
Márcia Lage
50emais
Quem entra no site do Ministério da Saúde se depara com uma modelo idosa, de sorriso encantador, protagonizando várias campanhas educativas.
A mais recente é sobre a vacina contra tétano, num corte da mesma foto da campanha de 2023, para aumento da cobertura vacinal no país, que visava todas as idades.
A modelo – jornalista brasiliense de múltiplos talentos – é Ana Castro. Ela ganhou setecentos reais pelo uso de sua imagem, que pode ser reproduzida para o resto da vida dela, sem que receba mais nada por isso.
Ana, inclusive, tem sido voluntária em outras campanhas, como na cartilha de prevenção a quedas, produzida pela Universidade de Brasília.
Está na capa, numa postura de pilates, uma dessas atividades obrigatórias para um envelhecimento saudável.
Obrigatórias e exclusivas, pois não fazem parte das políticas públicas de atenção ao idoso.
Continuamos repetindo, na velhice, a eterna desigualdade de direitos da população.

Com uma negligência maior para aqueles que já deram muito de si para o país e chegam na reta final da vida percebendo que suas novas necessidades estão longe de serem observadas. Quanto mais, atendidas.
Ativista de movimentos por maior atenção pública à população idosa, Ana Castro já vivenciou muitas dificuldades desde que se aposentou.
Desde cuidar sozinha da mãe com Alzheimer até cortar os confortos que podia ter quando trabalhava. Entre eles, as aulas de Pilates, num exercício diário para manter as contas em equilíbrio.
Cheia de energia e de talentos, Ana já fez o primeiro (e mais doloroso) movimento para reduzir despesas.
Mudou-se para uma praia no Ceará, onde o aluguel é mais barato do que em Brasília, e tenta vender sua expertise para o mercado local de trabalho.
Ainda não foi levada em consideração. Talvez por protecionismo bairrista ou por puro e simples preconceito de idade.
Ninguém pensa nos velhos como sujeitos ainda capazes de produzir.
A jornalista já ofereceu seus conhecimentos a instituições públicas e privadas, onde encontra resistência à sua proposta de trabalho pontual, sem jornadas estafantes e sem vínculo empregatício.
Apenas um free-lancer. Uma consultoria. Palestras. Elaboração de projetos. Assessoria para eventos. Até serviço de cozinheira, que ela domina como uma chef, tanto na culinária vegetariana/vegana quanto na tradicional.
Depois de cada atividade, pausa. Nada de bater ponto oito horas por dia, depender de condução pública para ir ao trabalho e gastar o que lhe resta de vida numa rotina estressante, para ganhar pouco e perder sua qualidade de vida.
Ela só quer uma renda extra em atividades que, até agora, tem feito como voluntária. Precisa ser remunerada pelo que sabe fazer e ensinar.

Passeando pelo Canadá, em visita a filho e netos, Ana Castro constata o atraso brasileiro em relação ao idoso.
Lá, além de programas habitacionais voltados a essa população, as leis trabalhistas facilitam a contratação de aposentados com jornadas de uma a duas horas por dia.
Em tarefas como auxiliares escolares e no transporte de estudantes; caixas de supermercados, vendedores de lojas.
Até isso a jornalista faria. Para ter um pouco mais de renda e oportunidade de socialização, da qual sente falta depois que se mudou de cidade.
Enquanto esses pequenos bicos para idosos são comuns em quase toda a Europa e também na Austrália, Japão e outros países que se preocupam com o envelhecimento ativo de sua população, aqui o Congresso faz o oposto: se recusa até a por em pauta um projeto de lei que reduz de 40 para 36 horas semanais a jornada de trabalho dos brasileiros.
Se trabalhar desse jeito vai continuar ruim para os jovens, para velho é que não serve mais.
Ele chegou à aposentadoria porque já esteve nesse esquema por 35 anos ou mais.
Deveria querer descanso. Mas o descanso está sendo difícil de bancar com o desequilíbrio entre correção das aposentadorias e inflação.
Considerar a colaboração remunerada do idoso no mercado de trabalho, seja ele efetivo ou temporário, é uma pauta que o Congresso deveria começar a debater diante do rápido envelhecimento da população brasileira.
Para isso, é preciso ouvir os idosos. Ana Castro teria muitas ideias a propor.
Leia também de Márcia Lage:
São nove irmãos. Todos acima dos 60 anos. Eles optaram por envelhecer juntos
Como dar um basta nesse insuportável assédio telefônico
É preciso pôr fim a essa masculinidade tóxica que agride e mata cada vez mais mulheres
O trágico destino de quem não poupa para a velhice
Fraude INSS: É adoecedor viver num país onde a corda sempre arrebenta do lado do fraco
Complicado e burocrático o jeito encontrado para ressarcir vítimas da fraude do INSS
Para se livrar da corrupção, INSS não pode ficar à mercê de partidos políticos
Cronista do 50emais denunciou há quase 2 meses golpe contra aposentados e pensionistas





