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Michael Haneke, o artista do mal-estar

Por Maya Santana

Com "Amor", o diretor austríaco reafirma sua posição como um dos grandes cineastas em atividade – e o mais preocupado em incomodar o público

Com “Amor”, o diretor austríaco reafirma sua posição como um dos grandes cineastas em atividade – e o mais preocupado em incomodar o público

Guilherme Pavarin

Com “Amor”, o diretor austríaco reafirma sua posição como um dos grandes cineastas em atividade – e o mais preocupado em incomodar o público.

“Nada disso merece ser mostrado”, diz o personagem Georges, um aposentado de 80 anos, ao impedir que sua filha Eva veja a mãe doente, muito magra, de cama, no quarto. A cena está no aclamado longa-metragem Amor, do austríaco Michael Haneke, em cartaz no Brasil. Com a metade do corpo paralisada, sem conseguir falar ou comer, a mulher definha com lentidão, em direção ao fim. Para preservar mãe e filha, Georges tranca a porta onde a doente repousa. Não quer que as duas se olhem. Ele dá a entender que a situação seria aflitiva demais para as duas. Outros familiares, amigos e vizinhos também são poupados. Os únicos que assistem ao espetáculo da decadência são o marido, as enfermeiras e, claro, os espectadores.

Sem sutilezas, Amor marca a consagração do estilo bruto e sublime do cinema de Haneke. Nos últimos meses, o filme levou a Palma de Ouro em Cannes, o Globo de Ouro de Filme Estrangeiro e recebeu cinco indicações ao Oscar: Melhor Filme, Filme Estrangeiro, Roteiro, Direção e Atriz (a francesa Emmanuelle Riva, de 84 anos, no papel de Anne, a doente, se tornou a mais velha indicada ao prêmio). Boa parte dos críticos já considera Amor uma obra-prima. Para eles, trata-se do auge da filmografia subversiva e incômoda de Haneke. Ele já tratou do suicídio de uma família inteira (O sétimo continente, 1989), da injustificada tortura de outra (Violência gratuita, 1997 e 2007), de mutilações sexuais (A professora de piano, 2001) e de crueldade (A fita branca, 2009, também vencedor da Palma de Ouro de Cannes, em 2010).

Em Amor, a provocação de Haneke está em mostrar até onde o ser humano pode ir para lidar com a doença terminal de alguém que ama. “Para Haneke, quanto mais incomodado o espectador ficar, melhor”, diz o professor e crítico de cinema Sérgio Rizzo. “Ele usa a estratégia de tirar o público de uma área confortável. Se o espectador sair da sala como entrou, Haneke não atingiu seu objetivo.”

Aos 70 anos, casado e pai de quatro filhos, ele vive na Áustria. Com 1,91 metro de altura, Haneke está sempre vestido com ternos elegantes. Preocupa-se tanto com a aparência que já foi chamado por um jornalista de “Gandalf trajando alta-costura”, uma referência ao imponente mago de cabelos brancos da saga Senhor dos anéis. É professor de direção da Academia de Cinema de Viena e só para de lecionar quando está gravando. Haneke estudou psicologia, filosofia e ciências teatrais na Universidade de Viena. Quando criança, queria ser pianista, mas o padrasto o convenceu de que não levava jeito. Ele diz que agradece ao toque até hoje, mas trata de enfiar personagens pianistas em seus filmes. Conta que na primeira vez que foi ao cinema, aos 6 anos, assistiu a Hamlet, com Laurence Olivier, e teve de ser levado para fora, apavorado. Quando lhe perguntam sobre o significado de seus filmes, ele responde com ironia: “Não conheço direito o diretor”. Quando fala, defende que suas obras não têm explicações. “Devemos dar espaço para contradições e complexidades”, disse ao jornal inglês The Observer. Fonte: Época

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2 Comentários

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ana maria 1 de fevereiro de 2013 - 12:58

posso ir ao cinema e ficar muito incomodada – como quer o diretor. Ir pra casa e ficar pensando no filme e onde ele mexeu comigo. Mas não quero me sentir mal, não ajuda em nada. Não entendo porque as pessoas gostam tanto deste filme.

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Déa Januzzi 31 de janeiro de 2013 - 21:02

Amor é, de fato, a velhice real, sem subterfúgios, sem vendas. Adorei o filme!

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