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Não sei se a chamo de amiga, cúmplice ou doutora

Por Maya Santana

Com o marido querido,  Paulo Sizenando, que também era médico

Dra. Alba Pimenta Sizenando com o marido, Dr.Paulo Sizenando

Déa Januzzi

Não sei se a chamo de amiga, de cúmplice, de anjo ou de doutora. O fato é que Alba Sizenando está presente em minha vida desde que deixei de ser menina para me tornar mulher. Ginecologista,  doutora Alba é uma espécie de confidente, porque conhece todos os segredos do meu corpo, todas as marcas, cicatrizes e profundezas, desde a gravidez indesejada aos 20 anos até o parto do meu único filho que ela também considera como  seu. Em um dia de fevereiro de 1983, fui ao consultório desesperada, porque estava grávida mais uma vez.  

Ela me ouviu, confirmou a gravidez e sentenciou: “Você vai ter esse filho de qualquer jeito, querendo ou não, podendo ou não.” Saí de lá perdida, em meio a incertezas de ser ou não mãe, aos 30 anos. Envolvida com o jornalismo, com o trabalho na redação de um jornal mineiro, com um companheiro que não se pronunciava sobre a gravidez, sem estar casada e sem querer assumir um compromisso para toda uma vida, – postura das mulheres da minha geração que não consideravam o casamento como investimento –  decidi ter o  filho.

Doutora Alba acompanhou todo o pré-natal, fez o parto e abriu para mim o delirante mundo da maternidade. Para mim, um presente divino, que usou a minha médica para trazer luz à minha vida. Só ela sabia que uma mulher, do signo de Câncer, sem filhos, tem uma vida estéril e vazia. Só ela sabia que o meu filho me salvaria de mim mesma, da minha própria insanidade. Só ela sabia que um filho me daria um dia por quem e por que lutar.

Médica exemplar

Minha médica-mãe

Doutora Alba me acompanha até hoje (dia em que completei 62 anos). Ela faz parte das minhas estranhezas, das minhas incertezas, da primeira menarca à menopausa, da barriga de grávida querendo abrir caminho até as minhas primeiras rugas. Ela é como um espelho: vê todos os meus defeitos e qualidades. Está em minha vida para me proteger de mim mesma, da minha eterna preguiça de ir ao médico, de tomar remédio, de me cuidar. Ela não se esquece de ligar  para me lembrar dos exames de rotina e está presente, como um anjo de asas abertas, em minha história de vida.

Cheguei jovem ao  consultório  da doutora Alba há quase 40 anos, indicada por uma outra amiga, a jornalista Magrace Simão, que também era paciente dela.  Nunca mais me afastei de doutora Alba, que é alguém que posso contar para todas as horas, mesmo as mais difíceis. Ela está sempre disponível para conversar, atende todos meus telefonemas, pedidos e a cada dia ela se torna indispensável.

Doutora Alba não gosta de revelar a idade, afinal, a médica da gente não precisa contar os segredos dela, basta os que guarda de tantas  pacientes. Para mim, ela não tem idade. Uma das primeiras médicas formadas pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, com o CRM de número 1445. Hoje, já são 44.254 registros médicos.  

Confesso que tenho uma dívida de afeto impagável com a doutora Alba que sabe mais de mim do que eu mesma. Ela conhece os meus labirintos e o avesso do meu coração, cada esquina da minha alma e os cantos mais escondidos do meu ser. Não sei se a considero amiga, porque para mim ela é mais do que amiga. Se a considero cúmplice, pois ela também compactua comigo em todas as instâncias. Se a considero anjo, que veio ao mundo na pele de uma médica, para me guardar e iluminar, Amém.

Nunca a vi reclamando de nada, se expondo, mas no dia em que o marido dela morreu, o também médico Paulo Sizenando, com o qual esteve casada por toda a vida, senti a fragilidade dela. Quis salvá-la, dar um remédio para a sua dor, um bálsamo para o seu martírio de perder o companheiro. Quis curar as suas feridas, mas impotente, recorri às palavras para consolar a médica, amiga e cúmplice. Sem estetoscópio, sem receituário, sem bula, eu a vi pela primeira vez como uma mulher frágil, humana, sujeita a perdas e dores. Sem a roupa branca de médica, mas como  sempre uma mulher nobre, elegante, guerreira.    Como todas nós, mulheres, que fizemos do consultório dela uma espécie de confessionário, sem ter que pagar penitência, rezar não sei quantas Ave-Marias e Pai-Nossos. Um confessionário onde não há culpa nem erro nem preconceito ou julgamento, mas um lugar confortável, de acolhida!

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3 Comentários

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Carmen Lins 8 de maio de 2017 - 11:51

Parabéns Dr. Alba. Parabéns, Déa Januzzi. Sim a médica e a jornalista merecem nossos parabéns. Amei o texto da Déa que a gente gosta de ler.

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Mirian 14 de julho de 2014 - 19:10

Parabéns Déa Januzzi e Dra.Alba Pimenta Sizenado.

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Maria Lúcia Padua Pacheco 12 de julho de 2014 - 23:05

Dra. Alba é minha conterrânea . Conheci seus pais e todos seus irmãos. Ela saiu de Passos muito jovem p/ estudar e por aqui ficou. Linda e elegante como suas irmãs. Já estive em seu consultório acompanhando tia Violeta. Eu era bem novinha ainda.Fico feliz em saber que tanto bem ela fez e faz! Toda árvore boa dá bons frutos. Com D. Angelina e Sr. José não seria diferente! Parabéns, Dra. Alba!!!

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