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Poucos fotógrafos conseguem atravessar mais de cinco décadas de trabalho mantendo a coerência do olhar. A baiana Lita Cerqueira, de 78 anos, é uma dessas exceções. Sua produção, iniciada nos anos 1970, documentou manifestações populares, artistas, trabalhadores, crianças e cenas do cotidiano brasileiro sem recorrer ao espetáculo. Em vez disso, construiu uma obra marcada pela proximidade com as pessoas e pelo respeito aos personagens retratados.
A trajetória da fotógrafa ganhou novo destaque com a exposição “Ofício: Luz: Lita Cerqueira, Direito de Olhar“, em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo, até setembro. A mostra apresenta 47 fotografias, três filmes em Super 8 produzidos na década de 1970 e parte do acervo pessoal da artista, incluindo negativos, cromos e câmeras utilizadas ao longo da carreira.
Cultura popular
Nascida em Salvador, em 1952, Lita Cerqueira começou a fotografar de forma autodidata aos 19 anos. Em uma época em que a fotografia profissional era predominantemente masculina, construiu sua carreira sem seguir os caminhos tradicionais do mercado, desenvolvendo um trabalho independente voltado para a cultura popular, o cotidiano e a produção artística brasileira.
Ainda nos anos 1970, suas imagens chamaram atenção pela forma como registravam festas populares da Bahia, o Centro Histórico de Salvador e manifestações religiosas. A preocupação nunca foi apenas documental. Lita buscava compreender as pessoas e o contexto em que viviam, evitando estereótipos e valorizando a dimensão humana de cada cena.

Fotógrafa da Tropicália
Ao longo da carreira, Lita Cerqueira registrou alguns dos principais nomes da música e da cultura brasileira. Seu acervo reúne imagens de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Clementina de Jesus, Elza Soares, Glauber Rocha e outros artistas que ajudaram a definir a produção cultural do país nas últimas décadas.
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As fotografias, no entanto, não se limitam ao universo das celebridades. Boa parte de sua obra é dedicada às feiras populares, às festas religiosas, às manifestações afro-brasileiras e às cenas do cotidiano de pessoas anônimas, que ocupam o mesmo espaço de relevância em seu trabalho.
Direito de olhar
O título da exposição não foi escolhido por acaso. “Direito de Olhar” sintetiza uma característica constante na produção da fotógrafa: transformar a fotografia em um exercício de escuta, proximidade e reconhecimento.
Segundo o Sesc, a mostra procura evidenciar como Lita desenvolveu uma linguagem própria ao retratar corpos negros, manifestações culturais e a vida cotidiana sem recorrer ao exotismo ou à marginalização, privilegiando a dignidade das pessoas fotografadas. Essa abordagem contribuiu para ampliar a representação da cultura negra brasileira na fotografia contemporânea e consolidou seu nome entre os principais fotógrafos documentais do país.

Novo momento
Embora seu trabalho seja respeitado há décadas por pesquisadores, artistas e fotógrafos, a visibilidade nacional de Lita Cerqueira vem crescendo nos últimos anos. Em 2024, a Caixa Cultural apresentou a mostra “O Povo Negro é o Meu Povo, 50 Anos de Fotografia“. Agora, a exposição no Sesc Pompeia amplia esse reconhecimento ao apresentar imagens inéditas e materiais que permaneceram guardados durante décadas.
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A revista E, do Sesc São Paulo, dedicou sua edição de julho à fotógrafa, destacando sua capacidade de transformar a fotografia em um exercício de proximidade e memória. A imagem de capa da publicação é uma fotografia de crianças brincando no mar, realizada por Lita na Praia de Buraquinho, na Bahia, nos anos 2000.
Imagem como memória
Aos 78 anos, Lita Cerqueira continua produzindo e acompanhando de perto a organização de seu acervo. Sua trajetória demonstra como a fotografia pode ultrapassar o registro factual e transformar-se em documento histórico, patrimônio cultural e instrumento de preservação da memória coletiva.
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Em um tempo marcado pela produção acelerada de imagens, sua obra lembra que fotografar também exige tempo, presença e atenção ao outro. Mais do que registrar acontecimentos, Lita Cerqueira construiu um arquivo afetivo do Brasil. Um país visto não apenas pelos grandes eventos, mas pelas pessoas que lhe dão identidade todos os dias.





