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Um dos meus grandes sustos em 2025 foi saber que estou sofrendo de uma doença chamada fibrilação atrial.
Sempre achei que minha saúde estivesse muito boa. Quando o diagnóstico veio, como não esperava, eu me senti insegura, desnorteada.
Foi o desfecho de uma história que começou poucos dias antes, quando me submeti a uma pequena intervenção para a extração de um cisto no útero.
Quando acordei da anestesia, a anestesista estava ao lado da minha cama. E me disse que eu deveria procurar um cardiologista, pois, durante a cirurgia, o meu coração havia dado sinais que precisavam ser analisados.
Fui ao cardiologista. Ele pediu vários exames. E quando voltei para saber o resultado, pelo comportamento do médico, um velho conhecido, senti que havia algo errado.
Eu me lembro bem. Ao falar da fibrilação atrial, ele disse que muita gente sofre dessa doença e não tem conhecimento, porque ela pode ser, como no meu caso, totalmente assintomática.
Mas o que me impressionou foi saber que quem tem fibrilação atrial, se não se tratar, está caminhando inevitavelmente para sofrer um AVC, acidente vascular cerebral, grave, altamente incapacitante.
Desde então sigo à risca as orientações do meu cardiologista, que visito a cada seis meses.
Leia mais sobre fibrilação atrial neste artigo da Dra. Ludhmila Hajjar, publicado na coluna Receita de Médica, de O Globo:
A fibrilação atrial (FA) é a arritmia mais comum no mundo e, paradoxalmente, uma das menos percebidas pela população. Ela pode aparecer como um coração “descompassado”, palpitações rápidas ou até nenhum sintoma, e é justamente nesse silêncio que mora o perigo. A FA aumenta em até cinco vezes o risco de acidente vascular cerebral (AVC), causa sequelas devastadoras, compromete a autonomia das pessoas e sobrecarrega o sistema de saúde com internações prolongadas, reabilitação complexa e custos que poderiam ser evitados.
No Brasil, estima-se que 1,5 milhão de pessoas convivam com a arritmia, muitas sem diagnóstico. A consequência é dura: AVCs mais graves, incapacidade permanente e perda de produtividade. É um problema que cresce silenciosamente em uma população que envelhece rapidamente.
Nos últimos anos, a ciência ofereceu uma resposta sólida: a ablação da fibrilação atrial. Um procedimento minimamente invasivo, cada vez mais seguro e eficaz, capaz de restaurar o ritmo normal e reduzir substancialmente o risco de complicações. Hoje, não é apenas uma opção terapêutica; em muitos casos, é a intervenção que muda a trajetória da doença. Ensaios clínicos demonstram que ela reduz recorrência da arritmia, melhora qualidade de vida, diminui internações e, em alguns pacientes, reduz mortalidade cardiovascular.
Também há um argumento que deveria convencer qualquer gestor público: é custo-efetiva. Quando comparamos o investimento inicial do procedimento com os gastos evitados — menos AVC, menos internações, menos uso contínuo de medicamentos de alto custo, menos anos de dependência funcional — a equação é contundente. A ablação economiza recursos e salva vidas.
O Brasil tem cardiologistas experientes, tecnologia disponível e centros preparados. A única engrenagem que falta girar é a política pública. No papel, a ablação já aparece em diretrizes e normativas. Mas no SUS real, aquele que atende milhões de pessoas todos os dias, o acesso ainda é restrito e concentrado. A consequência é cruel: quem tem plano de saúde trata cedo; quem depende do sistema público muitas vezes chega tarde demais.
É hora de abandonar a distância entre o texto e a prática. Incorporar de verdade significa garantir financiamento, organizar centros de referência, capacitar equipes, definir critérios clínicos claros e assegurar que o procedimento seja realizado com qualidade e segurança. Significa enxergar que cada ablação bem indicada evita um AVC, impede uma internação, devolve dignidade e reduz desigualdades.
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No fim das contas, o coração pode até perder o compasso. Mas é a política pública que não pode perder o ritmo. A população brasileira não pode esperar.
(colaborou Mauricio Ibrahim Scanavacca, diretor do Serviço de Arritmia e de Eletrofisiologia do InCor-HCFMUSP)
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