No dia de hoje, nossa homenagem a Grande Otelo

Por Maya Santana

O artista morreu em 26 de novembro de 1993, em Paris

Ana Maria Cavalcanti

Na próxima segunda-feira, completa 19 anos da morte de Grande Otelo. Não há melhor oportunidade para homenageá –lo do que neste Dia da Consciência negra. Sebastião Bernardes de Souza Prata tinha um metro e meio de altura, negro retinto, olhos esbugalhados, beiços enormes, pobre, filho de mãe alcoólatra e pai assassinado a facadas. Tinha tudo pra ser mais um bandido brasileiro. Mas, ao contrário, tornou-se um dos artistas mais aclamados do Brasil. O inigualável Grande Otelo usou o seu enorme talento para ganhar a vida desde os seis anos de idade até a sua morte, aos 78 anos, em Paris.

O ator passou pelos palcos dos teatros de revista, dos cassinos, dos grandes shows, nas décadas de 40 e 50. Fez novelas de televisão, participou de programas de rádio de grande audiência, foi garoto-propaganda de comerciais e ainda escreveu poesias e letras de música. Hoje, poderia ser chamado de um profissional multimídia. Mas ele se identificava mesmo era com a profissão de ator.

Foi através do cinema que seu nome alcançou projeção nacional, atuando em chanchadas – comédias precariamente produzidas e de grande apelo popular. Com Oscarito formou a dupla cômica mais famosa e querida do cinema brasileiro. Em Carnaval do Fogo (1950), dirigido por Watson Macedo, há uma das cenas mais hilariantes e de maior repercussão do cinema nacional: aquela em que os dois cômicos travestidos de Romeu (Oscarito) e Julieta (Otelo) parodiam a célebre cena no balcão onde ocorre a tragédia.

O público lotou os cinemas brasileiros para ver às gargalhadas a versão em chanchada do texto de Shakespeare. Grande Otelo e Oscarito fizeram 13 filmes juntos. Sozinho, ele fez mais de cem: Amei um Bicheiro; Matar ou Correr; Moleque Tião; Assalto ao Trem Pagador, só para citar alguns. Quantos atores no mundo atuaram em cem filmes? Só em um único ano, 1957, Grande Otelo participou de seis películas: Metido a Bacana; Brasiliana; Baronesa Transviada; Rio Zona Norte; De Pernas para o Ar; Com Jeito Vai.

Como se não bastasse, no mesmo ano estreou em um espetáculo, “ Mister Samba”, sobre a vida de Ary Barroso, na elegante boate Night and Day, no Rio de Janeiro. O show era dirigido pelo produtor e diretor Carlos Machado, com quem assinou longos contratos para se apresentar na noite carioca. Grande Otelo brilhou por quase sete décadas nos palcos e nas telas dos cinemas. Era divino, mas estava longe de ser um santo. Bebia muito, hábito que herdou da mãe, uma empregada doméstica que trabalhava com uma garrafa de cachaça ao lado do fogão. Por causa da bebida, com freqüência chegava atrasado em filmagens e espetáculos. Em um deles, faltou na noite de estréia!

O ator tomou porres homéricos durante quase toda a sua vida e precisou se internar várias vezes para tratamento de desintoxicação. Seu jeito de viver acabou provocando uma grande tragédia: em 1949, sua segunda mulher, Maria Lúcia, cansada das farras do marido e da maneira como era tratada, matou o filho de seis anos e se suicidou com um tiro cabeça. “Não agüento mais”, escreveu ela no bilhete que deixou. Foi o pior baque na vida do ator.

O artista sofreu muito com morte do filho e suicídio da mulher

Nos meses seguintes, bebeu como nunca e faltou por uma semana no espetáculo que estava fazendo, no Teatro Recreio, “Está com Tudo e Não está Prosa”. Ao voltar, em uma matinê de domingo, distribuiu um trecho do poema de Luiz Guimarães Júnior aos espectadores, que dizia: ‘Depois de longo e tenebroso inverno, como ave que volta ao ninho antigo’, “também voltei. Voltei com tudo.”

A paixão pela arte de representar se manifestou quando ele era ainda criança. Aos seis anos, cantava e fazia graça nas ruas movimentadas de Uberlândia, Minas Gerais, onde nasceu, em 1915. Sempre ganhava uns trocados. “Tudo indica que ele fazia muito sucesso em suas apresentações. Basta imaginar um ator de seis, sete anos com uma altura inferior à das crianças de sua idade, completamente desinibido, interpretando de seu jeito canções mais indicadas para adultos e fazendo os gestos, as caras e as bocas que iriam consagrá-lo no cinema e na televisão” É o que conta o jornalista Sergio Cabral na biografia que escreveu sobre o ator, publicada em 2007.

O jornalista relembra que uma dessas apresentações do menino, em Uberlândia, foi assistida uma jovem atriz paulista, Abigail Parecis, diretora de um grupo de teatro mambembe que passava pela cidade. Abigail se encantou com o talento de Sebastião e pediu à mãe dele para adotá-lo. Dona Maria Abadia de Souza relutou, mas o garoto ameaçou se atirar em um rio, se ela não concordasse.

