Não dá para esquecer: a vida é breve e o tempo voa

Por Maya Santana
 O tempo passa tão rápido e a gente só se dá conta lá muito adiante

O tempo passa tão rápido e a gente só se dá conta lá muito adiante

Patricia Travassos

Observando a euforia de um grupo de senhoras de terceira idade chegando ao teatro, Maria Clara se perguntou o que fazia com que elas se sentissem tão felizes. Ela era 35 anos mais jovem do que as setentonas, tinha a vida pela frente, estava no auge de sua carreira profissional e no entanto não sentia nem um décimo daquela alegria. Muito pelo contrário. Vivia o inferno de ter que se manter jovem, magra, atraente, para estar bem no mercado de trabalho e no competitivo mercado sentimental. Estava casada havia dois anos, mas não era feliz. Fazia de tudo para minimizar os sentimentos negativos que detonavam seu parceiro, mas no fundo achava Armandinho um chato. Tentava se convencer de que alguma coisa iria mudar, mas logo se lembrava dos conselhos da sua avó. Se for chato aos 30, imagina aos 60!

Odiava aquela resignação insuportável que percebia na mãe e nas tias. Todas casaram com príncipes, acordaram com sapos, mas passaram a vida dourando a pílula e vestindo os óculos cor-de-rosa que colorem com tons pastéis os momentos mais obscuros da alma. A diferença é que ela era de uma geração que não ficou em casa lavando cueca e trocando fralda. Era uma bem-sucedida designer de jóias. Por que tinha que se amarrar a uma pessoa com quem não tinha prazer de conviver? Lembrou-se de uma psicóloga que dizia que tem tão pouco homem disponível no mercado que a mulherada está levando qualquer coisa para casa. Mas como não dá para tapar o sol com a peneira, logo, logo, estão numa lojinha de doces se entupindo de açúcar e gordura trans, tentando compensar com comida a frustração de não ter um companheiro.

Determinada a descobrir o segredo da felicidade, na saída do teatro se apresentou ao grupo de senhoras e disse que era uma jornalista e que gostaria de entrevistá-las. Entrou na van da excursão e se incluiu no jantar à luz de velas num tradicional restaurante italiano. A euforia das senhoras já estava beirando o êxtase, com o vinho tinto e as músicas que lembravam uma vida que nunca tiveram, quando Maria Clara descobriu o mínimo múltiplo comum entre elas. Eram todas viúvas! Com uma ou duas pensões, apartamento próprio, filhos criados e ainda alguns anos de pura liberdade pela frente! Sem limites, sem hora para chegar, sem ninguém para criticar e principalmente sem marido para cuidar. Todas tinham enterrado os chatos, mimados e autocentrados e colocado o pé na estrada. Viajavam sem parar, visitavam os confins do mundo, pirâmides do Egito, muralhas da China, castelos da Irlanda, ruínas da Grécia. Saíam três vezes por semana.

Faziam ginástica, tomavam sol e tinham um bom humor contagiante. E quando Maria Clara indagou se elas se casariam de novo, ouviu todo tipo de negativas. Nunca! Deus me livre e guarde! Quanto aos maridos, respeitavam a memória, e só falavam coisas evasivas, tipo: ‘Foi um bom homem, correto, direito…’, mas de nenhuma ela ouviu a palavra saudades. Determinada a não ser feliz apenas na terceira idade, aproveitou que o seu ‘chato’ já a estava procurando no celular para tomar a decisão há tanto adiada. Respeitar a si mesma acima de tudo e de forma alguma inventar um casamento só para ficar socialmente bem na foto. Agradeceu a sabedoria da terceira idade, a lembrança de que a vida é breve, que o tempo voa, e que a verdadeira felicidade é estar de bem consigo mesma.

Patricya Travassos é atriz, roteirista e autora do livro ‘Monstra e Outras Crônicas da Revista Marie Claire’ (Editora Globo)


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