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O contrário de morrer é nascer. Entre nascer e morrer, vive-se

Por Maya Santana
“Tem pessoas que enriquecem a minha solidão. Tem outras que me deixam irremediavelmente solitária”

“Tem pessoas que enriquecem a minha solidão. Tem outras que me deixam irremediavelmente solitária”

Déa Januzzi –

Ela vive se reinventando. Evolui a cada estação, se deixa cortar, para florescer a cada novo ciclo. Pergunte para Magrace Simão se ela tem medo da morte, da doença, da velhice, da solidão, de ter mudado de cidade e até de amigos, conservando é claro os que valem a pena. Aos 66 anos, ela se dá o direito de gostar ou não, de escolher quem continua fazendo parte dos seus afetos. Se ela tem medo da morte? Com certeza, ela responderá com uma outra pergunta: “Qual é o contrário de morrer”? Prontamente respondi que é viver. Magrace retrucou: “O contrário de morrer é nascer. Entre nascer e morrer, a gente vive”.

Magrace vive hoje num charmoso condomínio de Goiânia, coberto pela luz incrível da cidade, sem grades, com as janelas abertas para a vida. Sozinha depois que a cachorra Kissis, sua companheira de todas as horas, morreu de câncer, aos pés de sua cama. “De madrugada, Kissis deu um grito e morreu. “Esse grito ecoa até hoje dentro de mim e me fez refletir sobre morte e dor.”

Portadora de HIV há 21 anos, quando ainda não havia o coquetel para a Aids, Magrace mudou valores, teve um blog para falar dessa loucura que é viver, e parou de ter medo da morte, de se preocupar com família. Mas tem uma vizinha portuguesa, doutora em microbiologia, que ensinou para ela tudo sobre protozoários, amebas , amizade e respeito ao outro. Casada com Danilo, todos os domingos, eles trazem algum alimento para o corpo e a alma de Magrace: um bolo, o almoço compartilhado, algo especial que fizeram no dia. Apesar de se declarar ateia, de dizer que não acredita em Deus, ela considera essa amizade “uma bênção”.

Com um andador, pois desenvolveu uma neuropatia periférica que a faz explodir de dor nos pés, ela não se intimida. Acorda por volta de meio-dia e anda pelos jardins do condomínio. Só sai de casa para ir a dois lugares: ao oftalmologista, pois tem degeneração macular, e à infectologista que hoje é sua amiga. A consulta pode durar até duas horas, sem que a doutora se importe com os outros pacientes na sala de espera. Pois Magrace é assim. Consegue cativar a todos. Ela e a doutora conversam horas, trocam ideias e reflexões.

Magrace na bicicleta, década de 70

Magrace na bicicleta, década de 70

No mais, Magrade lê. Continua apaixonada por Freud, Nietzsche e Darwin. Faz curso de astronomia pela internet, vê filmes clássicos pela televisão, mas não podem ser dublados porque detesta, prefere os legendados – e confessa que é feliz. Pois sabe que problemas fazem parte da vida. Ela também não briga com o tempo. Deixa que ele corra como quiser. Acabou a ansiedade. Se ela se sente solitária? Ela ri e responde com a ousadia e a deliciosa serenidade adquirida com o tempo. “Tem pessoas que enriquecem a minha solidão. Tem outras que me deixam irremediavelmente solitária”.

Magrace é assim. Amigas desde os anos 1970, eu e ela falamos a mesma linguagem, mesmo que distantes uma da outra. Pois Magrace me pôs em dia com a vanguarda intelectual e cultural da época. Apresentou-me à psicanálise, que me salvou dos meus desvarios – e à ginecologista e obstetra que me acompanha até hoje, da gravidez à maternidade, passando pela vida adulta e agora no crepúsculo da vida, quando cheguei aos 63 anos.

