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Não adiem os começos, porque o fim já está dado

Por Maya Santana

Eliane Brum: "nosso mundo acaba várias vezes no espaço de uma vida"

Eliane Brum: “Nosso mundo acaba várias vezes no espaço de uma vida”

Eliane Brum ~-

Para aqueles que acreditaram no fim do mundo e para aqueles que não acreditaram: nosso mundo acaba várias vezes no espaço de uma vida. Mas sempre temos a chance de recomeçar, dando outros sentidos para as marcas que carregamos, sentidos que nos permitam criar novas versões de nós mesmos ou pelo menos olhar para a atual com mais generosidade. Um dia, porém, o meteoro chega. E chega para todos, sem que nenhum de nossos tremendos esforços e vastas ilusões seja capaz de mudar o final.

São muitos os pequenos fins de mundo – e desconfio que os grandes apocalipses nos distraem dessa verdade, como tantas outras manchetes em neon que nos cegam dia após dia. É um pequeno mundo que acaba quando já não podemos contar com a ignorância que nos fazia viver como se houvesse sempre amanhã. É um pequeno mundo que acaba no primeiro cabelo branco ou na primeira queda, na primeira ruga ou na primeira dor na coluna. É um pequeno mundo que acaba no momento em que percebemos que já não seremos bailarinas clássicas ou jogadores de futebol ou escreveremos o romance que mudará a história da literatura universal ou faremos a descoberta que nos levará ao Nobel – no exato instante em que descobrimos que precisamos adaptar nossos grandes planos.
(…)

A cada um desses pequenos apocalipses temos a chance de recomeçar. Partidos, aos pedaços, às vezes colados como um Frankenstein de filme B. Enquanto o meteoro não chega há sempre um possível que podemos inventar. Se os anúncios de fim do mundo servem para alguma coisa, além de fazer piadas e encher os bolsos de alguns espertos, é para nos lembrar de que o mundo acaba mesmo. Não em apoteose coletiva, com dia e hora determinados, mas na tragédia individual, sem alarde e sem aviso prévio, que desde sempre está marcada na vida de cada um de nós.

Meus votos de Natal e Ano-Novo pós-apocalipse são: não adiem os começos, porque o fim já está dado.

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1 Comentários

José Angi Junior 8 de dezembro de 2015 - 17:46

Eliane,
Parabéns pelo excelente texto. Sempre que alguém me fala sobre “fim do mundo”, eu digo – Ora, o mundo não acaba pra cada pessoa que morre? Se o mundo acaba na experiência individual, qual a diferença se todos morrerem na mesma data e hora? A morte é pessoal e intransferível. Portanto, o mundo acabaria individualmente 7 bilhões de vezes…”
E pra terminar, como dizia Millôr, a vida é o intervalo entre uma época em que não existíamos até o dia em que desaparecemos para sempre. O que cada um faz nesse intervalo determina apenas a qualidade dessa incrível experiência.
Abraço

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