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Minha Infância, por Cora Coralina

Por Maya Santana

Ela linda mulher morreu aos 95 anos de idade, depois de encantar o mundo com seus poemas

Ela morreu aos 95 anos de idade. Seus poemas encantam o mundo

Éramos quatro as filhas de minha mãe. Entre elas ocupei sempre o pior lugar. Duas me precederam – eram lindas, mimadas. Devia ser a última, no entanto, veio outra que ficou sendo a caçula.

Quando nasci, meu velho Pai agonizava, logo após morria. Cresci filha sem pai, secundária na turma das irmãs.

Eu era triste, nervosa e feia. Amarela, de rosto empalamado. De pernas moles, caindo à toa. Os que assim me viam – diziam: “- Essa menina é o retrato vivo do velho pai doente”.

Tinha medo das estórias que ouvia, então, contar: assombração, lobisomem, mula sem cabeça. Almas penadas do outro mundo e do capeta. Tinha as pernas moles e os joelhos sempre machucados, feridos, esfolados. De tanto que caía. Caía à toa.

Caía nos degraus. Caía no lajedo do terreiro. Chorava, importunava. De dentro a casa comandava: “- Levanta, moleirona”. Minhas pernas moles desajudavam. Gritava, gemia. De dentro a casa respondia: “- Levanta, pandorga”.

Caía à toa…nos degraus da escada, no lajeado do terreiro. Chorava. Chamava. Reclamava. De dentro a casa se impacientava: ” – Levanta, perna-mole…” E a moleirona, pandorga, perna-mole se levantava com seu próprio esforço.

Meus brinquedos… Coquilhos de palmeira. Bonecas de pano. Caquinhos de louça. Cavalinhos de orquilha. Viagens infindáveis…Meu mundo imaginário mesclado à realidade.

E a casa me cortava: “menina inzoneira!” Companhia indesejável – sempre pronta a sair com minhas irmãs, era de ver as arrelias e as tramas que faziam para saírem juntas e me deixarem sozinha, sempre em casa.

A rua… a rua!… (Atração lúdica, anseio vivo da criança, mundo sugestivo de maravilhosas descobertas) – proibida às meninas do meu tempo. Rígidos preconceitos familiares, normas abusivas de educação – emparedavam.

Caricatura da poeta goiana por Mônica Reis

Caricatura da poeta goiana por Mônica Reis

A rua. A ponte. Gente que passava, o rio mesmo, correndo debaixo da janela, eu via por um vidro quebrado, da vidraça empanada. Na quietude sepulcral da casa, era proibida, incomodava, a fala alta, a risada franca, o grito espontâneo, a turbulência ativa das crianças.

Contenção… motivação…Comportamento estreito, limitando, estreitando exuberâncias, pisando sensibilidades. A gesta dentro de mim… Um mundo heroico, sublimado,superposto, insuspeitado, misturado à realidade.

E a casa alheada, sem pressentir a gestação, acrimoniosa repisava: ” – Menina inzoneira!” O sinapismo do ablativo queimava.

Intimidada, diminuída. Incompreendida. Atitudes impostas, falsas, contrafeitas. Repreensões ferinas, humilhantes. E o medo de falar… E a certeza de estar sempre errando…Aprender a ficar calada. Menina abobada, ouvindo sem responder.

Daí, no fim da minha vida, esta cinza que me cobre… Este desejo obscuro, amargo, anárquico de me esconder, mudar o ser, não ser, sumir, desaparecer, e reaparecer numa anônima criatura sem compromisso de classe, de família.

Eu era triste, nervosa e feia. Chorona. Amarela de rosto empalamado, de pernas moles, caindo à toa. Um velho tio que assim me via dizia: “- Esta filha de minha sobrinha é idiota. Melhor fora não ter nascido!”

Melhor fora não ter nascido…Feia, medrosa e triste. Criada à moda antiga,- ralhos e castigos. Espezinhada, domada. Que trabalho imenso dei à casa para me torcer, retorcer, medir e desmedir. E me fazer tão outra, diferente, do que eu deveria ser. Triste, nervosa e feia. Amarela de rosto empapuçado. De pernas moles, caindo à toa. Retrato vivo de um velho doente. Indesejável entre as irmãs.

Sem carinho de Mãe. Sem proteção de Pai…- melhor fora não ter nascido.  E nunca realizei nada na vida. Sempre a inferioridade me tolheu. E foi assim, sem luta, que me acomodei na mediocridade de meu destino.

