Perseguição da inquisição no Brasil foi maior

Por Maya Santana
Quem era acusado defazer pacto com o demônio e ter outra fé que não a cristã era condenado

Quem professava outra fé que não a cristã era condenado

A inquisição no Brasil é um tema pouco conhecido dos brasileiros. O assunto será abordado no filme “As Órfãs da Rainha”, da diretora Elza Cataldo, com produção de Isabel Gouvêa, da Itmix, no momento em fase de captação de recursos. Neste sábado, o jornal O Globo publicou um artigo extremamente interessante mostrando que o Santo Ofício foi muito mais ativo aqui do que os livros didáticos ensinam. A inquisição desembarcou na Bahia – de onde seguiu para outros estados brasileiros – em 1591, e os brasileiros só se livraram desta funesta instituição mais de 200 anos depois, em 1821, por intermédio de Dom João VI.

Leia o artigo:

Havia apenas dois anos que Antonio Gonçalves Pereira, mercador de secos e molhados de Minas Gerais, tinha começado a usar casaca, peruca e espadim, quando tentou fazer parte do quadro de “funcionários” da Inquisição no Brasil. Filho de lavradores do Norte de Portugal, ele conseguiu mudar de vida em terras brasileiras com o comércio em Minas e tinha, em 1755, “boas casas”. Mas faltava-lhe destaque na sociedade e prestígio. Em busca de status, candidatou-se a um cargo civil no Santo Ofício, conquistado depois de três anos de um processo de apuração sobre suas origens. Com o título de “Familiar do Santo Ofício”, estava apto a investigar o passado de quem queria um cargo na Inquisição e a prender os suspeitos de “heresia”, acusados de fazer pacto com o demônio e ter outra fé que não a cristã.

Pereira foi um dos 1.907 civis – não clérigos – que foram empossados no cargo de “familiar” da Inquisição entre 1713 e 1785 no Brasil, atraídos principalmente pelo status que a função proporcionava, segundo o pós-doutorando em História da Universidade de Campinas (Unicamp) Aldair Carlos Rodrigues. Em sua premiada tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP), intitulada “Poder eclesiástico e Inquisição no século XVIII luso-brasileiro: agentes, carreiras e mecanismos de promoção social”, Rodrigues revela um lado menos conhecido da Inquisição: o dos brasileiros que queriam trabalhar para o Santo Ofício. E mostra que, diferentemente do que muitos livros didáticos ensinam, a Inquisição esteve, sim, muito presente no Brasil.

– A Inquisição foi muito importante para a formação da elite colonial no Brasil. Os novos ricos pressionavam para entrar na Inquisição, pois era uma forma de ascender socialmente – diz Rodrigues, cuja tese recebeu os prêmios Capes 2013 e Grande Prêmio Capes Tese Darcy Ribeiro, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação.

A inquisição chegou ao Brasil em 1591

A inquisição chegou ao Brasil em 1591

Ter um cargo na Inquisição significava ter um dos atributos mais desejados na época: um atestado de que seu sangue era “puro”, ou seja, que a pessoa não pertencia a raças consideradas “infectas” pelo Santo Ofício, como judeus (inclusive os recém-convertidos), muçulmanos, negros e indígenas. A perseguição da Inquisição na Península Ibérica a pessoas de outras religiões tem relação com a ocupação histórica da região. Em Portugal, a Inquisição foi estabelecida em 1536 e na Espanha no final do século XV, num contexto em que a Península Ibérica, durante boa parte da Idade Média, foi ocupada pela população islâmica, oriunda do Norte da África e do Oriente Médio. Também havia no local muitos judeus, devido à diáspora judaica.

No final da Idade Média, os Estados foram criados profundamente identificados com a fé cristã, expulsando a população islâmica. O judaísmo também passou a ser considerado um grande “problema” na Península Ibérica. Muitos judeus foram expulsos da Espanha e de Portugal. Outros foram convertidos à força ao catolicismo: eram os chamados “cristãos-novos”. Mas mesmo quem se convertia era considerado suspeito de praticar o judaísmo em segredo.   A “limpeza de sangue” começa a ser uma questão de honra nessa sociedade, num contexto de ortodoxia (da fé católica) e da eliminação do islamismo e do judaísmo. Os Estatutos de Limpeza de Sangue, em todas as instituições, principalmente as que tinham maior prestígio, impediam a entrada de descendentes de judeus, muçulmanos e mulatos – conta Rodrigues.

Antes de permitir que civis integrassem seus quadros, o Santo Ofício fazia uma grande investigação sobre o passado do candidato ao cargo de “familiar”, que durava entre um e seis anos em sua maioria. Eram ouvidas testemunhas e analisados documentos até de gerações anteriores dos candidatos. Tanto rigor na apuração fazia com que a sociedade não ousasse questionar a “limpeza de sangue” dos quadros da Inquisição. Os próprios civis pagavam os processos, que eram caros.  – Através dos “familiares” é que a Inquisição se enraizou no Brasil. A sociedade da época aderiu à Inquisição – afirma Rodrigues. Clique aqui para ler mais.


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1 Comentários

Ana 19 de janeiro de 2014 - 15:28

Eu estudei 10 anos em um colégio religioso. As freiras se referiam á Inquisição como ” a Santa Inquisição”. Pode?

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