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Memória: é preciso tornar mais lenta a evolução da sua perda

Por Maya Santana

Com o avançar da idade, é natural haver uma diminuição da memória

Com o avançar da idade, é natural haver uma diminuição da memória

Dr. Márcio de Sá*-

Dentre as inúmeras mudanças que fazem parte do envelhecimento – definindo-o e modificando substancialmente a nossa vida –, o mais temido por todos nós é a que atinge o status e a capacidade intelectual.

De fato, quando chegamos aos cinquenta anos e mais, e continuamos na caminhada para idades mais avançadas, o que mais nos perturba são as mudanças na memória.

Memória, a base do conhecimento humano, é o processo cognitivo (mental, intelectual) que nos permite adquirir, armazenar, fixar, conservar, recordar (recuperar) e reproduzir informações disponíveis – as imagens e as representações dos fenômenos anteriormente vividos, conhecidos ou vistos.

A memória focaliza fatos e coisas específicos, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade. Ela conecta-se com os conhecimentos, a fim de gerar novas ideias, ajudando-nos a tomar as decisões da vida quotidiana.

Já o envelhecimento é a decorrência inevitável das células do corpo ir morrendo uma após outra e não serem substituídas por novas, em razão de ir deixando de reproduzir-se, como acontece na juventude.

Este processo resulta na degeneração, mental e física, que define o envelhecimento e que mais e mais vai acontecendo, à medida que avançamos na idade.

Assim, quanto mais envelhecemos, a ocorrência gradativa das alterações da memória vai instalando-se na nossa vida do dia a dia, cada vez mais intensamente e irreversivelmente.

E, também, quanto mais avançamos na idade, mais nos recordamos de pessoas conhecidas, de fatos ocorridos, de objetos de que gostávamos muito anos ou décadas atrás. E nos lembramos menos de fatos recentes, de pessoas conhecidas faz pouco tempo, assim como de objetos, vistos, admirados, adquiridos há pouco.

Mariângela N. tem 64 anos, casada há 35, mãe de três filhos adultos e sempre foi dona de casa. Por volta dos 49 anos, ela começou a perceber que a sua memória “começou a falhar um pouco”. Ela passava por uma fase difícil: a sua filha mais jovem acabara de sair de casa.

O verbo é... lembrar

O verbo é… lembrar

Com o passar dos meses, a sua memória foi piorando. Ao cabo de três anos, ela me ligou e pediu que fosse consultá-la em casa, pois estava muito preocupada com sua “grande perda de memória”. Ela estava muito ansiosa e, em nossa conversa, relacionou o início da sua falha de memória à saída de casa da filha.

Ela nada tinha nada de importante clinicamente, exceto uma ansiedade e uma angústia evidentes, que já duravam meses.

D. Mariângela pode compreender, após a nossa longa conversa de final de consulta, que o início da sua perda de memória, ainda sem grande importância, podia, como ela pensava, estar relacionada à saída de sua última filha de casa, mas que isso era pouco provável.

Conseguimos, juntos, que ela finalmente entendesse que a sua alteração de memória faz parte natural do envelhecer; que exercícios regulares para a mente e atividades prazerosas podem adiar o processo de perda de memória e melhorá-la; mas que este processo é irreversível com o avançar da idade. Devemos tudo fazer para abrandá-lo e aceitá-lo.

A prescrição de um ansiolítico, por um curto período, ajudou-a a adquirir e manter a disciplina para praticar todos os dias exercícios mentais (ver sugestões de link no final do artigo) e a encontrar uma atividade que a faz sair de casa, que muito lhe agrada e a apazigua.

Daniel B. é um senhor de 80 anos, aposentado há 21, ainda muito ágil, que acompanho clinicamente há algum tempo. Ele reclama cada vez mais da sua perda de memória, principalmente da memória recente.

