Ouro Preto conserva memórias de Elizabeth Bishop

Por Maya Santana
A Casa Mariana, que a poeta construiu em Ouro Preto

A Casa Mariana, que a poeta construiu em Ouro Preto

Sabrina Abreu O que a poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979) viu, ouviu e provou no interior de Minas Gerais ficou marcado em versos e correspondências. Por aqui, ela construiu amizades duradouras, encantou-se com o colega de ofício Carlos Drummond de Andrade e aprendeu a gostar de bambá de couve. Nos anos passados no Brasil, aonde chegou em 1951, Ouro Preto foi a última parada – e o único lugar no qual teve uma casa própria, escolhida e reformada com devoção.

Ao desembarcar no país, Elizabeth foi hóspede e depois companheira da arquiteta Lota de Macedo Soares (1910-1967). O período é retratado no filme Flores Raras, do diretor Bruno Barreto, que estreou nos cinemas no fim de semana. A poeta, interpretada na fita pela atriz australiana Miranda Otto, só se estabeleceu em Ouro Preto depois do suicídio de Lota, personagem representada por Glória Pires. Juntas, entretanto, as duas visitaram a antiga capital do estado diversas vezes, a primeira delas em 1953. Em meio às joias do barroco mineiro, Elizabeth viveu seu luto.

Teve outro relacionamento, com uma americana, e foi alvo do preconceito de parte da população que morava ali. Talvez por isso ela preferisse a casa dos amigos, como o pintor Carlos Scliar, a locais públicos. Em suas crises de depressão, agravadas pelo abuso do álcool, isolava-se ainda mais e, por vezes, era levada a Belo Horizonte para ser internada. Mas os anos ouro-pretanos de Elizabeth não foram marcados apenas pelo drama.

A poeta nasceu nos Estados Unidos. Chegou ao Brasil com 40 anos

A poeta nasceu nos Estados Unidos. Chegou ao Brasil com 40 anos

“Ela era bem-humorada, gostava de cozinhar, ouvia rock em casa com frequência, fazia muitas piadas e era ótima companhia”, lembra o artista plástico José Alberto Nemer, que, apesar de ser 34 anos mais novo, se tornou um de seus melhores amigos por lá. Nemer e sua irmã Linda se dedicam hoje a preservar a memória da poeta, que viveu em Ouro Preto até 1971. Nos três anos seguintes, já morando nos Estados Unidos, ela passou apenas temporadas em Minas. Em 1974, esteve por aqui pela última vez.

Linda comprou a casa que foi residência da americana em 1982. A mobília original é mantida praticamente como a antiga dona a deixou. Uma placa na porta do casarão colonial — um destino de peregrinação para estudiosos e fãs de sua obra – revela quem foi a famosa moradora do imóvel. A própria Elizabeth batizou o lugar com o nome de Casa Mariana. Era tanto uma referência à localização, na estrada que liga Ouro Preto ao município de Mariana, quanto uma homenagem a Marianne Moore, sua mentora literária. Foi nessa casa que ela celebrou a conquista do National Book Award de 1970.

Além da antiga residência, Ouro Preto guarda em suas ladeiras outros endereços (veja quadro abaixo) que foram marcantes para Elizabeth, considerada uma das mais importantes escritoras americanas de todos os tempos. Na Rua Brigadeiro Musqueira está o quarto onde fez questão de se hospedar em todas as vezes em que esteve na cidade, ao longo dos anos 50, com Lota. No charmoso solar que a dinamarquesa Lili Correia de Araújo transformou no Pouso do Chico Rei, elas sempre ficavam no aposento de número 8 – onde a atriz Miranda Otto dormiu por duas noites, durante as filmagens de Flores Raras. Foi nessas viagens que Elizabeth acabou se apaixonando por nossa cidade histórica. Leia mais em vejabh.com.br


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