Eliane Brum: “Me chamem de velha”

Por Maya Santana

Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha força

Já postei no 50emais este texto de Eliane Brum, publicado pela revista Época. Como é muito bom e atualíssimo,  posto novamente. Fala do horror de boa parte das mulheres que já chegaram a uma certa idade à palavra “velha”. Embora o tempo tenha passado – e o espelho atesta isso todos os dias -, é extremamente difícil para muitas aceitar que a juventude ficou lá atrás. Perto de completar 50 anos, a autora do artigo protesta contra esse tipo de atitude escrevendo esse “Me chamem de velha”.

Leia:

Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”. Pensei: “roubaram a velhice”. As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos.

Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.

A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a minha morte”.

Na adolescência, eu acalentava a sincera esperança de que algum vampiro achasse o meu pescoço interessante o suficiente para me garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros não existem, embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para dizer que é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas essa é uma obviedade que não nos leva a lugar algum. Que ninguém quer morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para engordar o nosso medo sem que aprendamos nada que valha a pena.

A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado providências para que a minha não seja apartada de mim. A vida é incontrolável e posso morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que amenize a minha dor. Cada um sabe do tamanho de sua tragédia, então esse é apenas o meu querer, sem a pretensão de que a minha escolha seja melhor que a dos outros. Mas eu gostaria de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o morrer será minha última experiência vivida. Acharia frustrante perder esse derradeiro conhecimento sobre a existência humana. Minha última chance de ser curiosa.

Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor. Os eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem.

Não, eu não sou velho. Sou idoso. Não, eu não moro num asilo. Mas numa casa de repouso. Não, eu não estou na velhice. Faço parte da melhor idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque eles soam bem intencionados. São os bonitinhos mas ordinários da língua. O que fazem é arrancar o conteúdo das letras que expressam a nossa vida. Justo quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma.

Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está. Alguém vê um Boris Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique Cardoso como idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.

Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar. Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam as recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver.

Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um livro chamado “O idoso e o mar”? Não. Como idoso o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam…”.

Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição.

Como em 2012 passei a estar mais perto dos 50 do que dos 40, já começo a ouvir sobre mim mesma um outro tipo de bobagem. O tal do “espírito jovem”. Envelhecer não é fácil. Longe disso. Ainda estou me acostumando a ser chamada de senhora sem olhar para os lados para descobrir com quem estão falando. Mas se existe algo bom em envelhecer, como já disse em uma coluna anterior, é o “espírito velho”. Esse é grande.

Vem com toda a trajetória e é cumulativo. Sei muito mais do que sabia antes, o que significa que sei muito menos do que achava que sabia aos 20 e aos 30. Sou consciente de que tudo – fama ou fracasso – é efêmero. Me apavoro bem menos. Não embarco em qualquer papinho mole. Me estatelei de cara no chão um número de vezes suficiente para saber que acabo me levantando. Tento conviver bem com as minhas marcas. Conheço cada vez mais os meus limites e tenho me batido para aceitá-los. Continua doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as minhas perdas. Troco com mais frequência o drama pelo humor nos comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias que me importam e jogo os entulhos fora. Torço para que as pessoas que amo envelheçam porque elas ficam menos vaidosas e mais divertidas. E espero que tenha tempo para envelhecer muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa e tenho umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me livrar porque não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais interessante, intensa e engraçada do que sou hoje.

Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e queremos buscar. É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.

Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão jamais escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.

Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.

(Publicado na Revista Época em 20/02/2012)


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8 Comentários

MaGrace Simão 2 de agosto de 2016 - 16:01

Nem idosa e nem a bobagem do melhor idade. Com 67 anos muito, muito bem vividos. nem a morte me preocupa mais. Só quero a cada dia aprender mais sobre alguma assunto que me interessa, como o atual interesse em astronomia. Velho, qual o problema? Afinal, cada pessoa, mesmo ao completar um ano de vida, ficou mais velha. Sim, eu estou é mais velha e no próximo ano fico um ano mais velha. E qual o problema se este é o destino de absolutamente tudo que existe e não só de cada um de nós?

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Maria Evanilda Mazzini 7 de julho de 2015 - 12:08

Texto verdadeiro. Tenho 64 anos e estou naquele “limbo” entre madureza e velhice. A passagem do tempo é inexorável, deixa marcas na pele, dor nas articulações e limitações de movimentos, mas nos traz sabedoria e experiência. Ainda bem! Somos feitos de fases e essa fase derradeira é aquela que nos permite aceitar a vida como ela é. Simples assim! Melhor aceitar do que lutar contra…

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marlene 6 de julho de 2015 - 20:37

Em parte eu descordo ser chamada de velha porque velha já não vale nada sou idosa porque me sinto muito útil, trabalho, caminho Faso todas tarefas de casa, procuro sempre aprender maise estou sempre ativa, eu tambem nao faço plastica porque acho que a pessoa fica horroivel e desfigurada, quero sempre ter o meu rosto como ele é .

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Izzy Webb 6 de julho de 2015 - 12:25

I’m 64. I sometimes refer to myself as old and I’m not afraid of doing so. Do you want to know why? Because as my dear friend Arnold Schwarzenegger ( the eternal Terminator ) says in his latest film: “I’m old, not obsolete.”hehehehehe

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marcia 3 de fevereiro de 2016 - 09:43

Great!!! I loved it!

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Maria de Fátima 18 de março de 2015 - 12:49

Não me incomodo que me chamem de velha, adoro minha idade, me acho linda, não vou fazer plástica porque na minha opinião não vai me fazer sentir melhor. Eu acompanho o meu declínio e procuro vivenciá-lo todos os dias e não me faz esquecer que a vida é breve. Me preocupo com a minha beleza interior, essa eu me preocupo. Nela que faz o registro e não uma carinha nova ou plastificada para se fazer melhor. Não sou contra a quem faz, mas me sinto bem assim…

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Maria 6 de julho de 2014 - 18:18

Falar “terceira idade” não é lá grande coisa. Já esse termo “melhor idade” está imbuído de preconceito contra o velho. É como alguém chamar de morena uma pessoa que é negra porque acha que chamá-la de negra é pejorativo. Mas, acho que estar perto da morte não é prerrogativa somente dos velhos, qualquer um pode morrer a qualquer hora, é prerrogativa de quem estar viv

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Belela 2 de agosto de 2016 - 18:52

Uma semana depois de entrar no Banco do Brasil, onde estou há 33 anos, completei 29 anos.
Levei um bolo indicando minha idade. Uma colega me “alertou” para a exposição pois, segundo ela, em alguns anos bastaria fazer as contas e todos saberiam a minha idade.
Achei e acho ridículo essa paranóia.
Esse ano trouxe um bolo com duas velas indicando 62 anos. Muito bem vividos, diga-se de passagem.

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