
50emais
Quando a gente lê esse relato da jornalista e escritora Cora Rónai, publicado em O Globo, é que se dá conta da ousadia, criatividade e destemor de golpistas que, todos os dias, inventam uma nova forma, cada vez mais sofisticada, de roubar quem navega na internet.
É insuportável o número de golpistas assediando a gente, no celular e no computador, obrigando todo mundo, principalmente nós que passamos dos 60 anos e, por isso alvos mais visados, a ficar sempre alerta. Qualquer distração e o golpe é consumado.
Nesse caso, o golpe é tão bem urdido, que a pessoa dificilmente percebe. Tanto que duas amigas da autora foram vítimas exatamente da mesma trapaça. Mas não se deram conta.
Leia o texto completo:
“Olá, Cora Rónai. Temos informações sobre o seu pedido Amazon. Três itens: Hiroshima, Amusing Ourselves to Death, Life in the Pitlane. Seu pedido encontra-se em nosso Centro de Distribuição aguardando regularização. Regularize no site: skypostal-amazon.com/SP079017789415BR. Assim que a confirmação for registrada, seu pedido seguirá para a próxima etapa do transporte. Agradecemos a confiança. Equipe de suporte logístico.”
A mensagem vinha bem produzida, com emojis e dois botões: “Já fiz isso” e “Denunciar e bloquear”.
As únicas coisas verdadeiras eram meu nome, meu CPF, meu endereço e os títulos dos três livros que eu tinha encomendado há uma semana (antes que alguém estranhe, “Life in the Pitlane” era presente para o neto).
Algumas horas depois, chegou outra mensagem. Agora com o logotipo da Loggi, mas sobre o mesmo pedido. O tom era de ultimato:
“Este é o último aviso sobre o seu pedido. Há uma pendência fiscal que impede o envio. Caso não ocorra o pagamento em até 72h, seu produto poderá ser leiloado de acordo com as normas da Receita Brasileira.”
O link, de novo, levava a uma página convincente. O valor cobrado era calculado: não irrisório, mas pequeno o suficiente para que ninguém desconfiasse ou se desse ao trabalho de fazer boletim de ocorrência.
Meu nome, endereço, CPF, telefone — até entendo que circulem por aí, os vazamentos de dados são diários. O que não entendo é como os golpistas souberam da minha compra na Amazon, que em tese deveria ser uma transação privada entre comprador e vendedor.
Pode isso, Amazon?
Leia também: Em um ano, 40 milhões de brasileiros sofreram golpes financeiros
Na mesma semana, duas amigas caíram no golpe, e o mais interessante é que nem perceberam. Pagaram a taxa (num dos casos exatamente igual à que queriam tirar de mim), os livros chegaram. Tudo certo. Um crime perfeito. Elas só descobriram porque comentei o assunto.
Há um mês escapei de um outro tipo de golpe. Queria comprar um tubinho de Cicaplast, uma santa pomada, e googlei por preços. O primeiro link me levou à página da fabricante La Roche-Posay, que tinha uma boa oferta para quem pagasse em Pix. Cheguei a abrir o QR Code. Só escapei porque o destinatário tinha nome de pessoa física. Fiz uma engenharia reversa para ver onde tinha errado. Era óbvio, mas não muito: o link que cliquei levava para larochepozay, com “z”.
No fundo, só tem um truque que funciona contra isso: desconfiar sempre. É cansativo, eu sei — ninguém aguenta viver em estado de alerta permanente. Mas, na vida digital, a desconfiança é o antivírus que nunca falha.
Leia também: Mesmo atenta e esperta, ela levou um golpe de 10 mil reais





