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Mundo redescobre a beleza do trabalho de Elizabeth Bishop

Por Maya Santana

Elizabeth Bishop (1911-1979), que morou muitos anos no Brasil, é uma das maaiores poetas de lingua inglesa

Elizabeth Bishop, que morou muitos anos no Brasil,- é uma das maiores poetas de lingua inglesa

Maya Santana, 50emais

A americana Elizabeth Bishop(1911-1979), reconhecida como uma das maiores poetas da língua inglesa, viveu muito tempo no Brasil. Primeiro, no Rio e em Petrópolis, na lendário Fazenda Samambaia; mais tarde, em Ouro Preto, em Minas, onde chegou a ter uma casa. Elizabeth veio parar no Brasil por acaso. Aqui, se apaixonou pela arquiteta criadora do Aterro do Flamengo, Lota de Macedo Soares. E aqui ficou por longos anos. O desfecho da história das duas, contada no filme “Flores Raras”, foi trágico. Mas a poeta seguiu em frente: foi professora em Harvard, em Boston, nos EUA, uma das três universidades mais importantes do mundo. E continuou produzindo sua fina poesia,inspirada na sua história de vida – uma das mais tristes registradas na literatura: o pai morreu quando era bebê. Aos quatro anos, foi entregue a parentes, depois que a mãe enlouqueceu.Elizabeth Bishop morreu nos Estados Unidos, aos 68 anos, em 1979.

Leia o artigo de Marta Rebón para o El País:

Em 1951, aos 40 anos, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop parte de Nova York em um cargueiro com o desejo de dar a volta ao mundo. Não é uma simples turista em busca de prazeres e inspiração. Ao se expatriar, deseja soltar lastro, escapar de um pesado fardo cheio de episódios de depressão e alcoolismo, alternados com fortes ataques de asma e surtos de eczemas, que ameaçam truncar sua carreira como escritora. A competitiva cena literária nova-iorquina, somada à solidão que ali a invade, choca-se com seu extremado acanhamento e fragilidade emocional, marcados pela ausência de um pai que, morto prematuramente, não chegou a presenciar seu primeiro aniversário, e de uma mãe que, afundada pela dor, não tardou a ser internada num manicômio e a desaparecer por completo da sua vida.

Lota  de Macedo Soares (1910-1967), arquiteta, criadora do Aterro do Flamengo

Lota de Macedo Soares (1910-1967), arquiteta, criadora do Aterro do Flamengo

A partir de então, Elizabeth ficará às vezes sob os cuidados da família paterna, e às vezes da materna, sem chegar a encontrar o calor de um verdadeiro lar. Na verdade, quando vive com as irmãs de sua mãe, seu “sádico” tio a submete a abusos que só confessará, décadas mais tarde, ao seu psiquiatra, como revela a recente biografia Miracle for Breakfast (“milagre no café da manhã”), de Megan Marshall. Não é de estranhar que, numa entrevista à The Paris Review, Bishop tenha confessado que quando menina se sentia como uma convidada. “Acho que sempre me senti assim”, dizia. Marshall, ex-aspirante a jovem poeta e ex-aluna dela em Harvard em 1976, conta por email que Bishop “não acreditava que se pudesse ensinar a escrever, e dizia que os poemas, no seu caso, começavam como um mistério e uma surpresa, e que os concluía à base um de grande esforço e de árduo trabalho”.

O navio SS Bowplate, cujo destino era a Terra do Fogo, faz sua primeira escala no porto de Santos, e a escritora a aproveita para visitar, no Rio do Janeiro, um compatriota dela e sua mulher, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, a quem havia conhecido quatro anos antes em Manhattan. A viagem toma então uma direção imprevista: obrigada a passar semanas de cama por causa de uma intoxicação virulenta, acabará por permanecer mais de quinze anos no Brasil. Sua anfitriã, a quem todos chamam de Lotta, nascera em Paris e era filha de um magnata da imprensa carioca.

Uma das poucas fotos de Elizabeth e Lota juntas

Uma das poucas fotografias de Elizabeth e Lota juntas

O navio SS Bowplate, cujo destino era a Terra do Fogo, faz sua primeira escala no porto de Santos, e a escritora a aproveita para visitar, no Rio do Janeiro, um compatriota dela e sua mulher, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, a quem havia conhecido quatro anos antes em Manhattan. A viagem toma então uma direção imprevista: obrigada a passar semanas de cama por causa de uma intoxicação virulenta, acabará por permanecer mais de quinze anos no Brasil. Sua anfitriã, a quem todos chamam de Lotta, nascera em Paris e era filha de um magnata da imprensa carioca.

Veja trecho do filme Flores Raras (em inglês, Reaching for the moon), que conta a história do amor entre a poeta americana e a arquiteta brasileira, criadora do Aterro do Flamengo, Lota de Macedo Soares:

Tudo o que Lotta tem de expansiva e segura, Bishop tem de tímida e introspectiva, mas da combinação desses polos opostos surge um vínculo que transformará a vida e a obra de ambas. Para Bishop, isso representou fincar raízes pela primeira vez em um lugar e se permitir ser merecedora do amor de alguém: “Às vezes, parece que só as pessoas inteligentes são estúpidas o suficiente para se apaixonar, e que só as estúpidas são inteligentes o suficiente para se permitirem ser amadas”, escreveu em um caderno. Quando seus caminhos se cruzam — Bishop já havia publicado um primeiro livro de poemas, Norte e Sul. Sledge observa que sua “escrita era um trabalho tão rigoroso que deixar um poema em um ponto aceitável podia levar anos”. Clique aqui para ler mais sobre a vida de Elizabeth Bishop. Mas, antes, leia um de seus mais belos poemas:

A arte de perder
A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça muito sério

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1 Comentários

Mundo redescobre a beleza do trabalho de Elizabeth Bishop | JETSS – SITES & BLOGS 18 de abril de 2017 - 07:48

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