Exibindo-se para a Pequena Notável, Carmen Miranda

Conseguindo a guarda do menino, com papel passado e tudo, foram para São Paulo. Com Abigail aprendeu a decorar textos grandes e a cantar músicas brasileiras, espanholas e italianas. Quando ela ia às aulas no conservatório – queria ser cantora lírica – ele ia junto. E foi assim que aprendeu a cantar árias das operas Otelo e Tosca. Nessa época, passou a ser chamado de Otelinho e, outras vezes, de Pequeno Otelo. Só em 1932, aos 17 anos, ganhou o pseudônimo de Grande Otelo por sugestão do diretor de teatro Jardel Jércolis – um pioneiro do teatro de revista. Ele achava Pequeno Otelo “ muito óbvio” já que o artista era baixinho.

Como Otelinho e sob a tutela de Abigail fez inúmeros papéis no teatro, deixando sempre a platéia encantada. Mesmo fazendo papéis pequenos, sempre roubava a cena. Tudo corria muito bem até que a mãe adotiva foi para Milão estudar canto lírico e deixou Sebastião com os pais. Ele parou de ir a escola, fugiu várias vezes e, depois de muitas idas e vindas, os avós adotivas desistiram de procurá-lo. Otelinho virou menino de rua. Mas, em 1927, na época sob a custódia do Juizado de Menores, foi salvo de novo pelo talento.

Numa apresentação dentro da instituição cantou , dançou e sapateou para uma família rica de São Paulo. Foi adotado no ato. Os novos tutores o matricularam no respeitado Liceu Coração de Jesus,em São Paulo, onde estudou só até a terceira série do segundo grau (ginásio). Foi quando largou os estudos e fugiu de novo. Na seqüência, quando já caminhava para a terceira adoção, decidiu que já era hora de seguir uma “carreira solo”. Tinha 18 anos e conseguiu uma autorização do juiz para viajar com uma companhia de teatro. Daí pra frente tornou-se senhor de seu destino.

Com a bela Dina Sfat, no célebre papel em Macunaíma

Chegou ao Rio de Janeiro em 1935 e começou a trabalhar nas principais casas de espetáculos da noite carioca,entre elas o Cassino da Urca, com seus shows luxuosos e mulheres bonitas de pernas de fora. Paralelamente aos shows , dedicava-se ao cinema. Em 1969, seu talento foi definitivamente consagrado, ao desempenhar o papel de Macunaíma, filme dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. “ Achei maravilhosa a interpretação dele em Macunaíma”, conta o diretor Antunes Filho, que levou a obra para o teatro, com enorme sucesso também. “ Fiz Macunaíma com Cacá Carvalho, que é um grande ator, mas Grande Otelo tinha mais o físico e a picardia de Macunaíma”, rememora o diretor.

Antes de Macunaíma, Grande Otelo já havia sido chamado de “gênio” por ninguém menos do que Orson Welles, considerado um dos maiores diretores de Hollywood, autor da obra-prima “Cidadão Kane”, filme que se tornou um marco na história do cinema. Orson Welles convidou Grande Otelo, em 1942, para trabalhar no filme que veio fazer no Brasil, “ IT´s All True”, sobre samba e carnaval. Em 1982, o alemão Werner Herzog, outro diretor de fama mundial, veio ao Brasil para filmar “Fitzcarraldo” e Grande Otelo fazia parte do elenco, que tinha entre outros a atriz Claudia Cardinale eo ator Klaus Kinski.

Trabalhou até com Orson Welles no filme “It’ s All True”

Na TV Globo, fez várias novelas, entre elas, Bandeira Branca, Feijão Maravilha, O Bem Amado, Sinhá Moça. Participou ainda da Escolinha do Professor Raimundo, com Chico Anísio.

Foram muitos os prêmios que recebeu ao longo de sua carreira. Em 1993, aos 78 anos de idade, viajou para a França para receber uma homenagem no Festival dos Três Continentes, realizado na cidade de Nantes. Era um momento de glória, mas quando desembarcou em Paris passou mal no aeroporto e morreu de um ataque fulminante do coração.

Um ataque cardíaco fulminante o levou embora

Grande Otelo deixou quatro filhos, um apartamento e um carro. Mais que tudo, porém, deixou um lugar de honra na galeria dos notáveis da dramaturgia brasileira.


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3 Comentários

Marcos Gonçalves 8 de abril de 2013 - 20:32

Sou estutande de Teatro e estou estudando a vida de Grande Otelo para apresentar um seminário. Dentre as pesquisas que estou fazendo essa reportagem, sem dúvida, foi a melhor que já encontrei. Ainda bem que estou tendo a oportunidade de conhecer o nosso Grande Otelo.

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lisa Santana 20 de novembro de 2012 - 20:58

Sim Ana, linda reportagem sobre este que foi um dos nossos maiores atores. O que seria do cinema e do teatro brasileiro sem o nosso GRANDE OTELO. Maravilha!

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Luiz Alfredo Hablitzel 20 de novembro de 2012 - 19:45

Linda reportagem. Lembrei das matinês a que, ainda criança, costumava ir com minha mãe para ver os filmes de Oscarito e Grande Otelo!

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