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“Necessitamos de transcendência e vida espiritual”

Por Maya Santana

A grande Adélia Prado, 77 anos, reverenciada poetiza mineira

A grande Adélia Prado, 77 anos – reverenciada poetiza mineira

Mulher, Mineira, poetisa. Admirada por sua personalidade e forma peculiar de escrever,  na qual  consegue reunir aspectos como o religioso e o profano, a fé e a aridez, a delicadeza e a força da mulher, Adélia Prado falou ao jornal Mater Dei sobre  a felicidade e o poder transcedental da arte.

Jornal Mater Dey –  Seu poema “Com licença poética” termina com a frase: “Mulher é desdobrável. Eu sou.” O que significa ser mulher?

Adélia Prado – O que chamo “desdobrável” é o dom de, diferente do homem, ser capaz de múltiplas ocupações, sem a unidade de sua pessoa, como um cristal refletindo as sete cores. Na vida prática não é assim tão romântico ser mulher, pois significa abraçar a vocação, no seu segundo lugar para a “criação do mundo”. Significa reconstruir o masculino verdadeiro em si mesma e no macho da espécie. Tarefa heroica, mas sem ela nações e indivíduos desmoronam-se. Fé, coragem, abnegação e alegria. Uma receita, um projeto, um caminho de santidade para nós mulheres.

JMD – O fato de a mulher viver cerca de nove anos mais que os homens criou um fenômeno conhecido como “a feminização da velhice”. Na sua opinião, como elas lidam com as características desta fase?

AP – Podemos fazê-lo de variadas maneiras. A pior, é querer manter à força uma juventude que já se foi, fazer de conta que está tudo bem. Existem viagens, cursos, produtos, ginásticas e até meditações para a velhice chamada hipocritamente, como uma adulação, de “melhor idade”. Onde está o lugar, a instância que nos informe e prepare para a aceitação da velhice, da doença, da morte? As plásticas e até mesmo a boa saúde são recursos fracos diante dos mistérios da vida e da morte. Necessitamos de transcendência e vida espiritual. Necessitamos de sentido. E é interessante lembrar que uma vida onde todos são ou querem ser jovens é insuportável. Ninguém tem referência ou sossego.

JMD – Em palestras, você destaca o poder humanizador da poesia, assim como o de qualquer tipo de arte. Como viver esse poder na atribulação dos dias atuais?

AP –  Se você ama a poesia, naturalmente sua chance de humanização já aconteceu, e humanizar-se significa ter recursos para viver de maneira íntegra, na paz ou na turbulência.

JMD – Você aborda o medo da finitude como uma angústia da qual todos padecemos. Como a arte poderia nos consolar (ou saciar) em relação a este sentimento?

AP – Remetendo-nos a algo maior do que nós, a arte nos aponta horizontes de transcendências. Não sacia plenamente, porque nossa fome é absoluta, mas oferece a ração para que continuemos a buscar.

JMD – Qual o papel da arte, mais especificamente da literatura, na sua vida?

AP – Exatamente o de humanizar-me, alegrar-me, consolar-me e oferecer-me cada vez mais a certeza de que Deus é a fonte suprema da beleza,  a que se mostra palidamente e ainda assim tão esplêndida através da palavra que chamamos poesia.

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1 Comentários

Elza Cataldo
Elza Cataldo 5 de julho de 2013 - 20:53

A poesia da Adélia Prado é uma leitura muito comovente e sua personalidade, tão íntegra e humana, nos ajuda na eterna busca de sentido do nosso fazer cotidiano.

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