“Me culpam por ser negra, mulher e estrangeira”

Por Maya Santana
Única ministra negra da Itália, Cécile sofre constantes ataques racistas

Única ministra negra da Itália, Cécile Kyenge sofre constantes ataques racistas

É impressionante como nós seres humanos evoluímos tanto em tantas áreas – na medicina, na tecnologia, nas aventuras no espaço – mas continuamos absolutamente irracionais quando se trata de cor da pele, de religião, de time de futebol e partido político. O fruto dessa irracionalidade é o que se vê na Itália, com o tratamento que a ministra da Integração Cécile Kyenge, negra nascida no Congo, na África, vem recebendo, principalmente de seus colegas no Parlamento. Até casca de banana já jogaram nela – uma médica com espírito de aço, que se nega a render à brutalidade daqueles que são movidos por puro preconceito.

Leia a entrevista que a ministra italiana deu ao jornal espanhol El País:

A Itália tem um problema. Um problema feio. Talvez o mais feio dos problemas. Sua ministra de Integração, Cécile Kyenge, uma mulher de 49 anos, mãe de duas filhas, oftalmologista de ofício, é acossada e insultada há oito meses com uma violência feroz, na rua, no Parlamento, na imprensa e na televisão. Mas não por suas ideias políticas de centro-esquerda. Nem sequer por tentar que os filhos dos imigrantes nascidos na Itália tenham direito à nacionalidade —o ius soli— ou por exigir a abolição de uma lei —a Bossi-Fini, aprovada por Silvio Berlusconi com seus sócios xenófobos da Liga Norte— que converte automaticamente em delinquentes os imigrantes irregulares. Não. Os responsáveis pela Liga Norte, sob o olhar passivo de boa parte da política e da sociedade italiana, comparam a ministra Kyenge a um orangotango, lançam-lhe bananas ou desenham um plano de asfixia sistemática simplesmente porque ela é negra.

Comparada a um macaco na página do facebook de um deputado

Comparada a um macaco na página do facebook de um deputado

Pergunta. O que você sente quando escuta tantos e tão graves ataques racistas contra você?

Resposta. Eles machucam, mas a grandeza de cada um de nós está em saber olhar por cima, em ver o futuro. Estou convencida de que todos esses ataques não pretendem só destruir a pessoa, mas que querem comprometer, pondo em risco, o futuro da Itália, a sociedade do futuro. Se tenho claro que meu objetivo é o da diversidade, então é possível superar todos esses momentos tão duros. Porque está claro que foram sete ou oito meses muito difíceis, que chegaram a influir também sobre minha vida privada, mas jamais os ataques me afetaram a ponto de me levar a pensar em abandonar meus objetivos… 

P. Nunca? Não chegou a pensar nisso? Nem diante da reação morna de quem teria que defendê-la?

R. Não, não vale a pena abandonar. Desde pequena nunca não me desviei do meu objetivo. Queria ser médica e fiz tudo o que tinha que fazer, incluindo sair do país onde nasci [a República Democrática do Congo], até conseguir isso. Em todas as decisões que tomei na vida, por mais difíceis que tenham sido, tinha em mente um objetivo, pondo no centro o respeito aos demais. Por isso, tudo o que aconteceu desde o momento da minha nomeação —insultos, provocações— tomo como uma tentativa de desviar a atenção. Querem distrair do objetivo principal, que é fazer a sociedade italiana entender que a diversidade é uma riqueza, que não devemos ter medo do outro. Os intolerantes querem nos fazer pensar outra coisa, querem nos confundir, mas devemos ter a força de não permitir que nos confundam. Clique aqui para ler mais.


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1 Comentários

Maria de Lourdes Santos 23 de janeiro de 2014 - 00:56

Obrigada por compartilhar tantas informações interessantes…

Esta reportagem é um exemplo de coragem, de vida… de SUPERIORIDADE… Um ser humano de espírito elevado, tal qual Nelson Mandela… Esta mulher tem uma missão maior… Parabéns pela nobreza de alma…

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