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Metamorfose, Déa Januzzi

Por Maya Santana

Há uma escuridão que não deixa ninguém perceber o balé das borboletas

Há uma escuridão que não deixa ninguém perceber o balé das borboletas

Ela estava igual à borboleta que tentava entrar pela janela fechada, que batia o corpo contra o vidro e se contorcia como se ainda estivesse presa ao casulo. Como se vivesse num mundo sem vento e cheiro de jasmim. As asas, desenhadas com cores vivas, esvoaçavam inutilmente. Ela batia a cabeça, o corpo, ligava as antenas, mas nada.

Muitas vezes, ela se esquecia de voar. Nessas horas, ficava presa ao vidro da janela, sem poder voar tão alto como imaginara. Então, tentava de tudo para deixar de ser lagarta e completar a metamorfose.

Em vão: inquieta, sobrevoava de um lado para o outro, mas sempre encontrava um vidro fechado. Nem uma fresta nem um canteiro de flores silvestres, nem sinal de tardes perfumadas. Era como se tivesse voltado ao invólucro, como se virasse lagarta outra vez, para aprender a crescer, se desenvolver e amadurecer. Nessas horas, era uma simples crisálida. Nada era fácil na vida dessa borboleta presa à janela de vidro.

Ela tinha um medo danado de ser confundida com uma bruxa cinzenta, dessas que provocam espanto e horror por onde passa. Tinha medo de ser pega no ar por um chinelo retumbante. De não ter tempo suficiente para escapar da pancada e de ficar, definitivamente, sem as suas asas. Era assim todas as vezes que encontrava uma janela fechada. Tinha que reaprender a voar, provar que podia chegar bem perto do céu. Podia sentir o calor do sol, dançar entre as nuvens, ver a queda da cachoeira lá do alto.

Às vezes, ela se sentia uma borboleta sem asas, que saíra do casulo antes do tempo, toda amarrotada. Borboletas assim vão, invariavelmente, parar nas janelas fechadas dos apartamentos, sem direito a voos altos. Mas ela sabia da sua capacidade de voar, de encontrar um jardim inteiro de antúrios, margaridas, lírios, gerânios, girassóis e orquídeas. De estar junto à natureza. Tinha certeza de que era possível chegar até a linha do horizonte que separa céu e mar. Ela conhecia a beleza das suas asas, mas estava sozinha naquele momento, sem os filhos de asas azuis, as filhas voadoras, as irmãs borboletas que sempre andavam em bando.

Presa à janela do vidro, ela se perguntava: será que ainda não estava na hora de sair do casulo confortável que a protegia do mundo? Da falta de ar, de vento e de céu para voar? Será que ficaria para sempre na forma de lagarta, até conseguir o voo da plenitude? Será que, um dia, poderia encontrar o seu lugar no mundo?

Ela, então, pensou no tempo em que ficara encapsulada até chegar à beleza da borboleta. Lembrou-se de que permanecera por muito tempo no casulo, sem espaço interior para se mexer. Atenta à própria natureza, ela esperou. Sabia que o casulo era necessário para virar borboleta, porque ela ainda tinha medo de uma vida livre, de poder voar sem destino. Tinha medo de sugar a energia do girassol, de absorver a doçura do lírio, a leveza da margarida.

Ela já fora lagarta, rastejando pelas folhas verdes, decifrando os mistérios da vida. Sabia que não podia lutar contra a predestinação de ser borboleta. Sabia que a saga de lagarta a borboleta era demorada. Mas tinha paciência, tempo e idade para aprender. Mas também percebia que era difícil encontrar lugar no mundo para ser borboleta, pois há lagartas demais por todos os lados. Há pessoas escondidas em casulos perfeitos, de onde se recusam a sair. Há uma escuridão que não deixa ninguém perceber o balé das borboletas.

Ela também já conhecera o escuro e o silêncio do casulo, propícios para a criação. Enquanto esteve lá, aprendeu muito, inclusive a tecer os fios da existência. Lembra-se do momento em que saiu do casulo. De ter sacudido os restos do invólucro. De ter se desvencilhado do emaranhado de fios, de ter aberto, com cuidado, seus olhos de borboleta, de ter acordado mansamente para um novo mundo. De ter experimentado, pela primeira vez, a liberdade de voar.

