depois da morte de Bento XVI, então conheceremos o pensamento e o que quer o novo papa.

IPS: Como Joseph Ratzinger imprimiu seu conservadorismo na América Latina e no Brasil?

FB: Não afirmo que Bento 16 deu continuidade a João Paulo II (1978-2005) porque, na verdade, era o inspirador e teórico das medidas conservadoras tomadas pelo polonês Karol Wojtyla. Os dois se negaram a implantar as decisões do Concílio Vaticano II (1962-1965), um encontro realizado há 50 anos! Os dois descartaram bispos progressistas e nomearam conservadores, deram mais importância a movimentos como o (ultraconservador) Opus Dei do que à Pastoral Popular ou às Comunidades Eclesiais de Base. E os dois eram eurocêntricos. A diferença é que João Paulo II tinha a cabeça de direita e o coração de esquerda, ou seja conservador na doutrina e progressista nas questões sociais, tanto como ser crítico do neoliberalismo e elogiar a Revolução Cubana. Bento XVI, por outro lado, nunca teve sensibilidade pelas questões sociais. Continua em http://migre.me/dtCRJ

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1 Comentários

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Jornalista Maria Cavalcanti 8 de março de 2013 - 13:58

Religião não é curral de chiqueiro eleitoral de Lula!

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