fbpx

Mesmo que o tempo esteja passando depressa demais

Por Maya Santana

O inverno chegou bem depois que o frio penetrou nas minhas entranhas

O inverno chegou bem depois que o frio penetrou nas minhas entranhas

Déa Januzzi

O vento e as sombras de sexta-feira fazem questão de lembrar-me que o mês de agosto está chegando. Para que ele não dure mais do que 31 dias, vou pedir emprestado a um leitor o seu Oratório de agosto, texto que me enviou para aliviar as incertezas, dissabores e presságios dessa época que parece não ter fim. Para enterrar de vez o pessimismo de agosto, ele escreveu assim: “Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver. Para lembrar Dolores Duran, cujo nome rima com flores, vou antecipar a primavera e florir agosto, que muitos pensam ser de tragédias, de superstições, de desgosto.

Vou florir passeios, pintar calçadas, clarear as fachadas, encantar o rosto de quem anda absorto, atolado em sofrimento, duelando com o vento. Vou trazer flores de maio, da canção bonita, margaridas e girassóis, abrigo e prosperidade.

Espécie de Burle Marx desvairado, vou florir desertos e transformar a areia, de estéril matéria fria, numa inesgotável fonte de energia, e espalhar oásis em terras áridas, ressuscitar as fadas, vestir de branco as mulheres, e nos homens todos, prisioneiros da nostalgia, hei de plantar poesia, para que cantem com alegria, nas noites claras de lua cheia, para a rosa mais linda que houver, para a primeira estrela que brilhar. E como Fernando Pessoa, ao caminhar pelas estradas, hei de olhar para um lado e para o outro, para frente e para trás, e aquilo que verei será sempre aquilo que eu nunca tenha visto, e saberei, então, agradecer à natureza.

Como Cecília Meireles, deixarei que meus dedos corram pelos versos, antes tristes, agora libertos e conectados à terra, de onde tudo vem e para onde tudo volta, e com essa certeza hei de colher encanto, para que a minha voz, antes agressiva, se revista de um suave canto.
Como se não bastasse, vou convocar todos os poetas e também alguns profetas, para que poetizem nas madrugadas, poemas de textura enluarada, e deles farei sementes, para plantar nos corações, pois se as árvores indefesas, os insensíveis arrancam do chão, um poema guardado no peito, ah, isso eles não arrancam, não!

Depois da missão cumprida, armaremos uma grande mesa, farta de pão, vinho e poesia, para nutrir os irmãos, da mais sagrada ceia, recompensa mais que justa, que o corpo tanto anseia. E para que a alma encontre amparo, contra a angústia, o medo, a solidão, hei de clamar aos poetas um poema único, por todos escrito a uma só mão, para que, abençoado, se transforme numa única e universal oração!”.

Para enterrar de vez os maus presságios de agosto queria lembrar que os leoninos, que são muitos, inclusive amigos chegados, festejam o mês com todo o esplendor do Sol que rege o signo. Para quem nasce sob o signo de Leão é tempo de renascer e de comemorar – e não de ter medo. Mas se os ventos soprarem ao contrário e em agosto, por acaso, ocorrer o que você não deseja, não ponha a culpa no mês, que se repete a cada ano, pois também se morre em maio ou em setembro. Também se adoece em outubro ou mesmo em dezembro. Em agosto, também, você pode amar como nunca ou se apaixonar na próxima esquina. Em agosto também a gente pode ser feliz!

A partir de agora fica decretado que agosto terá o mesmo peso de dezembro, quando as pessoas estão mais generosas pelo espírito do Natal, com a mesa farta e a alma leve para compartilhar com outro. Revogam-se as tragédias, e que personagens de agosto sejam apenas lembranças de que poderiam ter partido em outros meses do ano. Ave, Getúlio Vargas e sua carta-suicida, que fez de agosto um mês estranhamente gelado. Ave, Maiacowisky, que não aguentou os próprios versos. Ave, Ernest Hemingway, que em agosto viveu os seus piores dias.

Mas ainda há um inverno dentro de mim, um prenúncio do estranho mês de agosto. Um inverno que congela os ossos e a alma, que entra pelas frestas da porta e vai dormir comigo na mesma cama. Um inverno de pés frios que nem outro pé consegue esquentar. Nem todas as bolsas de água quente nem o escalda-pés com sal grosso no fim de cada noite.

Nem mesmo o alvorecer, com rasgos de vermelhos e alaranjados no céu, prova que é um novo dia no meu coração, que está precisando urgentemente da cola do amor pregada pelo mestre Osho. O inverno chegou bem depois que o frio penetrou nas minhas entranhas. Mas ainda assim eu peço: Livrai-me dos maus pensamentos de agosto, das notícias ruins, porque neste mês só quero paz, com o cheiro embriagante de manjericão que vem do canteiro ao meu lado, afagando o paladar, despertando a fome de viver, mesmo que o tempo esteja passando depressa demais para o meu gosto.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário





2 Comentários

Genoveva 25 de julho de 2015 - 18:00

Ah! Dea, voce e os poetas nos salvam da loucura de todos os dias, nos enlouquecendo com palavras que nos levam até os céus e parece então estarmos levitando e quando de novo pousamos, o caminhar fica mais leve…
É isso que a poesia nos faz…torna possível voltarmos para a realidade recheados de afeto e assim bem armados e protegidos do risco de nos embrutecermos, com os fatos absurdos de nossa sociedade atual.
Carinho e gratidão de Genô

Responder
Pitti Maria Aparecida Grossi Gomes 26 de julho de 2015 - 04:40

Déa, o tempo voa mesmo, rápido como gaivotas em bando. Já no final de julho, olhamos para agosto com o desconfiômetro ligado e já sentimos um certo desconforto com a chegada do mês que se tornou maldito. Ninguém quer saber de casar neste mês, as festas e eventos evaporam, tudo por conta da má sorte de agosto, impregnado de más lembranças, mas muito também se deve ao imaginário popular. Lendo sua crônica, me dei conta, do quanto somos injustos e severos com o mês de agosto e nos deixamos levar por uma onda negativa. De maneira poética, leve e sábia, vem você tão lindamente nos dar uma “sacudida” e nos mostrar que agosto é como qualquer outro mês. Em agosto a gente pode ser feliz. Valeu amiga! Abraço

Responder

Utilizamos cookies essenciais de acordo com a nossa Política de Privacidade e ao continuar navegando, você concorda com estas condições. Aceitar Leia mais