Retirado do livro Melhores Poemas; seleção e apresentação Darcy França Denófrio. São Paulo: Global, 3a edição, 2008. 4a reimpressão, 2011. ps. 95 a 100)

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39 Comentários

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Maria José dos Santos 4 de julho de 2019 - 10:00

Acabei de ler o livro “Cora Coralina, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”. Foi um lindo presente que ganhei de minha filha. São poemas belos, emocionantes e em muitos me identifiquei com minha infância. E, este “Minha Infância” em particular, é incrível. Nos faz chorar. Quanta simplicidade Cora traz em suas belas palavras e lembranças em poemas tão deliciosos de ler. Amo muito, e fiquei com muita vontade de conhecer a casa onde a mesma morou. Ah! eu irei.

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Taysen Oliveira 7 de março de 2019 - 13:49

Recitei esse poema na faculdade, muito profundo, ainda o tenho em mente.

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Boêmia costa 22 de novembro de 2018 - 17:32

Li a história dela em livro e visitei a casa onde morou em Goiás.
E confesso que chorei muito, de emoção e ao lembrar sua história.

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luis gabriel 23 de agosto de 2018 - 18:06

cora é a melhor poeta

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Fatima Inacio 16 de março de 2018 - 12:49

Cora Coralina! Poetiza goiana, mulher que deixou muitos exemplos.
Bela trajetória!
Orgulho-me de ser goiana!

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Virgínia 13 de dezembro de 2017 - 05:12

Coralinda !!

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Conceição Dourado 1 de outubro de 2017 - 14:29

Eu nunca fui feia, nem tinha pernas moles, mas certos sentimentos que ela descreve servem mto par a mim, mas não me tornaram uma poeta. Adoro vc Cora

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Edna Negrão Quaresma 1 de outubro de 2017 - 08:37

Escrever foi sua grande terapia. Às vezes não conseguimos expressar nossos sentimentos com palavras, mas podemos escrever. Ela nos ensina que existe um grande potencial em cada ser humano. A feia foi na verdade uma bela poetiza e nos inspira a também expressar nossos sentimentos escrevendo. E que nunca é tarde para começarmos.

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Cristina Martins 26 de setembro de 2017 - 16:44

Maravilhosa Cora , das pedras no caminho , juntou todas e fez um castelo. Onde quer que se encontre vera que nao tem nada de perna fraca mto pelo contrario, forte, bela e cativante.!!!!

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ana 20 de abril de 2017 - 11:24

Linda e triste!

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Helio 19 de abril de 2017 - 08:22

…eu tenho todas as idades… Resposta de Cora qdo perguntaram sua idade.

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Inaiá Maria Ribeiro Lopes 18 de abril de 2017 - 14:07

Que descrição corajosa, porque se trata de infamar o imaculado, o sacrossanto e intocável recinto de um lar!

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Cláudia Sotorilli 18 de abril de 2017 - 12:54

Por mais que tenha ficado escondida atrás de suas irmãs a sua beleza interior e suas lindas poesias vieram trazer a nós mulheres o alento de nunca desistir!!!
Deixou grandes exemplos na literatura…
Ahhh… como gosto dessa MULHER FORTE!!!

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Graca 7 de outubro de 2016 - 13:43

Amo as poesias de Cora Coralina

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Selme 9 de maio de 2016 - 23:19

O tanto que a ignorância e a percepção cura e imediata das pessoas pode fazer em pedaços um ser que foge ao estereótipo … Quando maldade uma alma curta pode alcançar espíritos de vôos infinitos… Mas ela venceu , reuniu seus pedaços e costurou em beleza poética… Mulher única !!!! Sinto saudade de nunca tê-la convivido … Obrigada Cora Coralina… Até seu nome é poesia!!!

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vera lucia caldas amancio 30 de outubro de 2015 - 16:25

Gosto muito dos poemas de Cora Coralina tem um poema que que ela diz Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou ensinou a amar a vida Não desistir da luta Recomeçar na derrota. Renunciar a palavras e pensamentos negativos acreditar nos valores humanos. Ser otimista! E muito lindo São palavras para nos dar animo !

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Rosane Luchtenberg 19 de outubro de 2015 - 18:06

Maravilhosa Cora! eterna Cora Coralina!

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Maria José do Carmo Mármori 19 de outubro de 2015 - 08:41

A conheci muito quando morei em Goiás Velho estudante do colégio SANTANA . Mulher admirável ,talentosa doceira de primeiro!!!!!! Deus a tenha em bom lugar!!!

