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O calvário de uma paixão

Por Maya Santana

ela expulsou o demônio de olhos verdes e queixo quadrado que havia entrado em sua vida numa Sexta-feira da Paixão e se alojado no fundo da sua alma, roubando os seus sonhos, desejos, pensamentos

Era uma sexta-feira dessas quando descobriu que estava presa na cruz dessa paixão

Déa Januzzi

Ainda bem que a Sexta-feira da Paixão virou ontem. Passou, mas continua longa, pesada, mesmo que os santos não estejam mais cobertos de roxo; mesmo que bares e restaurantes escancarem as portas; mesmo que não haja mais a tradição de jejuar, guardar silêncio e respeito pelo Senhor morto.

Toda sexta-feira da paixão, ela se lembra de que alguma coisa pode acontecer independentemente da fé, para deixar as marcas de um martírio prolongado. Foi numa dessas sextas-feiras que ela se apaixonou perdidamente por quem não devia. Cumpriu a via crúcis dessa paixão por seguidas semanas santas. Pagou todos os seus pecados, carregou a cruz desse estranho amor por dias, meses, anos, até que ressurgiu inteira, renovada. Livrou-se dessa paixão. E se sentiu leve, como se tivesse expurgado o fel, cicatrizado todas as feridas abertas pelos cravos dessa louca paixão.

Sem nenhum simbolismo, sem data marcada ou festiva, ela expulsou o demônio de olhos verdes e queixo quadrado que havia entrado em sua vida numa Sexta-feira da Paixão e se alojado no fundo da sua alma, roubando os seus sonhos, desejos, pensamentos, sua dignidade de mulher. Tem certas pessoas que chegam para fortalecer o que há de melhor dentro da gente. Outras são mestres em cutucar as feridas mal curadas, em acender as labaredas do inferno dentro do coração. Tem certas pessoas que despertam os seus anjos, outras alimentam seus demônios.

Era uma sexta-feira dessas quando descobriu que estava presa na cruz dessa paixão. Mestra em ressuscitar fantasmas, ela passou a ter um medo danado de Sexta-feira da Paixão. Depois que ficou livre dos demônios que aparecem em plena luz do dia, ela passou a respeitar o dia mais pesado do ano. Passou a rezar às três da tarde de toda Sexta-feira da Paixão, hora em que Cristo teria morrido na cruz. Passou a tomar banhos de folhas poderosas e perfumadas, para afastar qualquer possibilidade de outra paixão daquelas para infernizar a sua vida. Passou a entender que algumas sextas-feiras têm cara de assombração.

Ela nunca tinha dado muita importância ao simbolismo da data, quando ele surgiu naquela Sexta-feira da Paixão para instaurar o ofício de trevas na vida dela. A procissão do enterro dos seus sentimentos mais nobres já estava marcada, quando buscou a ajuda de uma psicanalista. Três vezes por semana era o mínimo para descarregar todo o peso daquela paixão nada santa, exigia a psicanalista. Para colocar tudo para fora, desabafar, cantar em voz alta cada conta daquele rosário de fatos da vida que foram desaguar na paixão de uma sexta-feira.

Com fervor, ela se atirou às sessões de psicanálise. Religiosamente, cumpriu o ritual de se deitar no divã e falar daquele que entrou para bagunçar a sua vida. Com devoção, falou que não conseguia respirar enquanto não ouvia a voz dele no telefone, que não conseguia fazer nada a não ser pensar nele. Durante anos, repetiu a eterna ladainha daquela estranha paixão. As conversas com a psicanalista funcionavam como água benta, limpando partes do passado, refazendo esquinas do medo, aspergindo o lixo de amores mal resolvidos, as dores remendadas com montes de cigarro e bebida.

Como se estivesse diante do confessionário, pediu perdão por ter amado de menos quem gostava dela. E de ter amado tanto quem nem sequer pensava nela. Confessou tudo, os pecados cometidos, os que ainda queria cometer, todos os exageros, excessos, faltas e perdas. Confessou o eterno romantismo que sempre põe tudo a perder. Confessou a poesia impregnada na pele, que descia pela garganta e estacionava em lugares impróprios. Confessou até que via o demônio de olhos verdes e queixo quadrado como um santo.

Confessou até que se perdera naqueles olhos verdes, que amava os pés dele, que gostava dos seus sapatos, que queria se ajoelhar diante dele e rezar. Confessou todo o calvário da paixão, passo a passo. Confessou até que quando estava perto dele, o mundo ficava melhor.

Durante tempos, pediu para ser salva daquele demônio de olhos verdes e queixo quadrado, 10 anos mais novo do que ela. Até que um belo dia acordou como se estivesse vendo a própria vida na televisão – e o filme era de terror. Ela, então, mudou de canal. Desligou-se, mesmo com a dor lancinante das sextas-feiras da paixão.

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4 Comentários

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Cíntia Campolina Rossi 27 de março de 2016 - 01:00

Aleluia, minha querida!!

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Cássia Figueiredo 26 de março de 2016 - 22:56

Corajosa! Conseguir exorcizar essa paixão nefasta!

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Marlyana Tavares 26 de março de 2016 - 21:12

Nada menos do que acachapante. Quisera eu ter esse dom de transmutar dores e alegrias em textos dramáticos e preciso qual um soco no estômago.

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Marisa Sanabria 26 de março de 2016 - 19:41

Lindo querida essa paixão que enlouquece em algum momento , e que todas nós vivemos de alguma forma, qui bom que você se salvou !!!beijos feliz ressurreição!!!

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