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Nos tons do crepúsculo, a dimensão eterna da vida

Por Maya Santana

Ter vontade de rezar diante de cada pôr do sol

Ter vontade de rezar diante de cada pôr do sol

Déa Januzzi

Certos dias me esqueço de que a cidade tem céu. Há névoas densas acima da minha cabeça. Nuvens de chumbo roubam o horizonte do meu ser, que fica inquieto, sem lugar e sem pouso. Mas há dias em que é possível ver o azul intenso pela cortina entreaberta. Nesses dias, tenho vontade de abrir-me toda. Como um girassol, entrego-me à luz, me banho de cores, mas não preciso mais de vermelhos intensos ou de dourados em êxtase, como se fossem noites de gala. Não preciso da euforia enjaulada que sai à caça de intensidade.

Ao acordar hoje vi o azul estonteante da manhã e lembrei-me das azáleas de um outro tempo, que convidavam a sábados cheios de atividades. Era pular rápido da cama, andar, encontrar os amigos, ir ao cinema, namorar, dançar, fazer o máximo em menos tempo possível. Viver com todas as cores e luzes.

Era tempo de aproveitar o fim de semana, deixar o sol bronzear a pele sem restrições, almoçar em família, conhecer pessoas e – quem sabe – ver o espetáculo imperdível do pôr do sol no mirante do bairro Mangabeiras, onde cada entardecer era diferente do outro. Tomar água de coco, comer pipoca, namorar sob os tons do crepúsculo – e perceber a dimensão eterna da vida, quando ainda há muito tempo pela frente. Quando a noite é tão importante quanto o dia e as madrugadas nascem da aflição de viver, quando a corpo inteiro em febre de amor queima por dentro e por fora.

Hoje quando já virei crepúsculo, o momento mais solene do dia, tenho vontade de ajoelhar e rezar e penso em cores mais suaves, em tons de aquarela. Não pensem que estou falando em ausência de cores. Ou como disse minha amiga que mora na montanha, o crepúsculo não tem nada de desbotado. A aquarela reúne todas as cores. Tem luz própria. É suavidade.

Nos tons da aquarela há reflexos de quem já aprendeu muito, mas não quer reviver o passado. É deixar os erros onde estão. Não é consertar o que já passou. Nem projetar o futuro que não chegou. É viver o presente com a suavidade de todas as cores.
Nos tons da aquarela não há sede nem fome de viver tudo. Há quietude, silêncio, mesmo ao ouvir todas as vozes internas. Há vontade própria. Tem dias que as vozes falam alto, gritam dentro de mim, vociferam. Lentamente, acalmo esses gritos tardios, desligo os ruídos mais intensos e vou ouvindo o som mais profundo da alma.

Na aquarela, não há o fogo que incendeia, mas aquele que aquece como se fosse um manto. Um xale bordado com as cores do entardecer e que abriga, me acolhe. A suavidade da aquarela depura os sentidos, desmancha o crepitar das emoções, deixa a água mais transparente, apesar da densidade do mar, da força das ondas.

O tempo da aquarela é de magia, de aprender outras lições, é ver Deus no crepúsculo, é ter vontade de rezar diante de cada pôr do sol. É fazer de cada entardecer o próprio altar. Sem dogmas nem igrejas. A suavidade é prazer sem explosão, sem tanta urgência ou voracidade. É degustação. Provar cada pedaço da vida sem engasgar ou entalar.

Tem dias que penso na cor vermelha da paixão. Quero entregar-me aos amarelos intensos, ao dourado que ofusca. Penso em vestir-me de loucura, de profanar a quietude, misturar azuis brilhantes com alaranjados falsos.

Os tons da aquarela, porém, sempre falam mais alto. Tranquilizam minha intensidade, colorem suavemente as emoções. Transformam lágrimas em orações, tiram o amargo da boca, bendizem o presente, agradecem cada dia. Florescem na profusão e no perfume das damas da noite que convidam à quietude.

Não há guerra nem raiva nem ódio. Nem vingança. Os tons da aquarela são de purificação. No entardecer não há ilusão, amor romântico, mas ainda há sonhos, projetos a realizar. Há plenitude para sentir o cheiro das ervas na cozinha, o borbulhar das crianças que abrem as portas do amanhecer.

Na suavidade da aquarela há uma luz que nunca se apaga, que não precisa da claridade, mas quer provar o imponderável. Quer deitar na rede da imaginação e da criatividade, quer abraço, colo de Deus.

A aquarela da vida é ninho, repouso sem tédio, sem amargura, sem aflição. Os tons que hoje me abraçam são divinos, porque no labirinto da vida encontrei outra dimensão. Hoje sou ninfa, mas com o conhecimento das bruxas, porque sei sentir a brisa que neste momento entra pela janela e brinca no meu rosto. Sei fazer a própria fogueira e enxergar outros seres nas faíscas crepitantes do entardecer. Antes que o dia termine vou pintar os tons do feminino e agradecer pelo masculino, que gera a comunhão entre homens e mulheres neste entardecer.

Déa Januzzi é jornalista e escritora

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3 Comentários

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Sandra Kiefer 21 de fevereiro de 2015 - 22:21

Que lindo, Déa! Só você poderia escrever um texto tão belo como este, lindo de encher os olhos e a alma… Parabéns!

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Vera Lúcia França Maciel 21 de fevereiro de 2015 - 22:11

O que vc escreve é muito poético,lindo demais!!!Adorei e quero ler outras coisas suas.

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Angela Maria Campelo França 21 de fevereiro de 2015 - 19:56

Déa, amo suas crônicas ! Esta é especialmente maravilhosa!
Paz e bem
Abraços de coração para coração
Angela

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