
Titi Placedino
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Essa semana, li no jornal americano The Washington Post uma matéria sobre as maneiras surpreendentes pelas quais a cannabis pode afetar o cérebro em envelhecimento. Escrito por Sarah Klein, a reportagem chamou minha atenção porque durante muitos anos consumi maconha recreativamente. Era a minha droga preferida na universidade. Além de me deixar alegre, me dava muita fome e um sono profundo.
Com o tempo e com as dificuldades para conseguir a droga, acabei deixando de consumir e só usava acasionalmente. Hoje, ao invés de um “baseado”, me amparo nas sagradas gotinhas do Canabidiol (CBD) para conter minha ansiedade e ter um sono mais tranquilo.
As pesquisas foram realizadas nos Estados Unidos, onde o uso da maconha foi legalizada em muitos estados e a cannabis parece ser muito popular e mais abertamente discutida e estudada.
De acordo com dados de 2024 da Administração de Serviços de Saúde Mental e Abuso de Substâncias, cerca de 15,4% dos americanos com mais de 12 anos usaram cannabis no último mês. Esse número tem aumentado à medida que novos produtos à base de maconha chegam ao mercado e mais estados legalizam seu uso.
Os idosos — aqueles com 60 anos ou mais — são o grupo de usuários de cannabis que cresce mais rapidamente no país. De acordo com um estudo de 2022, adultos com mais de 60 anos que começaram a usar cannabis o fizeram por razões médicas, incluindo o tratamento de dores e artrite, distúrbios do sono, ansiedade e depressão.
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Embora mais de três quartos dessas pessoas tenham considerado a cannabis de alguma forma muito útil, a questão permanece: quais são os efeitos colaterais? Fiquei particularmente curiosa sobre os efeitos no cérebro, dadas as preocupações com o declínio cognitivo. Então, o que exatamente a pesquisa diz?
O uso de cannabis está associado a uma piora da memória. Isso não chega a surpreender, mas pode também afetar a capacidade de reter informações no curto prazo. Isso faz sentido para qualquer pessoa que já tenha experimentado.
O uso prolongado parece ter um efeito semelhante. Usuários tendem a apresentar déficits de memória duradouros em comparação com não usuários. Há relativamente pouca pesquisa sobre os potenciais efeitos na memória a longo prazo, mas essa é uma área que está començando a ser mais estudada, visto que o uso de cannabis por adultos mais velhos está aumentando.
Uma boa notícia é que as pesquisas disponíveis sugerem que não há uma associação comprovada entre o uso de cannabis e o declínio cognitivo ou o risco de demência. São necessários mais estudos para aprofundar os conhecimentos sobre essa questão.
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Outra descoberta interessante é que o uso prolongado de cannabis também tem sido associado a alterações no volume cerebral. Isso é mais pronunciado em pessoas que começaram a usar cannabis na adolescência, quando o cérebro ainda estava em desenvolvimento.
Em adultos de 40 a 70 anos que começaram a usar cannabis por volta dos 25 anos de idade, de acordo com uma outra pesquisa publicada neste ano no Journal of Studies on Alcohol and Drugs, o uso ao longo da vida está associado a um maior volume cerebral, Isso é particularmente verdadeiro em áreas do cérebro com receptores para canabinoides, os compostos ativos da cannabis que regulam funções como dor, humor e apetite.
Os autores do estudo concluíram que isso pode ser um sinal dos benefícios “neuroprotetores” da cannabis em adultos mais velhos, visto que a atrofia cerebral é comum com a idade e está ligada ao declínio cognitivo e à menor qualidade de vida. Esses benefícios neuroprotetores poderiam explicar, pelo menos em parte, por que o uso de cannabis não está associado ao risco de demência.
Em uma revisão publicada na revista Lancet Psychiatry, pesquisadores não encontraram benefícios ou malefícios do uso de canabinoides específicos em relação a uma série de problemas relacionados ao humor, incluindo ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático.
Todos concordam, no entanto, que precisamos de mais dados sobre como a cannabis afeta o humor. A revisão também concluiu que não havia dados suficientes para estudar quaisquer efeitos potenciais sobre o transtorno bipolar ou a depressão.
Para Staci Gruber, diretora de Investigações sobre Maconha para Descobertas Neurocientíficas do Hospital McLean em Belmont, Massachusetts, e professora associada de psiquiatria na Faculdade de Medicina de Harvard, pesquisas futuras devem se concentrar em saber se os potenciais benefícios terapêuticos da cannabis podem ser aproveitados sem aumentar o risco de danos, a fim de aprimorar os padrões atuais de tratamento.”
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Levará tempo para que a pesquisa acompanhe a crescente popularidade dessa planta, disse Gruber, a principal autora do estudo, mas essa mesma popularidade aponta para algum benefício: “Se as pessoas não obtivessem nenhum benefício com ela, por que continuariam a usá-la?”, ela pergunta.





