“Há vagas para anjos da guarda”, Déa Januzzi

Por Maya Santana
Odette Castro cria delicadezas, faz cenários de vida

Odette é designer de noivas: cria delicadezas, faz cenários de vida

Déa Januzzi

“Há vagas para anjos da guarda”. O desabafo de Odette Castro despertou minha atenção. Ela é a minha nova descoberta. Designer de noivas, Odette tece histórias para a hora do casamento. Ela não faz decoração com flores e bufês suntuosos. Casamento com mais ostentação do que amor. Não, ela cria delicadezas, faz cenários de vida. Mistura crochê com pérolas, corações com fios e bijuterias. Sabe aquele vestido de 15 anos da bisavó? Algum detalhe dele vai estar na festa de casamento.

Tudo começou com os aniversários da filha. O talento de Odette virou marca registrada. E olha que ela rouba o cenário com a produção de festas com a cara das noivas.

No Natal do ano passado, ela me enviou um cartão que parecia ter sido feito por um de seus anjos, aquele com dom de espalhar ternura. Não a conheço pessoalmente, mas no momento em que ela revelou que estava precisando de anjos da guarda, me identifiquei na hora, porque de vez em quando os meus também batem asas, voam e custam a voltar. Então, tenho que arrastar cadeiras para ver se eles acordam, se saem da sonolência e me guardem, governem, iluminem, amém.

Em conversa com essa mulher de fibra, pérolas, rendas, tessituras, bordados e histórias de vida, ela disse: “Somos uma família bem legal. Eu, meus anjos da guarda, Jesus e a Mãe Dele. Mas às vezes eles me cobram mais do que suporto – e o anjo vira um paspalho. Não faz nada. Aceita de bom grado os tropeços e vai dormir. Agora mesmo preciso trabalhar para sustentar minha filha. Aí, minha empregada tem fratura de rótula e eu tenho que desmarcar a agenda com todas as noivas e esse é o único jeito que tenho de ganhar dinheiro. Então, Deus promete dar o pão nosso de cada dia – e o anjo não questiona. Não gosto de gente que abaixa a cabeça. Quero um anjo radical, não desses molengas.” Conta aí para as pessoas que o meu anjo da guarda abandonou o emprego e deve estar na praia, provavelmente em Guarapari. Penso que o meu já voltou de férias, mas está muito lento ainda, dormindo em qualquer canto. Odette confessa que o dela deve estar apaixonado pela Anita, da minissérie global com o mesmo nome. Nem quer saber dela.

Às vezes, Odette conversa com os santos e declara: “Tenho manias simplórias como comer arroz com banana. Esquisitas como ler o Diário Oficial da União e curiosas como estudar a vida dos santos.” Ela conhece quase todos. Depois que lê, fica imaginando a cena. “Penso que São Francisco, nos tempos de hoje poderia sair nu, mas levaria o celular. Santa Rita, coitada, aguentaria o marido cruel por tanto tempo? Santa Efigênia teria que ser milionária para distribuir tantas casas. Ela seria hoje a padroeira do programa “Minha casa minha vida”.

Ela se emociona com São Benedito, roubando pão do convento para doar aos pobres. Tem pena da ferida de Santa Terezinha. E às vezes fica trocando os títulos de São, Santa, por Dona, Doutor, Mestre e Senhor. “Dona Aparecida, rogai por nós. Doutor Antônio, arranjai-me marido. O certo é que todos esse seres iluminados sofreram muito, tiveram uma vida difícil, mas hoje desfrutam de um lugar ao lado do Senhor Deus e se divertem com suas varinhas mágicas, mandando graças e dificuldades para nós, simples mortais. Parece que o mundo de hoje está em falta dessas doces criaturas. Então, eles resolveram me testar. Mandaram um probleminha. Tirei de letra, depois vieram o segundo, o terceiro e muitos outros. Epa! Essa aí leva jeito. Vamos testar. Aumenta a dose, ordenaram. E foram brincando, até que eu percebi e disse um sonoro não.”

Às vezes, Odette sai de casa com uma mala carregada de fragmentos de poemas de Clarice Lispector, para enfeitar a vida de uma noiva que adora poesia. Ou faz parceria com Mary Designer para decorar o salão com bijuterias que só faltam falar. Para enfeitar o salão com a alma da noiva e sentimentos com a vibração do amor.

Só uma coisa não gosto nem concordo com Odette, que uma mulher não pode revelar a idade. Por que, Odette? Se você não conta a idade, seus anjos da guarda perdem a noção do tempo. E vão embora.


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3 Comentários

mirele 25 de janeiro de 2015 - 23:22

Esta é a Odete, adorei Déa!

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Déa Januzzi 24 de janeiro de 2015 - 20:06

Ah, Odette se apresse em tomar um café comigo, porque gosto de emoções escancardas e loucas. Gosto de você, sem conhecê-la.

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odette castro 24 de janeiro de 2015 - 18:24

äs vezes a vida me da grandes presentes. Aliás, sempre. Me doa palavras , porque deus sabe como as amo. E eu que tanto li dea januzzi em suas colunas, nunca pensei receber dela tantas palavras lindas.
E quando estou muito feliz com alguem, só sei dizer?? Vamos tomar um caf’é Déa???

Em relacao a idade, a citacao era do Freud. Minha idade, odette,58 fica escancarada la no face,rs…

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