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A dificuldade de Alberto, de 80 anos, não começou por falta de interesse. Começou no ponto em que muita gente trava: a biometria facial, os códigos de confirmação, as etapas sucessivas para acessar o Meu SUS Digital, o gov.br, o Meu INSS e o aplicativo do banco. Em vez de facilidade imediata, vieram tentativas frustradas, insegurança e a necessidade de recorrer aos filhos, que nem sempre podiam auxiliá-lo no momento em que precisava.
Na família, a história se repete de outro jeito com Edith, de 91 anos. Ela também esbarra em senhas, validações e comandos que parecem simples para quem vive mergulhado no celular, mas não para quem aprendeu a lidar com documentos, consultas e banco de outra forma. Não é falta de inteligência, nem de disposição. É uma mudança grande demais, rápida demais, em sistemas que muitas vezes ainda são pouco amigáveis para quem não cresceu no ambiente digital.
Inclusão digital madura não é capricho, nem aula para “acompanhar os tempos”. É ferramenta de autonomia. Em 16 de março, o Ceará lançou cursos de inclusão digital para pessoas idosas com foco em uso seguro do smartphone, prevenção de violência financeira e ampliação da autonomia. O recado é claro, aprender a usar o celular hoje também significa saber se proteger e resolver a vida prática com menos dependência.
Usar com segurança
Os números mostram que o problema é real. Segundo o IBGE, em 2024, 78,1% das pessoas com 60 anos ou mais tinham celular para uso pessoal, alta importante em relação a 2019. Mas, entre quem não tinha aparelho, 30,4% disseram que o motivo era não saber usar. O instituto também informou que, entre as pessoas que não acessaram a internet, 52,1% tinham 60 anos ou mais. Ou seja, o celular está cada vez mais presente, mas a confiança para usá-lo ainda não acompanha esse avanço no mesmo ritmo.
A biometria facial, justamente o ponto em que Beto travou, aparece como um dos gargalos mais concretos. O próprio gov.br informa que o reconhecimento facial é usado para aumentar o nível de segurança da conta, com conferência da foto em bases como a da CNH, no caso do nível prata, e da Justiça Eleitoral, no caso do nível ouro. Também esclarece que esse recurso só funciona para quem já tem biometria disponível em alguma base biométrica. Para quem não tem familiaridade com câmera, enquadramento, leitura de instruções e repetição de etapas, o que para uns leva dois minutos pode virar uma questão insolúvel.
Vale entender o que está por trás dessa exigência. A conta gov.br é a identidade digital usada para acessar serviços públicos. Ela é gratuita e tem três níveis de segurança, bronze, prata e ouro. O bronze atende serviços menos sensíveis, o prata libera muitos serviços e o ouro permite acesso amplo, sem restrição. Em 24 de março, o GOV.BR chegou a 175 milhões de usuários e passou a concentrar mais de 4.600 serviços digitais federais, além de outros 8.700 de estados e municípios. Em outras palavras, quem não consegue entrar nesse ambiente perde, na prática, acesso a uma parte importante da vida digital.
Espaço para golpes
Na saúde, isso já faz diferença concreta. O Meu SUS Digital reúne carteira de vacinação, histórico de vacinas, resultados de exames, medicamentos prescritos e dispensados, atendimentos recebidos e consultas ou procedimentos agendados. Em 4 de março, o Ministério da Saúde informou que mais de 500 municípios já podem ofertar agendamento de consulta pelo aplicativo, com possibilidade de verificar datas disponíveis, receber lembretes e cancelar ou remarcar o atendimento. O que parece um detalhe tecnológico pode significar menos fila, menos deslocamento e mais autonomia para acompanhar a própria saúde.
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O mesmo vale para outros serviços que entraram de vez na rotina, como Meu INSS, aplicativos bancários e validações de identidade. O problema é que a digitalização trouxe conveniência e também abriu espaço para novos golpes.
O INSS reforça que não realiza prova de vida por telefone ou mensagem, não solicita dados pessoais, senha nem transferência de dinheiro. O Centro Integrado de Segurança Cibernética do governo também alerta para páginas falsas que imitam serviços públicos e induzem o usuário a clicar em links ou baixar arquivos maliciosos. Para quem já se sente inseguro com a tecnologia, esse ambiente de fraude piora tudo.
Baixa alfabetização digital
Essa insegurança não é exagero. Em 17 de março, a Organização Mundial da Saúde, OMS, informou que pessoas com maiores necessidades de assistência médica, inclusive idosos, ainda enfrentam dificuldade para usar serviços e tecnologias digitais por questão de acesso limitado, baixa alfabetização digital e plataformas pouco adaptadas a diferentes necessidades. A barreira não está apenas na pessoa. Muitas vezes, está no próprio desenho do sistema, que exige rapidez, repertório técnico e familiaridade com procedimentos pouco conhecidos.
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É por isso que histórias como as de Beto e Edith precisam ser levadas em consideração. Elas mostram o que acontece quando o país digitaliza serviços em ritmo acelerado, deixando muita gente sozinha diante da tela, principalmente idosos. O que deveria facilitar, dificulta e muito. O que prometia independência, às vezes prolonga a dependência.
A boa notícia é que há como aprender sem pressa nem constrangimento. O melhor caminho não costuma ser tentar dominar tudo de uma vez, mas escolher poucas tarefas essenciais. Primeiro, entender a conta gov.br. Depois, usar o Meu SUS Digital para consultar vacinas, exames e atendimentos. Em seguida, aprender a reconhecer um canal oficial e desconfiar de mensagens urgentes ou links improvisados.
Como aprender
Ao final deste artigo, a pessoa não precisa achar que vai virar especialista em aplicativo. Precisa apenas entender que pode aprender, no próprio tempo, o suficiente para cuidar da saúde, acessar documentos, falar com o banco com mais segurança e depender menos dos outros. Autonomia digital, na maturidade, é independência.
Para começar sem medo, vale instalar só o que realmente será usado, gov.br, Meu SUS Digital, aplicativo do banco e, quando necessário, Meu INSS. Tudo deve ser baixado apenas de lojas oficiais. Senha e código de confirmação não devem ser compartilhados, muito menos com quem se apresenta por mensagem como funcionário de banco ou órgão público.
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E, se a biometria facial travar ou a conta não avançar, o melhor caminho é procurar atendimento oficial, online ou presencial. Nunca aceite ajuda improvisada de desconhecidos.





