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Medo da velhice: por que filhos colocam os pais em clínicas?

Por Maya Santana

Se pais não colocam bebês numa instituição para que cresçam sem lhes atrapalhar em tudo que desejam e precisam fazer, por que filhos colocam pais em clínicas?

Maya Santana, 50emais

Concordo com o jornalista e historiador Juremir Machado da Silva, autor do texto abaixo, publicado no jornal Correio do Povo, quando ele se mostra inconformado com o fato de certos filhos colocarem os pais, assim que ficam mais velhos, em clínicas ou asilos. Cuidei da minha mãe durante sete anos, até que ela nos deixou em 2008. Jamais, pela formação que tive, deixaria meu pai ou minha mãe terminar os dias em uma instituição dessas. Sei que algumas pessoas fazem isso por pura necessidade. Não têm opção. Mesmo assim, me parece duro demais.

Leia o que diz o historiador:

Participei de um bom seminário organizado pela Faculdade de Educação da UFRGS e o SESC Canoas sobre a velhice. Ou melhoridade. Ou terceira idade. Soube que havia lá um simulador de idade. A pessoa poderia ver como é ter 85 anos. Perguntei como era. Fiquei sabendo que eram colocados pesos nos pés, tampões nos ouvidos, alguma coisa para diminuir a visão e luvas para tirar a sensibilidade dos dedos. A descrição foi suficiente para mim. Não me atrevi a experimentar. Certamente essa parte, com tais características, já deve ser a pós-melhoridade. Não gosto de eufemismos. Velhice me parece muito bem.

Há um novo discurso sobre a velhice. Gosto dele. Valoriza a vida. Manda aproveitar. Por outro lado, interiorano que sou, apegado a velhas tradições familiares, tenho dificuldades em aceitar certas modernidades como a do filho que colocou o pai, um velhinho pequeno e encarquilhado na clínica, e passou a passear duas vezes por dia com seu cão dinamarquês, de quem obviamente limpa o cocô todo o tempo. Assim parece que não gosto dos animais. Gosto. Na verdade, em tempos de pós-humano, revela o meu humanismo anacrônico. Se pais não colocam bebês numa instituição para que cresçam sem lhes atrapalhar em tudo que desejam e precisam fazer, por que filhos colocam pais em clínicas?

Sim, há situações em que a doença exige cuidados tão especiais que só profissionais num lugar especializado dão conta do recado. As desovas de idosos vão bem além disso. A minha hipótese é antipática: o egoísmo cresceu e venceu o ciclo tradicional em que pai cuidava de filho e filho cuidava de pai. Em certos casos, as pessoas precisam trabalhar e não têm tempo para se ocupar dos seus velhinhos. Em outros, são ricas o suficiente para terceirizar a tarefa limitando-se a uma visita semanal de cortesia. Não julgo. Questiono. Claro, com certa inclinação para a rejeição. Sou assim. Cheio de pontos de vista.

O novo discurso de valorização da velhice enfrenta a artilharia pesada da publicidade em favor da juventude. Ser jovem é apresentado como a essência de tudo. A mídia, empurrada pelas redes sociais, vem fazendo malabarismos para rejuvenescer. Juventude é rapidez, leveza, agilidade, bom humor, coloquialidade e tantos outros termos sempre positivos. Fica subentendido que juventude é vida. Dizer que também é superficialidade, pressa e arrogância pega mal. Coisa de velho ressentido. O conflito não para de se escancarar. Velhos são estimulados a viver como jovens. Esse é o parâmetro. Não seria possível viver como velho sem ser infeliz e fazendo coisas legais?

Leia também:
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Tateio. Não sei. Certamente irei para uma clínica um dia. Nem filhos tenho para tentar a sorte. Confesso, nesta divagação perigosamente sincera, que espero ser salvo por um ataque fulminante. Digo isso em caráter muito particular. Sei que se tornou politicamente incorreto temer a velhice ou ter filhos esperando que eles retribuam os cuidados recebidos na infância. Não se pode ser utilitarista. Cada vez mais pais sustentam ou ajudam filhos até mais tarde, que parecem buscar se livrar dos pais o mais cedo que podem. Tempos hipermodernos.

