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A violência contra a mulher brasileira chegou a um nível que não dá mais para aceitar. Depois das barbaridades que o país tomou conhecimeto nesta semana, mulheres de todas as partes vão sair às ruas neste domingo (7), num protesto nacional contra essa onda de covardia que vem assolando o Brasil.
“A recente sucessão de feminicídios, consumados ou tentados, com requintes de crueldade, é um ataque sem precedentes a nós, mulheres brasileiras. É preciso, nessas horas, que a mulher se escreva. Que a mulher escreva sobre a mulher,” afirma Ruth Aquino neste artigo em que externa toda a sua indignação com a situação que estamos vivendo.
“Homens abusivos nem se limitam mais a espaços privados, como a casa, a sala e o quarto,” observa ela, acrescentando: “Elevadores têm revelado cenas indigestas de surras. Academias de ginástica. Ruas. Calçadas. Não importa onde. A arma pode ser o revólver, o canivete, a faca, o fogo. O carro. O punho. As mãos.”
Leia o artigo completo, publicado por O Globo:
Tem semanas que a gente se sente como quem partiu ou morreu. A gente estancou de repente. Ou foi o mundo que emudeceu. A gente quer ter voz ativa. No nosso destino mandar. Mas eis que chega a roda-viva. E carrega o destino pra lá.
Carrega. Atropela. Arrasta. Amputa. Fuzila. Estupra. Enforca. Esquarteja. Espanca. Sequestra. Tortura. Abusa. Queima. Humilha. Desfigura.
Sei muito bem que a picanha no freezer do deputado enfeitado de ouro e a prisão de seu amiguinho, o presidente engomado da Assembleia Legislativa do RJ, se tornaram assuntos mais picantes para os memes. Pela desfaçatez.
Mas a recente sucessão de feminicídios, consumados ou tentados, com requintes de crueldade, é um ataque sem precedentes a nós, mulheres brasileiras. É preciso, nessas horas, que a mulher se escreva. Que a mulher escreva sobre a mulher.
Porque, se não escrevermos, quem escreverá? Mulheres são invisibilizadas. Na História, na política, na arte.
O inverso não acontece, e nossos companheiros sabem disso. As mulheres não saem por aí matando homens por vingança ou tesão. Então, mães e pais, há algo muito errado na educação masculina. Não se explica geneticamente esse comportamento. Não se nasce homem, torna-se, parafraseando Beauvoir.
Rancor e ódio todo mundo sente. Como lidar com isso? Como os homens lidam com a insegurança, o complexo de inferioridade, o narcisismo e o sentimento de posse? Como controlam a força? Como aceitam mulher na chefia? Como enxergam sua filha, sua mãe, sua namorada, sua mulher?
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Homens abusivos nem se limitam mais a espaços privados, como a casa, a sala e o quarto. Elevadores têm revelado cenas indigestas de surras. Academias de ginástica. Ruas. Calçadas. Não importa onde. A arma pode ser o revólver, o canivete, a faca, o fogo. O carro. O punho. As mãos.
E isso virou uma epidemia no Brasil. Uma chacina de gênero. Permanente. Quinze mulheres são atacadas por dia por serem mulheres. Quatro morrem. As restantes sobrevivem, muitas mutiladas e deformadas.
Há uma corrente que culpa a internet pelo aumento da brutalidade contra a mulher. Fala-se do movimento red pill. O termo surgiu no filme Matrix. Tomar a “pílula vermelha” era acordar para a realidade. O mundo red pill foi apropriado por misóginos.
Adolescentes são ensinados a enxergar a mulher como inimiga, aproveitadora. A mulher que não se submete à masculinidade dominante é vagabunda. Ou feminista. O red pill abomina conquistas femininas. Catequiza o jovem para não ser sensível. Porque empatia seria fraqueza.
Mas nada disso é novidade. Sempre foi assim. Só com outro nome.
Eu resisto a culpar a internet. Na vida de antigamente, sem internet, nem se chamava feminicídio. Tudo era sussurrado e cometido entre quatro paredes. Hoje, as redes estão inundadas de alertas. De influencers do bem.
Sigo Tainá de Paula, arquiteta e urbanista, negra, a vereadora petista mais votada do Rio. Muito articulada. Deveria subir na hierarquia do PT.
O governo Lula tem outras prioridades. Compreensível. Mas algo precisa ser feito com urgência. Não bastam declarações bombásticas como “vagabundo que bate em mulher não precisa votar em mim”. Ou “até a morte é suave para punir animal irracional”.
Adianta prisão perpétua? Como fez a Itália? Não sei. Mas acho que seria positivo sim. As penas não endureceram o suficiente. No Brasil, feminicídio se tornou crime hediondo em 2015. Agravaram as sentenças, mas não o bastante.
O discurso de Lula é indignado. “Eu vou lutar contra o feminicídio. Sou um soldado dessa causa”.
Quero ver isso, presidente. Na prática, não no palco.
Minha mãe me dizia: “Tenha filhos homens. Eles sofrem menos”. Imagino o que diria se ainda estivesse viva.
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