(*) Esta crônica da jornalista e escritora Déa januzzi foi publicada no site revistaecologico.com.br

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6 Comentários

MaGrace Simão 16 de março de 2017 - 15:19

Linda! Uma pequena história da borboleta simbolizando nosso necessário caminho pela vida.

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Rosangela A. M. Nogueira Grigolleto 4 de outubro de 2015 - 11:23

Adorei. Muito bonita e exemplifica o que para mim é a metamorfose, nada fácil, mas necessária.

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Déa Januzzi 16 de março de 2015 - 09:25

Olá, Dirce, sempre atenta às palavras em sua magia de educar. Obrigada

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Déa Januzzi 16 de março de 2015 - 09:24

Oi, Genoveva, obrigada por palavras tão belas. Gostaria muito de ganhar um presente tão significativo, sempre acho que livros são os melhores presentes. Beijos. Déa

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Dirce Saleh 15 de março de 2015 - 21:41

Esta crônica, Dea, nos leva a tantas coisas de vida… Insatisfação de ser o que somos. Parece que nunca estamos preparados, realmente. Existe tanta insegurança e no entanto a própria borboleta teve seu tempo, assim como nós temos. No entanto quanto mais buscamos mais nos impacamos
E tudo começa de dentro ,para fora Como seria facil se todos entendesem este processo e deixasse continuar. Mas tudo parte deste ponto. O adulto muda o ritual do processo e ai , estaria a verdadeira metamorfose
Com a intensão de ajudar, não observa o individual de cada um, e antecipa . Normatizado… generaliza e criam modelos E querem todos iguais. Quebram o sonho que nos foi de livre escolha ao virmos para cada missão
Aqui lembro me de Rubem Alves, que dizia em seu texto do livro “Alegria de Ensinar “Transformado seus sonhos, foi uma traição que nos condena a infelicidade. E termina com um texto de Paulo Leminski:

“Ai daqueles que não morderam o sonho
e de cuja loucura
nem mesmo a morte os redimirá”

Seria mais facil, se respeitassem nossa liberdade de ser, e com uma observação orientada nos ajudasse o limite de ser com a responsabilidade responsável e coerente Uma concepção diferente da que fomos criados, por isso dificil de ser cumprida

Se pudesse ser assim, nossa metamorfose seria menos dolorida mais espiritual, pois é esse espirito que chegamos e terminamos essa nossa jornada de vida terrena, que vai continuar e ser eterno E viver outra vida , quem sabe?

Assim termino por isso ” Há uma escuridão que não deixa ninguém perceber o balé das borboletas.

Beijinhos carinhosos , querida Linda reflexão

Dirce Saléh 15 /02 /2015

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Genoveva 15 de março de 2015 - 18:59

Déa,
Cronica para alimentar nossa alma, tão sedenta de delicadezas e significados …
Mais que isso… me traz lembranças de uma “lagarta”, que levou um tempo para entender que não era a bruxa assustadora que pensava, descobriu-se borboleta e encantada com vôos coloridos que fazia, partiu para outras transformações almejadas por todos nós…
Veja esse livro encantador que já é muito conhecido e que gostaria (se assim fosse possivel) de presentea-la, como retribuição a sua belissima cronica, que tanto nos encanta!

De Lagarta A Borboleta
Maria Salette, Wilma Ruggeri

Sinopse

Quantas vezes queremos mudar nossa vida, as pessoas que nos rodeiam, as situações que vivemos, e nos frustramos, porque não reconhecemos que, para alçarmos vôos mais altos, para sermos mais belos, plenos e realizados, precisamos, antes de mais nada, entrar em nosso casulo, em nosso refúgio interior, para daí, com nossos próprios recursos, tecermos nossa transformação. E então partimos para a jornada em busca da plenitude. Neste livro Maria Salette e Wilma Ruggeri proporcionam ao leitor uma viagem interior em busca de autoconhecimento e de crescimento pessoal, utilizando a história da transformação da lagarta em borboleta, transformação que sempre fascinou o ser humano.

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