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Não, esta não é uma crônica sobre Rubem Alves

Por Maya Santana

"Não é que Rubem Alves me tocou como uma borboleta"

“Sim, Rubem Alves, como você eu amo as palavras”

Déa Januzzi

Não, não vou escrever sobre Rubem Alves. Nem sobre ipês amarelos e borboletas. Muito menos sobre urubus e beija-flores, uma das crônicas dele que mais me encanta. Pois fala de um urubu que não gostava de carniça de jeito nenhum, mas de comer flores. Gosto muito dela, porque o urubu-problema queria ser um beija-flor e por isso foi obrigado a fazer psicanálise, a se confessar, a jurar que comeria carniça. Os pais do urubu se culparam e se perguntaram o que fizeram de errado para que o filho não gostasse de carniça. É uma lição sobre a diferença, sobre a orientação sexual, é a crônica de um psicanalista, filósofo e educador que sabe escrever e pegar metáforas ao vento.

Não, não vou falar de Rubem Alves, mas do crepúsculo do escritor que já passava dos 80 anos e percebeu claramente que estava envelhecendo no dia em que pegou um ônibus e uma moça bonita o olhou com admiração. Rubem Alves ficou cheio de si. Mas teve uma tremenda decepção quando a moça se levantou e cedeu o lugar para ele assentar. Nesse dia, Rubem Alves soube que estava velho aos olhos dos jovens.

Não, não vou falar de Rubem Alves, mas muito antes da sua morte senti a presença dele muito próxima. Abri, por acaso, a revista Bons Fluidos e lá estava ele dizendo que acha curriculum vitae uma coisa boba. “Sei que os burocratas sem eles se sentem perdidos. Por amor aos burocratas fiz uma concessão e coloquei o meu na minha homepage. Mas lhe dei um nome novo. Curriculum, em latim, quer dizer pista de corrida. Um curriculum vitae é, assim, uma enumeração dos lugares por onde se passou na correria da vida. As coisas que eles registram não existem mais. O que é passado está morto. Assim, na minha homepage, em vez de curriculum vitae, eu escrevi curriculum mortis, porque eu não sou o meu passado. Eu sou o meu agora. De um pianista que vai iniciar o seu concerto, não se espera que ele diga os nomes dos professores com quem estudou. Dele só se espera uma coisa: que se assente ao piano e toque.”

Não é que Rubem Alves me tocou como uma borboleta nesse momento?. Roçou no meu rosto, acariciou a minha alma com as asas aveludadas de uma borboleta poeta, porque estou vivendo a mesma situação. Aos 62 anos, dos quais 40 dedicados ao jornalismo, fui enchendo o meu curriculum de reportagens e alguns prêmios, fui cronista, subeditora e tantas outras coisas que hoje fazem parte do meu passado.

Tive a ilusão de que o meu nome e sobrenome hoje seriam o meu verdadeiro curriculum vitae. Mas não é que a todo momento alguém pede para que eu o envie, se ainda quiser trabalhar?

Sabe, Rubem Alves, eu também acho uma bobagem esse negócio de curriculum vitae. Se eu fosse uma mulher comum, até que poderia escrever um livro com o meu curriculum vitae, mas será que eu ainda tenho 10, 20 anos de vida? Será que eu ainda dou conta de correr atrás do prejuízo? Ou é melhor eu começar o meu curriculum mortis de uma vez e dizer tudo o que eu gosto de fazer hoje.

Sim, Rubem Alves, como você eu amo as palavras e faço delas o meu ofício, independentemente do meu curriculum. Gosto da emoção que as palavras provocam, gosto de saboreá-las, de mergulhar em cada trecho da escrita e tropeçar nas esquinas dos textos. Gosto de macular as palavras, de ver que elas podem curar a minha dor. E desenferrujarem as dobras do meu corpo.

Não, não sou exemplo para ninguém que chegou aos 62 anos. Nem quero ser, Rubem Alves, porque a minha alma continua atormentada. Não gosto de regras, mesmo que elas sejam donas do poder. Não gosto de algemas, nem as literárias nem as jornalísticas, pois escrevo com tinta vermelha, com a dor de existir, com a pena da loucura, com o teclado em brasas. Escrevo para me livrar de mim mesma, dos meus fantasmas.

No meu curriculum mortis, eu poderia escrever que vivi tudo o que quis, que gostaria de tomar vinho até o fim, e de me embriagar em taças rubras, a tilintar cristais e bênçãos. Gostaria de incluir no meu curriculum mortis todos os amigos que tive e que me mostraram o valor do afeto.

No meu curriculum mortis vão constar todas as músicas que provocaram furacões em mim. Gostaria de bordar palavras na abertura do meu curriculum mortis, com linhas coloridas, mas com uma certa melancolia que me acompanha a vida toda. E, principalmente não podem faltar os sonhos que ainda tenho – e que não envelhecem nem morrem nunca.

Déa Januzzi é jornalista e escritora

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3 Comentários

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Joselaine 27 de setembro de 2015 - 09:06

Lindo!

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lisa santana 27 de julho de 2014 - 02:11

Vida longa ( aqui já considerando o pós mortem) à todos aqueles que conseguem ajuntar palavras e com elas, trazer qualquer rebuliço que seja à alma! Bjs.

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Lúcia M. S. Oliveira 27 de julho de 2014 - 00:36

Lindo! Valeu a pena ler.

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