
Ricardo Bastos
50emais
Decidi sentar em um banco de praça para esperar o horário de um compromisso. Era fim de tarde. O sol já perdia a força e uma brisa leve fazia as folhas dançarem no chão. Havia outras pessoas por ali. Um casal, um senhor sozinho, duas mães observando as crianças no parquinho e um rapaz de fones de ouvido. Todos estavam sentados. Ninguém conversava.
Cada um olhava para a tela do próprio celular, como se a praça inteira estivesse ocupada e, ao mesmo tempo, vazia. Bastava levantar os olhos para encontrar alguém. Mas ninguém levantava. Era como se existissem muros invisíveis separando pessoas que dividiam o mesmo espaço. Fiquei pensando que as praças nem sempre foram assim.
Houve um tempo em que um banco de praça era quase uma sala de estar sem paredes. Bastava sentar para ouvir um “boa tarde”. Depois vinha um comentário sobre o calor, sobre a chuva que demorava, sobre o time de futebol ou sobre o cachorro que passeava sem pressa. Quando percebíamos, uma conversa inteira havia nascido entre completos desconhecidos.
Ninguém perguntava a idade, a profissão ou a posição política do outro. Conversava-se porque havia tempo. E porque havia curiosidade pelas pessoas. Hoje carregamos o mundo inteiro no bolso. Sabemos o que aconteceu do outro lado do planeta em poucos segundos. Recebemos notícias, vídeos, fotografias e mensagens sem parar. Mas, curiosamente, sabemos cada vez menos sobre quem está sentado ao nosso lado.
Talvez a tecnologia tenha aproximado quem está longe. Mas, sem querer, também tenha afastado quem está perto. É curioso observar como mudamos até o jeito de esperar. Antes, a espera era uma oportunidade para olhar o movimento, reparar nas árvores, acompanhar o vai e vem das pessoas ou simplesmente deixar os pensamentos passearem sem destino. Hoje, qualquer intervalo de silêncio parece precisar ser imediatamente preenchido por uma tela.
Quem sabe por isso as conversas espontâneas tenham ficado mais raras. Lembro-me de quando meu pai sentava na praça da cidade depois do expediente. Ele voltava para casa contando histórias de pessoas que nunca mais veria. Um agricultor que reclamava da seca. Um aposentado que ensinava como enxertar uma roseira. Um senhor que havia morado em outro país. Eram encontros sem importância aparente, mas que deixavam a vida um pouco maior.
Não estou dizendo que o passado era melhor. Cada tempo tem suas belezas. Também uso o celular, respondo mensagens e gosto da facilidade que ele trouxe para a minha vida. O problema não está na tecnologia. Está quando ela ocupa todos os espaços que antes pertenciam às pessoas.
Talvez estejamos desaprendendo uma habilidade que sempre pareceu natural: conversar sem um objetivo. Sem vender, convencer, responder ou publicar. Apenas conversar.
Enquanto esperava meu compromisso, guardei o celular no bolso. Um senhor de cabelos brancos, sentado alguns metros adiante, fez o mesmo quase no mesmo instante. Nossos olhares se cruzaram e ele sorriu.
Sorri de volta. Nenhum de nós disse uma palavra. Mas fiquei com a impressão de que os dois sentimos falta exatamente da mesma coisa.
Leia também de Ricardo Bastos:
As chaves que já não sabemos de onde são
A última vez que alguém pediu um conselho
As coisas que não consertamos mais
Quando a tecnologia, criada para ajudar, causa constrangimento
O dia em que tive que ensinar meu filho a fazer um suco de laranja
O drama das muitas senhas: sem elas não existimos digitalmente
A gaveta que nunca mais fechou direito
Duas noites dentro de um álbum de fotografias
Quando o filho adulto volta para casa o ninho muda de tamanho
Quando ele aprende a arte de pedir ajuda
O dia em que descobri o prazer de desmarcar um compromisso
Tatiana Sampaio: cientista orgulho do Brasil
Sexo e folia: liberdade que chega aos 50 como um sopro de ar fresco
Casais que se amam. mas moram separados, um arranjo que cresce após os 50
Separação depois dos 50: quando o “nós” muda de lugar
BBB 2026: a arte de não levar a casa para dentro de casa
NOLT – um modismo para mascarar o envelhecimentoRomances virtuais falsos se multiplicam e acendem alerta para mulheres 50+
Celebrar o Ano Novo aos 50+ é assumir compromisso com aquilo que faz sentido
Natal depois dos 50, o que fica quando o resto se aquieta





