Há um tempo de florir e outro de murchar

Por Maya Santana
Envelhecer é ter tempo para si mesmo e para os outros.

Ter o privilégio de envelhecer é cuidar das plantas

Déa Januzzi

As duas mulheres andavam de braços dados. Era um domingo de chuva fina e insistente, mas elas caminhavam sem pressa, como se fosse um belo dia de sol. Andavam devagar, afinal, a mais velha estava com 86 anos e segurava firme no braço da filha. Iam almoçar num restaurante perto de casa, mas nem se importavam com a rua deserta. A mãe, de cabelos brancos, não tinha mais pressa de chegar a lugar nenhum. Mesmo se quisesse, não conseguiria apertar o passo. A artrose nos dois joelhos levara embora a sua elegância de andar, mas ela ainda estava altiva, forte e lúcida, e disse para a filha: “Olha, que flores lindas neste jardim”.

Impaciente com a chuva e o passo lento da mãe, a filha retrucou: “Não tenho tempo de olhar flor agora, mãe, anda, anda. Ainda tenho que trabalhar!” Sem se preocupar com a irritação da filha, ela insistia: “Por que você não gosta de admirar as flores? Eu fico encantada com tanta beleza”, diz a mãe quase parando diante do jardim.

Freando os passos, a filha parou e fixou o olhar nas flores. Sentiu até o cheiro inebriante da terra molhada. Conseguiu entrar, em pensamentos, no jardim secreto da mãe, que hoje tinha conquistado tempo para admirar as azaléias e os flamboyants. A filha, então, decidiu deixar de correr contra o tempo. Ao seu lado, a mãe era uma advertência de que o tempo da calma estava para chegar.

Em breve, a filha também iria precisar da bengala de um braço para se mover. Chegará o tempo em que a filha não poderá mais correr, por falta de pernas firmes. Haverá, em breve, um tempo de repouso, em que tarefas simples como tomar ônibus, comer, dormir, ir ao banco, deitar e levantar da cama serão quase um luxo. Chegará o tempo em que fazer compras no supermercado será uma prova de fogo, mesmo que seja a dois quarteirões de casa. Um tempo em que a filha deverá parar de correr, porque os passos ficarão cada dia mais curtos e pesados. Um tempo em que ir à farmácia, a alguns metros de casa, levará duas horas de trajeto, com seu passo incerto e trôpego.

Enquanto olhavam as flores, mãe e filha se compreenderam. A mãe, então, se refez e lembrou que a filha tinha plantão naquele domingo: “Vamos, filha, você precisa trabalhar”. As duas entraram no restaurante, serviram a comida e a filha quase se esqueceu que a mãe não tinha pressa nem de mastigar, de acabar o almoço, pois aquele seria o seu único programa de domingo.

Enquanto a mãe terminava a torta de limão, a filha ficou pensando que envelhecer é ter tempo para si mesmo e para os outros. É conversar com os vizinhos, com o faxineiro do prédio, com o caixa do supermercado. É fazer café para o Rui, uma espécie de anjo da guarda, que trabalha no prédio onde a mãe mora. É comprar uma enciclopédia inteira para ajudar o vendedor, é abrir a porta, sem pensar no perigo, para o primeiro pedinte que apertar o interfone. A dignidade de envelhecer está em soletrar os letreiros das lojas, dos outdoors, das placas, como se quisesse memorizar as palavras. Como se tivesse aprendendo a ler de novo. É falar sozinha, para não esquecer o som da própria voz.

Ter o privilégio de envelhecer é ficar sentada horas na cadeira de balanço, cuidar das plantas. E não é que os seus vasos são mais bonitos, que eles florescem melhor do que os outros? É não querer escutar os problemas com muitos detalhes. É fazer de contas que não ouve quando o assunto é pesado demais. É como se o problema pudesse esperar.

Ter o privilégio de chegar aos 86 anos de vida é estender os braços para o bisneto de um ano e brincar como se fosse criança. É pensar que hoje está só, mas não é uma solitária. É ter saudade da irmã que não está mais aqui, das amigas que, uma a uma, estão indo embora. É não se assustar com mais nada. É não cumprir formalidades. Nem sofrer à toa. É exatamente como diz a letra da música “ando devagar, porque já tive pressa”.

Enquanto a mãe mastigava a comida e os pensamentos, a filha entendeu que aquela senhora de 86 anos, hoje, quer é pisar nas sementes que caem das árvores depois da chuva, para se divertir com o estalo sob os seus pés. Ela quer é falar de flores, pois há um tempo de florir e outro de murchar.


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2 Comentários

Isidora campos 18 de agosto de 2014 - 01:31

Lindo texto!!! Emocionante!Peço a Deus que me dê uma vida longa para poder passar por abençoadas experiências .

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Monica Loureiro Jorge 17 de agosto de 2014 - 11:16

Nossa,que texto terapeutico!
Me deu vontade de chorar!
Adorei!

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