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“Não vejo a hora de fazer 80 anos”

Por Maya Santana

O neurologista britânico Oliver Sacks era chamado    de  "Poeta da Medicina"

O escritor e neurologista britânico Oliver Sacks era chamado de “Poeta da Medicina”

Este é um trecho de um texto – “Mercúrio”, do livro intitulado Gratidão” – escrito pelo escritor e neurologista Oliver Sacks, morto em agosto 2015, aos 82 anos. Chamado de “Poeta da Medicina”, o renomado britânico virou notícia no mundo inteiro no ano passado ao escrever uma série de artigos sobre sua vida e seus sentimentos, depois de ser diagnosticado com câncer em estágio terminal. O texto abaixo foi escrito mais de dois anos antes de ele saber que estava condenado pela doença. Fala de seu desejo, sua expectativa de chegar bem à oitava década de vida. Um escrito comovente. “Quem sabe, com sorte, eu consigo seguir mais ou menos intacto, por mais alguns anos e me seja concedida a liberdade para continuar a amar e trabalhar, as duas coisas mais importantes na vida, como garantiu Freud,” diz ele.

Leia:

O neurologista britânico Oliver Sacks, o “Poeta da Medicina”, segundo o jornal The New York Times, morreu em Nova York, de câncer, em agosto de 2015, aos 82 anos de idade.

Aos oitenta paira o espectro da demência ou do derrame. Um terço dos meus contemporâneos está morto, e vários outros, com graves problema mentais ou físicos, vivem presos numa existência trágica e mínima. Aos oitenta as marcas da decadência são demasiado visíveis. Nossas reações são um tanto mais lentas, os nomes nos fogem mais amiúde, e cumpre administrar melhor as energias, mas ainda assim é possível nos sentirmos muitas vezes cheio de vigor e nem um pouco “ velhos”. Quem sabe, com sorte, eu consigo seguir mais ou menos intacto, por mais alguns anos e me seja concedida a liberdade para continuar a amar e trabalhar, as duas coisas mais importantes na vida, como garantiu Freud.

Quando chegar a minha hora, espero que eu possa morrer na ativa, como Francis Crick. Quando lhe informaram que seu câncer de cólon tinha voltado, de início ele não disse nada; simplesmente olhou ao longe por um minuto. Depois retomou o que tinha pensado. Ao lhe perguntarem sobre seu diagnóstico algumas semanas depois, ele respondeu: “Tudo que tem um começo deve ter um fim.” Morreu aos 88 anos, ainda totalmente comprometido com seu trabalho mais criativo.

Meu pai, que viveu até os 94 anos, costumava dizer que seus 80 anos tinham sido uma das décadas mais agradáveis de sua vida. Ele sentiu, como começo a sentir, não um encolhimento, mas sim uma expansão da vida mental e da perspectiva. Nessa altura, já tivemos uma longa experiência de vida, não só da nossa, mas também da de outros. Já vimos triunfos e tragédias, altos e baixos, revoluções e guerras, grandes realizações e profundas ambigüidades também. Já assistimos notáveis teorias ascenderem e acabarem derrubadas por fatos teimosos. Somos mais conscientes da transitoriedade e, talvez, da beleza.

Leia também:

Oliver Sacks: Estou cara a cara com a morte
Minha entrevista com o neurologista mais famoso do mundo

Aos oitenta, podemos relembrar um vasto e ter um senso claro de história vivida impossível aos mais novos. Posso imaginar, sentir nos ossos, o que é um século, coisa que não podia fazer aos quarenta ou sessenta. Não penso na velhice como uma fase cada vez mais penosa que é preciso suportar e levar o melhor possível, mas como um período de liberdade e tempo descomprometido, sem as infundadas urgências de outrora, livre para explorar o que eu quiser e para amarrar os pensamentos e sentimentos de toda uma vida.

Não vejo a hora de fazer 80 anos.

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1 Comentários

“Não vejo a hora de fazer 80 anos” | JETSS – SITES & BLOGS 19 de outubro de 2016 - 18:42

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