Ele segue, disciplinadamente, um tratamento para a sua cardiopatia crônica, diagnosticada há mais de uma década, cuja causa é uma hipertensão arterial que surgiu por volta dos 55 anos. A sua diabete também vem mantendo-se controlada faz tempo e ele tudo faz para manter-se apenas ligeiramente acima do seu peso ideal. Seu quadro depressivo crônico, mas não intenso, necessita uma modificação de tratamento. Ao contrário, a sua recente, e grave, tendência ao isolamento tem que ser continuamente combatida, com a ajuda essencial dos seus familiares.

Na primeira consulta e início do nosso relacionamento médico-paciente, que só se estreitou com o tempo, recomendei-lhe a prática diária de exercícios mentais, de uma atividade voluntária regular e prazerosa e modifiquei o seu tratamento antidepressivo. Sempre muito disciplinado, o Senhor Daniel aceitou e segue “religiosamente” as minhas recomendações, mas, “minha memória só vem piorando”.

Tem sido muito difícil para mim, em nosso relacionamento sempre muito sincero e cordial, fazer-lhe entender e aceitar, verdadeiramente – o que é totalmente compreensível –, que o processo de perda de memória varia muito de pessoa para pessoa. Que exercícios para a mente e atividades prazerosas podem atenuar a sua evolução, mas que ele é irreversível e que é uma, dentre as várias etapas da vida, chamada envelhecimento. Que o isolamento familiar e social só agrava este processo.

Conciliar diminuição e perda de memória, aceitação e uma vida social mais saudável, prazerosa e ativa possível não é fácil. É assim para a grande maioria de todos nós que estamos envelhecendo. A manutenção do convívio familiar e social é essencial para manter-se alerta e exercitar a mente. Ao contrário, o isolamento só a prejudica. Tudo deve ser tentado, tudo deve ser feito para atenuar o processo da diminuição e da perda da memória.

O link abaixo (pago, cerca de 280 reais por ano e cerca de 320 reais por dois anos) é uma excelente ferramenta de exercícios para a mente:
www.lumosity.com

Outras sugestões de links (gratuitos) para exercitar a memória e de dicas para promover e aumentar o convívio social, ouvir boa música, ler bons livros:

rachacuca.com.br/passatempos/jogo-da-memoria/

http://www.revistabula.com/538-100-links-para-clicar-antes-de-morrer-update/

*Márcio de Sá é médico clínico formado pela UFMG, especialista em Medicina Preventiva, Mestre em Saúde Pública pela Université Paris VI, e trabalhou durante 11 anos no Hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris. O médico mora e trabalha no Rio de Janeiro e escreve para o 50emais todas as terças-feira. Envie sugestões de temas que você gostaria que Dr. Márcio abordasse em seus artigos.

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5 Comentários

Dr. Márcio de Sá 18 de novembro de 2015 - 23:15

Cara Lou,
Fico muito satisfeito que o meu artigo tenha-lhe agradado e falado ao seu coração!
Muito obrigado pelo carinhoso comentário!
Um grande e cordial abraço para você.

Responder
Lou Lemos 18 de novembro de 2015 - 16:20

Dr. Márcio, tenho lido regularmente suas dicas, sempre muito importantes, e esta de hoje tem um significado maior, pois fala ao meu coração. Cuidei de minha mãe por 10 anos e a vi perder a memória (DA), pouco a pouco, até tornar-se uma criança. Esta perda de memória parece ser uma característica na família e muito me preocupa. Obrigada por mais estas recomendações e dicas de mudança de comportamento que certamente podem nos proporcionar melhores condições de vida. Um grande abraço. Lou

Responder
Gislayne Matos 18 de novembro de 2015 - 12:18

Dura realidade Dr Marcio, é o ciclo da vida se fechando aos poucos

Responder
Márcio 5 de abril de 2018 - 12:42

Obrigado, Luiza!
Um grande abraço.

Responder
Luiza 18 de novembro de 2015 - 12:12

Excelente artigo e triste verdade quando estamos envelhecendo memória vai como que se dissolvendo vejo isso com minha mãe de 89anos que já não me reconhece e não se lembra de nada.

Responder

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