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Idalina Maria Lima 18 de outubro de 2015 - 20:36

Cora Coralina! Sempre me emociono com tudo que ela escreve! Tive o grande prazer de ter conhecido sua antiga casa e atualmente museu, na cidade de Goiás Velho! Ela me faz sentir orgulho de ser brasileira! Obrigada minha poetiza! Por enriquecer nossa cultura!

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Glicia 18 de outubro de 2015 - 12:20

Superou a maldade e registrou o seu triunfo, para inspirar outros a lutar também, sempre.

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Leda Gomes 18 de outubro de 2015 - 08:54

Admiro muito essa mulher, estou me preparando, criando coragem para escrever um livro no alto dos meus 62 anos, onde pretendo contar: O QUE GANHEI COM UM CÂNCER DE MAMA.
Ainda estou em fase de recuperação, nem sequer tirei o dreno; porém já foram tantas as vitórias desde o dia do descobrimento do nódulo até aqui que acredito vale a pena contar.

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Gabriela 19 de abril de 2017 - 06:21

…Com certeza que vale, fez parte da sua história…Muita força. Abraço

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fernanda armoni 5 de setembro de 2014 - 19:03

Adoro os poemas de Cora Coralina! mukger valente, corajose, animada!!!
Parabens para ela.

Fernanda

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Esmeralda 4 de setembro de 2014 - 23:55

Maravilhosa Cora! Conta suas histórias e todos sentimos um pouco dessa personagem linda. Obrigada pela escolha dessa poetisa doceira.

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Nenez 4 de setembro de 2014 - 12:16

Simplesmente belo!!!!!!!!

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ÁUREA GONTIJO 12 de agosto de 2014 - 22:27

grande Cora Coralina!!!!!!!

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Lucia Silveira 8 de agosto de 2014 - 22:41

Meio parecida com ela… cresci isolada… quieta… no mundo dos livros… mas era bonita we diziam que inteligente … ainda não sei… não acredito, acho. Embora tenha feito curso superior e pós-graduação… mas não acredito… pasma fico comigo mesma… não tinha pernas moles, mas eram gordas.. ou ainda são… embora digam que não. Amo Cora Coralina !!!!

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Regina Mele 13 de dezembro de 2017 - 13:27

Mas a firma como nos vemos nos define. Pode ser q Cora não tenha sido tão feia. Mas se via assim. É o q basta p perdermos td. Tb me sinto assim. Por mais q digam a voz da inferioridade parece sempre falar mais alto. Lutemos. Só uma vida temos. Um abraço p vc.

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Lidia 7 de agosto de 2014 - 14:14

<3

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Nilza Beatriz Lyrio Renz 6 de agosto de 2014 - 23:09

Maravilhosa!…Uma poesia que emociona e faz o coração transbordar com a simplicidade e magia das palavras. Insubstituível !!!

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Hélio Pereira Cunha 12 de abril de 2014 - 23:05

Cora, Coralina! Chorei! Você parece muito com minha vó. No céu, onde você está, mantenha sua beleza!

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Valmir de Macedo 15 de setembro de 2020 - 13:58

Por mais que tentaram, não conseguiram apagar o brilho maravilhoso desta jóia raríssima, que demorou pra ser vista e admirada. Mas merecidamente acabou por conquistar seu lugar na imortalidade no mundo da literatura. Quiçá, no Reino do Pai Eterno. Amo-a infinitamente pela sua magnanimidade.

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Hélio Pereia Cunha 12 de abril de 2014 - 23:00

Cora, Coralina, chorei! Você parece muito com minha vó. No céu você está linda!

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Ângela Maria 1 de outubro de 2017 - 22:37

Amo Cora, sempre me emocionando…

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Francisca Cavalcante 7 de março de 2014 - 20:35

amo essa mulher, é com a tivesse conhecido, sou sua fã desde que conheci seus livros m eespelho em sua história , magnifica simplesmentemaravilhosa queria ter conhecido.

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Toninho Reis 24 de abril de 2013 - 13:55

Muito forte, fortissimo,realmente eh de emocionar, tenho certeza onde ela estiver,eh a pessoa mais linda,e mais esperta com os mesmos honestos dizeres!!………………..

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Déa Januzzi 24 de abril de 2013 - 13:52

E pensar que tanto talento só veio ao mundo quando Cora estava com 70 anos. Com sua poesia linda, sedutora, forte e eterna como ela. Amo!!!!

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Te dá MS machado 18 de abril de 2017 - 10:36

Soube mastigar a dor e fazer das pedras a passarela para viver a velhice!

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lisa santana 24 de abril de 2013 - 12:30

Cora, Cora,…Esteja aonde estiver, como você me emociona aqui, agora! Como vcê me revira a vida! Cora! Cora!…

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