fbpx

Marielle Franco: no Rio, a morte pode chegar a qualquer hora

Por Maya Santana

Ativista dos direitos dos negros e das mulheres, a vereadora foi assassinada

14 de março foi o dia em que nasceu um dos maiores gênios da humanidade, Albert Einstein, autor da Teoria da Relatividade. O dia também será lembrada pelo desaparecimento de outra mente brilhante, Stephen Hawking, o cientista morto neste 2018, na Inglaterra, aos 76 anos. Aqui no Brasil, a data ficará irremediavelmente associada ao assassinato brutal, no Rio de Janeiro, da vereadora Mariella Franco (PSOL), 38 anos, socióloga, ativista dos direitos dos negros e das mulheres. Mariella, executada com quatro tiros, foi mais uma vítima da violência insuportável que vive o Rio de Janeiro. Moro na cidade e posso dizer: independentemente do bairro em que mora, a maior parte da população aqui vive apavorada, com medo de uma bala que, perdida, pode surgir a qualquer hora, em qualquer lugar. Como que zombando de tudo e de todos, os autores da covardia contra vereadora nem se importaram com o fato da cidade estar sob intervenção das Forças Armadas. Nas ruas, a morte de Mariella está na boca de todo mundo. Chegamos a uma situação de descalabro. Pedir socorro a quem?

Leia mais sobre Marielle Franco neste artigo do portal G1;

Caloura na Câmara dos Vereadores, Marielle Franco se elegeu em 2016 com um resultado expressivo não só pela quantidade de votos — foi a quinta mais bem votada, com o apoio de 46 mil eleitores — mas pela força simbólica de sua campanha. Representando as bandeiras do feminismo e dos direitos humanos, levou para o debate eleitoral a defesa dos moradores de favelas. Ela foi assassinada na noite desta quarta-feira, no Centro do Rio, aos 38 anos.

Nascida e criada na Maré, Marielle estudou Sociologia na PUC, com o apoio de bolsa integral, e fez mestrado em Administração Pública na UFF. Foi assessora parlamentar do deputado estadual Marcelo Freixo, seu colega no PSOL, até se eleger para o Legislativo municipal há dois anos.

Na Câmara, Marielle era presidente da Comissão de Defesa da Mulher. Sobre o tema, ela apresentou projeto para a criação do Dossiê da Mulher Carioca, para levar a prefeitura do Rio a compilar dados sobre violência de gênero no município. Também atuou para permitir na cidade o aborto nas condições estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal e para ampliar o número de Casas de Parto: locais destinados à realização de partos normais.

Na última semana, deu ênfase em sua agenda à celebração do Dia Internacional da Mulher com caminhadas pela Maré, Santa Cruz e o Centro do Rio. Em discurso no plenário da Câmara, questionou a representatividade feminina:

— Se este Parlamento é formado apenas por 10%, 13% de mulheres, nós somos a maioria nas ruas. E sendo a maioria nas ruas, somos a força exigindo a dignidade e o respeito das identidades. Infelizmente, o que está colocado aí nos vitima ainda mais — disse Marielle, no último dia 8.

Na ocasião, Marielle entregou a medalha Chiquinha Gonzaga, uma condecoração reservada às mulheres, para Dona Dida, a criadora do Dida Bar, que fica na Praça da Bandeira. O restaurante tem pratos africanos em seu cardápio. Na cerimônia, Marielle disse que era uma honra poder homenagear quem se dedicava a cultivar a memória e a cultura negra.

Durante um ano e três meses como vereadora carioca, Marielle apresentou 116 proposições na Câmara — entre elas, 16 projetos de lei. Dois projetos apresentados por ela, junto de outros parlamentares, se tornaram leis: um autoriza o serviço de mototáxi na cidade, e o outro restringe os contratos da prefeitura com as organizações sociais à área de saúde.

Veja ela aqui outra vez:

Marielle também organizou audiências públicas sob a questão de gênero e com integrantes do movimento negro. Participou de debates sobre educação, economia e ativismo na internet. Ela integrava a Frente em defesa da Economia Solidária. Nos últimos meses, preparava um projeto de lei para coibir o assédio nos ônibus municipais.

Leia também:
De luto, lutando – de Zélia Duncan

Antes de ser morta, Marielle participou de uma roda de conversa com jovens negras e transmitiu o evento em suas redes sociais. A vereadora vinha questionando, na internet, a violência no Rio. Um dia antes do crime, ela publicou em suas redes sociais: “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

4 × 3 =

1 Comentários

Avatar
Rita Miryam Leme Silva 17 de março de 2018 - 10:40

Muito me informou esse texto. Obrigada!

Responder