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Nunca achei que seria chamado, tão cedo, de ‘idoso’

Por Maya Santana

O mineiro-carioca Zuenir Ventura, 83, é jornalista e escritor

O mineiro-carioca Zuenir Ventura, 83, é jornalista e escritor

Zuenir Ventura

“O senhor aqui é idoso”, gritava a senhora para o guarda, no meio da confusão na porta do Detran da Avenida Presidente Vargas, apontando com o dedo o tal “senhor”. Como ninguém protestasse, o policial abriu o caminho para que o velhinho enfim passasse à frente de todo mundo para buscar a sua carteira.

Olhei em volta e procurei com os olhos 0 velhinho, mas nada. De repente, percebi que o “idoso” que a dama solidária queria proteger do empurra-empurra não era outro senão eu.

Até hoje não me refiz do choque, eu que já tinha me acostumado a vários e traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando em crise se entra pela primeira vez nos “entra”; dos 50, quando, deprimido, salte que jamais vai se fazer outros 50 (a gente acha que pode chegar aos 80, mas aos 100?); e dos 60, quando um eufemismo diz que a gente entrou na “terceira idade”. Nunca passou pela minha cabeça que houvesse uma outra passagem, um outro marco, aos 65 anos. E, muito menos, nunca achei que viesse a ser chamado, tão cedo, de “idoso”, ainda mais numa fila do Detran.

Na hora, tive vontade de pedir à tal senhora que falasse mais baixo. Na verdade, tive vontade mesmo foi de lhe dizer: “idoso é o senhor seu pai. O que mais irritava era a ausência total de hesitação ou dúvida. Como é que ela tinha tanta certeza? Que ousadia! Quem lhe garantia que eu tinha 65 anos, se nem pediu pra ver minha identidade? E 0 guarda paspalhão, por que não criou um caso, exigindo prova e documentos? Será que era tão evidente assim? Como além de idoso eu era um recém-operado, acabei aceitando ser colocado pela porta adentro. Mas confesso que furei a fila sonhando com a massa gritando, revoltada: “esse coroa tá furando a fila! Ele não é idoso! Manda ele lá pro fim!” Mas que nada, nem um pio.

O silêncio de aprovação aumentava o sentimento de que eu era ao mesmo tempo privilegiado e vítima — do tempo. Me lembrei da manhã em que acordei fazendo 60 anos: “Isso é uma sacanagem comigo”, me disse, “eu não mereço.” Há poucos dias, ao revelar minha idade, uma jovem universitária reagira assim: “Mas ninguém lhe dá isso.” Respondi que, em matéria de idade, o triste é que ninguém precisa dar para você ter. De qualquer maneira, era um gentil consolo da linda jovem. Ali na porta do Detran, nem isso, nenhuma alma caridosa para me “dar” um pouco menos.

Subi e a mocinha da mesa de informações apontou para os balcões 15 e 16, onde havia um cartaz avisando: “Gestantes, deficientes físicos e pessoas idosas.” Hesitei um pouco e ela, já impaciente, perguntou: “O senhor não tem mais de 65 anos? Não é idoso?”

— Não, sou gestante — tive vontade de responder, mas percebi que não carregava nenhum sinal aparente de que tinha amamentado ou estava prestes a amamentar alguém. Saí resmungando: “não tenho mais, tenho só 65 anos.”

O ridículo, a partir de uma certa idade, é como você fica avaro em matéria de tempo: briga por causa de um mês, de um dia. “Você nasceu no dia 14, eu sou do dia 15″, já ouvi essa discussão.

Enquanto espero ser chamado, vou tentando me lembrar quem me faz companhia nesse triste transe. Ai, se não me falha a memória — e essa é a segunda coisa que mais falha nessa idade —, me lembro que Fernando Henrique, Maluf e Chico Anysio estariam sentados ali comigo. Por associação de idéias, ou de idades, vou recordando também que só no jornalismo, entre companheiros de geração, há um respeitável time dos que não entram mais em fila do Detran, ou estão quase não entrando: Ziraldo, Dines, Gullar, Evandro Carlos, Milton Coelho, Janio de Freitas (Lemos, Cony, Barreto, Armando e Figueiró já andam de graça em ônibus há um bom tempo). Sei que devo estar cometendo injustiça com um ou com outro — de ano, meses ou dias —, e eles vão ficar bravos. Mas não perdem por esperar: é questão de tempo.

Ah, sim, onde é que eu estava mesmo? “No Detran”, diz uma voz. Ah, sim. “E o atendimento?” Ah, sim, está mais civilizado, há mais ordem e limpeza. Mas mesmo sem entrar em fila passa-se um dia para renovar a carteira. Pelo menos alguma coisa se renova nessa idade.

Esta crônica de Zuenir Ventura foi publicada originalmente com o título de “Um idoso no Detran”.

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5 Comentários

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Idalina Maria Lima 14 de outubro de 2015 - 23:14

Adoro ler comentarios de pessoas que nao sentem a idade que o documento mostra! O importante é mosso e stilo de vida e nao nos interrarmos antecipadamente. Eternamente na vida termos ganhos e perdas, portanto bora usufruir dos nossos direitos adquiridos, kkkk

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Luiza Maria Peixoto Torres 16 de julho de 2015 - 19:11

Nossa,comigo foi no supermercado,eu estava com meu filho,com apenas 3 itens para passar e vi um caixa rápido,disse: vamos ali, não vi que era de idoso, só tinha duas pessoas na minha frente , a moça do caixa, olhou para mim e disse: a senhora pode vir aqui, eu olhei para trás e perguntei, eu?? sim, pode passar na frente, fui com vergonha, não sinto nada podia esperar tranquilamente,olhei em cima e vi que era de idoso,gestante, etc,eu disse ao meu filho, porque a moça me chamou, dava para esperar, mãe a senhora é idosa, tem preferência …….

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Nilva Ferreira 2 de maio de 2015 - 22:03

Adorei, e desse jeito que acontece. Ai que tristeza, e mesmo comigo que estao falando? rsss. Mas ninguem esta sozinho nem mesmo na idade, portanto… bola para frente…

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regina sales 2 de maio de 2015 - 15:32

Rsrsrsr…muito boa. Por favor…nunca me chamem de idosa!!

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Francisca de Assis Santos Silva 2 de maio de 2015 - 09:19

… quem me acordou para a realidade foi minha netinha, quando tinha dois aninhos… eu estava com 56 anos. Ela queria que eu a acompanhasse em uma de suas brincadeiras de correr, daí fui cair na besteira de fingir que não conseguia me levantar. Hannah, solidária, agarou meu braço e tentou me levantar… eu continuei dizendo que não conseguia levantar. Vendo que não conseguiria, sozinha, ela começou a pedir ajuda. Olha o que ela dizia: “____Levanta vovó, força… vamos… (gritou para quem estava na sala de refeições) Minha gente, por favor, ajude a minha véinha… por favor, ela não consegue mais se levantar…” Foi uma algazarra… ri tanto que chorei e abracei Hannah. Ela conseguiu me levar até a nova etapa da minha vida de forma alegre e descontraída. Gratidão.

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