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6 Comentários

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ELAINE MUNTE 31 de maio de 2019 - 16:46

Tenho 60 anos, já faço parte do grupo de idosas. Me sinto muito bem. Trabalhei desde os 11 anos. Aos 16 já com carteira assinada. NÃO ME CASEI, NÃO TIVE FILHOS..CUIDEI DE MEUS PAIS, CASA, COMIDA, SAÚDE. ELES FORAM ENVELHECENDO E EU TB. APÓS APOSENTAR ENCONTREI A PESSOA QUE ME FAZ FELIZ E DESDE 2014 ELE TEM E AJUDADO A CUIDAR DOS MEUS PAIS. MEU VELHINHO RANZINZA FALECEU EM 2011….E CONTINUAMOS A CUIDAR DA MINHA MÃE…ENFIM NUNCA CONSEGUIMOS TER UMA VIDA A SÓS. DE 2018 PARA CÁ MINHA MÃE SOFREU VÁRIAS QUEDAS, CIRURGIAS E PRÓTESES NOS DOIS OMBROS E ÚMERO E USA COLETE POIS A VÉRTEBRA T4 ESTÁ FRATURADA. ISSO TUDO POR CONTA DELA SER TEIMOSA E FAZER O QUE BEM ENTENDE. NESSA SITUAÇÃO FUI OBRIGADA A COLOCÁ-LA EM UMA CASA DE REPOUSO, LÁ TEM TODOS OS CUIDADOS. HOJE ESTOU COM MINHA SAÚDE MENTAL MUITO BEM, POIS MINHA MÃE ME DEIXAVA COM OS NERVOS À FLOR DA PELE. LIMPAR O BUMBUM DE BEBÊ É UMA COISA, LIMPAR BUNDA DE ADULTO É BEM DIFERENTE.

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Christina Tavares 24 de maio de 2019 - 08:30

Não tenho alternativa. Aos 72 anos, me preparo para morar em asilo. Estou em perfeitas condições mentais , mas meus irmãos, sobrinhos , família já me abandonaram. A solidão mata o idoso homeopaticamente. Pra mim , é a única possibilidade. Não tenho ninguém. Preciso ficar forte e partir.

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Mis 19 de dezembro de 2018 - 19:13

Deixe seu filho na creche ou com baba e ele te deixara num asilo ou com cuidador

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Raimunda 26 de novembro de 2018 - 21:18

Recentemente comecei a trabalhar numa casa de repouso ,pois confesso que é de cortar o coração em ver os filhos em geral abandonar seus pais meu deus isso é o fim do mundo não é somente os filhos existem país que os filhos adoecem e tbm não querem cuidar deles pq não tem condições,e falando tbm em esposa internando o marido pq tbm está doente e revoltante .

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Valéria 29 de outubro de 2017 - 13:52

Tenho 53, vivo as dificuldades de adaptar meu dia a dia a minha mãe de 83, tudo é lindo pra quem vem visitar ou leva por uns dias. Igual criança malcriada quando perto dos outros ela parece outra pessoa. Transformou meu dia a dia num desalento. Isso só reforça minha opinião de querer ir para uma casa de repouso decente. E que colocar o idoso num lugar onde ele conviva com pessoas da mesma idade, tenha atividades apropriadas é muito melhor do que manter morando em casa e se sentindo um incômodo.

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Luci david de Andrade 28 de outubro de 2017 - 19:08

Luci david de Andrade. Eu me preparo pra não precisar de filhos, já tenho meu cantinho todo adaptado pra que eu possa viver sozinha, se de tudo não der, espero ter um ataque fulminante, e partir dessa pra uma melhor. Ah! Esqueci de falar, tenho 66 amigos e espero viver até os 103, porque no momento sinto-me como se estivesse 30..

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