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Morta há 30 anos, Cora Coralina ganha filme sobre sua vida

Por Maya Santana

Cora Coralina, nascida em Goiás, morreu há 30 anos

Escritora e doceira, Cora Coralina, nascida em Goiás, morreu há 30 anos

Correio Braziliense –

A estreia do longa-metragem Cora Coralina – Todas as vidas, na cidade de Goiás (no próximo sábado, durante o Fica), confirma não apenas o vínculo estrito entre a escritora e a cidade, mas também a multiplicidade da persona de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, que usava o pseudônimo de Cora Coralina. Morta há 30 anos, a autora demandou o esforço de cinco atrizes, que a interpretam em diferentes fases da vida, e outras seis se dedicaram, em estúdio, à interpretação de poesias de Cora Coralina. “Ela é múltipla: não gostava quando perguntavam que idade tinha, pois entendia que tinha todas as idades. Sua doação total ao mundo fez com que se identificasse, para além de si, com o outro, e vivesse todas as vidas. Cora é uma de nossas gigantes”, comenta o diretor do filme, Renato Barbieri. Leitor assíduo de ensaios, romances e contos, Barbieri sempre se identificou com a poesia e o pensamento de Cora. Daí, considerar o filme “um presente”.

O entusiasmo de Barbieri se estende, ao destacar o “notável” time de atrizes envolvidas na produção. Entre as intérpretes, está a pequena Camila, trineta de Cora que a revive, quando ainda chamada de Anninha. Noutros planos do filme, que mescla ficção e documentário, estão Walderez de Barros, Beth Goulart, Zezé Motta, Teresa Seiblitz, Camila Márdila (brasiliense premiada no Festival de Sundance) e Maju de Souza. O tom é diferente de tudo o que o cineasta já havia produzido. Como instrumentos, Barbieri teve à mão recursos de depoimentos e a inclusão de própria poesia de Cora Coralina.

Extrapolar o circuito dos admiradores da própria escritora e doceira (além de sua poesia) foi uma das metas do discurso de Cora Coralina – Todas as vidas. “Há potencial para ressonar mais, dada a universalidade do pensamento de Cora e da modernidade implícita nas criações literárias. Além disso, a vida de Cora é cinematográfica, pois é uma mulher que deixou sua marca por onde passou”, comenta o diretor. Desenvolvido ao longo de um ano, o longa expõe novidades, para muitos. “Há quem pense que ela viveu sempre em Goiás; mas esteve por 45 anos no estado de São Paulo. Cora foi empreendedora, ativista, ambientalista, poeta e doceira, e é um exemplo de doação total: uma mulher à frente de seu tempo”, comenta Barbieri.

A poetisa na cozinha de sua casa, na cidade de Goiás Velho

Cena do filme mostra a poetisa na cozinha de sua casa

Retorno
Convidado pelo colega Marcio Curi (que assina a produção, ao lado de Beth Curi e Carmen Flora) e pelo neto da escritora, Paulo Bretas Salles, o também roteirista (com Regina Pessoa) Renato Barbieri mergulhou, novamente, em universo que já havia explorado, na primeira metade dos anos 1980, ao lado de diretores da produtora paulista Olhar Eletrônico, para uma matéria especial em vídeo. “Havia acompanhado, com muito interesse, a revelação da escritora nonagenária, popularizada, à época, pelo lançamento de três livros. Era uma escriba anciã que falava da vida e das coisas de Goiás de uma forma envolvente. Desde então, me tornei fã de Cora, e o convite para o filme me soou como uma suave música”, avalia.

Veja o Trailer – Todas as Vidas – Cora Coralina from ASACINE Produções on Vimeo.

Leia o lindíssimo poema de Cora Coralina do qual o título do filme foi tirado:

TODAS AS VIDAS

Vive dentro de mim

uma cabocla velha

de mau olhado, acocorada ao pé do borralho,

olhando para o fogo.

Benze quebranto.

Bota feitiço…

Ogum. Orixá.

macumba, ferreiro.

Ogã, pai-de-santo…

Vive dentro de mim

a lavadeira do Rio Vermelho,

seu cheiro gostoso

d’água e sabão.

Rodilhada de pano.

Trouxa de roupa,

pedra de anil.

Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim

a mulher cozinheira.

Pimenta e cebola.

Quitute bem feito.

Panela de barro.

Taipa de lenha.

Cozinha antiga

toda pretinha.

Bem cacheada de picumã.

Pedra pontuda.

Cumbuco de coco.

Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim

a mulher do povo.

Bem proletária.

Bem linguaruda,

desabusada, sem preconceitos,

de casca-grossa,

de chinelinha,

e filharada.

Vive dentro de mim

a mulher roceira.

Enxerto da terra,

meio casmurra.

Trabalhadeira.

Madrugadeira.

Analfabeta.

De pé no chão.

Bem parideira.

Bem criadeira.

Seus doze filhos.

Seus vinte netos.

Vive dentro de mim

a mulher da vida.

Minha irmãzinha…

Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:

Na minha vida –

a vida mera das obscuras.

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