Freiras que vivem isoladas do mundo num mosteiro

Por Maya Santana
Irmãs Marisa de Fátima Costa, Maria Imaculada Hóstia e Maria Helena da Silva

Irmãs Marisa de Fátima Costa, Maria Imaculada Hóstia e Maria Helena da Silva

Este artigo, escrito por Glória Tupinambás para a edição mineira da Veja, trata da vida de mulheres que vivem isoladas no Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição, situado na cidade onde nasci, Santa Luzia, em Minas Gerais. Só a breve história do Mosteiro, com seus 200 cômodos e sua linda arquitetura, já vale a leitura.

Leia:

Treliças de madeira separam dezesseis freiras dos fiéis que frequentam, nas manhãs de domingo, as missas no Mosteiro Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas, em Santa Luzia, a 40 quilômetros de Belo Horizonte. Na construção do século XVIII – que abrigou um dos primeiros colégios de Minas e, nas últimas oito décadas, funciona como um convento -, essas religiosas vivem em clausura, isoladas do mundo por opção. Ou por vocação, como dizem. Dedicam todos os seus dias às orações, aos rituais católicos e à pesada rotina de trabalho.

Das rosas que cultivam em seu jardim, elas extraem vinho artesanal. Com as frutas do pomar, produzem licores e compotas. Com leite, ovos e outros ingredientes, preparam doces e quitanda. Para as irmãs, com idade entre 45 e 93 anos, o dia começa às 5 horas, quando soa o sino de despertar. Até o anoitecer, há sete períodos de preces e meditação. Nos intervalos, elas cuidam da manutenção do casarão, de 200 cômodos. “Doamos a vida a esse templo que transmite a presença de Deus”, diz a madre superiora, Maria Imaculada de Jesus Hóstia, de 75 anos, 58 deles passados em Macaúbas.

Mosteiro de Macaúbas, em Santa Luzia, MG: 200 cômodos

Mosteiro de Macaúbas, em Santa Luzia, MG: 200 cômodos

As religiosas só podem sair da clausura em ocasiões especiais: consultas médicas, reuniões da Ordem da Imaculada Conceição e eleições. Visitas a familiares dependem de permissão da arquidiocese – em casos excepcionais, do Vaticano. Até 1963, as regras eram ainda mais rígidas. As treliças que as separam do mundo externo tinham frestas mínimas, suficientes apenas para vislumbrar vultos. Foi só durante o Concílio Vaticano II que o papa João XXIII tornou mais brandas as determinações de clausura e autorizou um distanciamento maior entre as réguas de madeira. Agora, é possível passar a mão pelo buraco e tocar os familiares nas raras visitas. Obediência e disciplina marcam a história dos moradores do mosteiro, construído pelo explorador de ouro Félix da Costa.

Natural de Penedo, em Alagoas, ele começou sua busca ao metal precioso pelo Rio São Francisco em 1708. Três anos de­pois, teve uma visão com mensagens divinas e decidiu construir uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, às margens do Rio das Velhas. Ao lado, ergueu um prédio para a reclusão de suas próprias irmãs e de outras mulheres. “Lá ficavam internadas meninas que se tornariam freiras e esposas abandonadas por maridos que saíam em viagem”, conta a historiadora e antropóloga Maria Juscelina de Faria, que há trinta anos pesquisa sobre Macaúbas. Segundo ela, o lugar abrigou figuras conhecidas, como as filhas da escrava alforriada Xica da Silva.

Hoje, as freiras se mantêm com a receita da produção de vinhos e quitanda e da hospedagem de visitantes em um anexo transformado, em 1996, em ala de retiro. Mas só uma delas, a irmã Marisa de Fátima, de 47 anos, negocia com os que aparecem por lá para conhecer as áreas públicas do mosteiro, tombado como patrimônio federal, estadual e municipal. Para celebrar os 300 anos do lugar, as irmãs contam com doações para uma reforma: querem pintar a fachada e modernizar a rede elétrica. Por detrás das treliças, elas são gratas por qualquer ajuda.

Veja bonitos ângulos do mosteiro de Macaúbas. O tamanho da construção realmente impressiona:


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3 Comentários

Elizabeth Silvério. 19 de março de 2018 - 11:06

Não é comentário, gostaria de informações o mosteiro.

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Isa Webb 5 de outubro de 2014 - 21:52

I cannot understand the validity of locking yourself away from the world. What good does it do to humanity as a whole or individually?
Do they really think that the prayers are going to feed the poor, cure the sick, sooth a troubled soul?
It feels so selfish and cowardly to renounce the world while all along you could be out there doing something concrete to help other people.
Anyway, if I had my way I would abolish religion altogether as it always creates more fights than understanding, specially if coupled with the desire for power and envy of the ones who have more of anything you want.

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Maria Juscelina de Faria 25 de novembro de 2017 - 12:33

O Mosteiro de Macaúbas é a minha menina dos olhos! Madre Imaculada de Jesus Hóstia, atual Abadessa, para mim é Felix da Costa que voltou para continuar sua obra, não permitindo que desabasse devido à falta de ajuda do poder público! A vasta documentação que continuo a identificar, como voluntária, é de uma riqueza enorme para subsidiar pesquisas sobre a própria sociedade mineira. Meu trabalho diário de pesquisa por 3 anos foi transformado em livro que sequer foi editado pela falta de interesse do poder publico de Santa Luzia. Que Deus perdoe a cidade por este pouco caso!

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