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‘Não permita Deus que eu morra’, antes de sair deste lugar

Por Maya Santana

A jornalista prestou queixa na Delegacia da Mulher, afirmando que era xingada, agredida e humilhada[

Senador Lasier Martins, 75, com a mulher, que o acusa de agredí-la e humilhá-la[

Maya Santana, 50emais

Mais e mais o Brasil vai se tornando um país insuportável de se viver. Para se deprimir, é só ligar a televisão, o rádio, o computador, ler o jornal ou qualquer outra mídia: mais de 50% do noticiário versa sobre violência. Violência de todos os tipos.

Vivo numa cidade – o Rio – em guerra consigo mesma. Todos os dias, crianças são mortas a tiros – até dentro de sala de aula. Todos os dias, mães choram filhos exterminados por “balas perdidas”. No meio da brutalidade, grassando por toda parte, um poema -“ Minha terra tem horrores”, paródia de “Canção do Exílio” (“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá…”), de Gonçalves Dias – saído das penas de dois estudantes do bairro da Penha, no norte do Rio, dá a dimensão trágica do que é viver na cidade, sobretudo nas áreas mais pobres.

Paródia de poesia de Gonçalves Dias

Paródia de poesia de Gonçalves Dias

“Minha terra é a Penha,
o medo mora aqui.
Todo dia chega a notícia que morreu mais um ali.

Nossas casas perfuradas
pelas balas que atingiu (sic).
Corações cheios de medo
do polícia que surgiu.

Se cismar em sair à noite,
já não posso mais.
Pelo risco de morrer
e não voltar para os meus pais.

Minha terra tem horrores
que não encontro em outro lugar.
A falta de segurança é tão grande,
que mal posso relaxar.

‘Não permita Deus que eu morra’,
antes de sair deste lugar.
Me leve para um lugar tranquilo,
onde canta o sabiá.”

Luiza Brunet com as marcas da violência sofrida do companheiro

Luiza Brunet com as marcas da violência sofrida do companheiro

Ao lado da violenta crise econômica (e política), com reflexos na vida de todos nós, e dessa violência que anda nas ruas – um jovem de bicicleta arrancou um cordão do meu pescoço, enquanto eu andava numa rua do Leblon; dias mais tarde, a cena se repetiu com uma amiga, do meu lado, quando caminhávamos em direção à praia – há os constantes abusos, assédios sexuais e agressões contra mulheres, notíciados a toda hora. E não partem apenas de machistas da parcela da população menos privilegiada e oprimida – a cada cinco minutos, uma mulher é agredida no Brasil -, mas de homens conhecidos, de quem se espera exemplo.

Luiza Brunet apareceu com o rosto coberto de hematomas e quatro costelas quebradas pelo parceiro, o empresário Lirio Parisott; a mulher do cantor sertanejo e astro de programa de televisão Victor, da dupla com Léo, foi a uma delegacia especializada denunciar as agressões do marido, inclusive chutes. E ela está grávida.

Luana Piovani diz que a própria sociedade compactua com esta realidade. "Garrincha enchia a Elza Soares de porrada e é lembrado como herói no Brasil... Dado Dolabella (na foto com ela)  ganhou R$ 2 milhões num reality 6 meses depois de bater na minha cara em votação popular".

Luana Piovani diz que a própria sociedade compactua com esta realidade. “Garrincha enchia a Elza Soares de porrada e é lembrado como herói no Brasil… Dado Dolabella (na foto com ela) ganhou R$ 2 milhões num reality 6 meses depois de bater na minha cara em votação popular”.

O caso mais recente é o do assédio sexual de José Mayer à figurinista Susllem Tonani, 28. Casado há mais de 40 anos com a atriz Vera Fajardo e pai da atriz Júlia Mayer, 31, o ator amarga punição que, por certo, não esperava: foi suspenso das novelas da Globo por tempo indeterminado.

Antes de José Mayer, outro astro da emissora, Kadu Moliterno, ganhou as manchetes, acusado de agredir fisicamente, mais de uma vez, duas de suas companheiras. O mesmo aconteceu com o ator Dado Dolabela. Esse tornou-se quase um símbolo da agressão a mulheres.

Kadu Moliterno:  acusado de brutalidade contra companheiras

Kadu Moliterno: acusado de brutalidade contra companheiras

Por causa da repercussão do escândalo envolvendo José Mayer, vem se dando pouca atenção ao caso do senador Lasier Martins (PSD-RS). Há poucos dias, ele foi impedido, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fachin, de se aproximar da mulher, a jornalista Janice dos Santos, que o acusa de espancá-la e humilhá-la. O político gaúcho recebeu ordens para sair de casa e se distanciar da mulher até que o caso seja julgado pelo STF, já que tem foro privilegiado.

São figurões e figurinhas, em todos os cantos do país, que, atrasadamente, se acham no direito de fazer com a mulher o que bem entendem. Não é à-toa que o Brasil ocupa o quinto lugar no mundo em assassinato de mulheres.

Ato da ONG Rio de Paz contra o abuso sofrido pelas mulheres, em  2016 (foto: Tânia Rego, Agência Brasil)

Ato da ONG Rio de Paz contra o abuso sofrido pelas mulheres, em 2016 (foto: Tânia Rego, Agência Brasil)

Quando se fala da violência geral, aquela que não distingue mulheres, homens, velhos nem crianças, os números (oficiais) também são aterradores: atingimos a marca recorde de 59.627 mil homicídios em 2014. No mundo, os homicídios representam cerca de 10% de todas as mortes. E, em números absolutos, o Brasil lidera a lista desse tipo de crime.

Que país é esse, meu Deus?

Leia também:
Xico Sá: O be-a-bá do machismo brasileiro

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1 Comentários

‘Não permita Deus que eu morra’, antes de sair deste lugar | JETSS – SITES & BLOGS 8 de abril de 2017 - 11:03

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