Quando Magrace chegou à redação de um jornal mineiro exibiu a sua aura de mulher revolucionária. Tinha o próprio carro, um Dodge Polara, e morava sozinha num apartamento na Região Centro-Sul de BH. Ela era a concretização física do que as mulheres dos anos 1970 sonhavam: independente, dona de si. Foi com ela que aprendi a fazer fondue de carne e de queijo. Entre um pedaço de pão mergulhado na panela e doses de vodka com água tônica, Magrace, eu e os outros amigos mudávamos o mundo, escancarávamos as portas do coração até altas madrugadas. Eu queria sorver tudo, experimentar a sensação inebriante de fazer parte de um grupo seleto de intelectuais e artistas, sem repressão ou preconceitos. Aprendi a ser livre com Magrace, uma mulher que fazia comidas deliciosas e desconhecidas para mim, como boeuf bourgnion, um filé em tiras, com conhaque flambado. Ninguém pode imaginar o que eu sentia ao ver a panela de Magrace pegando fogo, pois eu nem sabia ainda o gosto da minha própria vida.

Magrace era a própria liberdade e ousadia. Tocava piano, escrevia poemas, lançava livros, ia a festas, dava jantares e festas inesquecíveis. Mas Minas ficou pequena para ela, que foi embora para Brasília, alargar seu universo. Nunca fui a Brasília visitá-la, mas tinha notícias de outros jornalistas que iam e contavam da recepção calorosa, com champanhe e morangos à beira da piscina, bem ao estilo dessa mulher que tem luz própria. Magrace ia seguindo o próprio compasso. Anos depois soube que ela se mudou para Goiânia e às vezes ficamos horas ao telefone.

Magrace continua me encantando com seu jeito de ser e de viver. Não bebe mais, mas continua detestando mentira e falsidade. Dos amigos de Brasília, continuam firmes Murilo e Selma Murça de Carvalho, que têm o poder de compartilhar. De três em três meses, eles vão visitar Magrace em Goiânia. Não deixam de ir, nunca se desgrudaram da amiga. Levam tudo o que ela precisa, desde um ventilador para o tempo seco de Goiânia até almofadas, panos de prato e tevê de plasma.

Já combinaram até o último jantar de Magrace. Em primeiro lugar, ela quer caviar preto, porque não gosta do vermelho. Ostras são imprescindíveis, além de lagosta e filé. De sobremesa, petit gatêau. E lógico, champanhe, mas tem que ser Veuve Cliquot, Cristal ou Don Perignon, para celebrar a vida. Digo à Magrace que esse jantar vai ter que esperar muito tempo. Ela responde, com delicadeza, mas firme, sem medo, sem angústia, sem tristeza: “Pode ser amanhã à noite, Déa.”

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9 Comentários

Carmen Lins 17 de agosto de 2017 - 21:30

Sempre li Déa quando ela escrevia no Estado de Minas. Uma fã incondicional dela, eu sou. Adorei ler o texto sobre a amizade com Magrace.

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João Bosco Salles 15 de agosto de 2017 - 10:42

Nada a dizer Dea. Só me emocionar profundamente.

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Airton 8 de outubro de 2015 - 16:59

Déa, hoje em dia leio muito pouco jornais. E apenas uma ou outra revista. Vagueio notícias pela internet. Prefiro livros e literatura. E reencontrei vc e o seu texto através do 50 e mais. Lembro-me bem de como o nosso amigo Roberto Drummond a elogiava. Ele me incentivou a lê-la. Mas, como lhe disse, me distanciei do EM e de seus artigos. Agora reencontro a Magrace através de vc. Ela foi minha colega de classe no jornalismo da PUC. No EM nosso horário não combinava. Na vida cada qual tomou seu rumo.Quando encontrar de alguma maneira com ela, diga que lhe enviei um beijo.

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Newton Garcia 3 de setembro de 2015 - 10:48

Parabéns a Déia pelo belo texto e a nossa sempre querida amiga Magrace que tive a satisfação de conhecer em Brasília nos anos 80/90 e que foi muito bem retratada no texto, e que ainda tenho a alegria de conviver e de cultivar a amizade. Abraço grande, Brasília dos Ipês coloridos e nós sentimos sua falta.

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MURILO MURÇA DE CARVALHO 22 de agosto de 2015 - 08:16

É a Magrace que eu tenho a satisfação e alegria de conhecer. De fato, o texto de Déa é o primor que Magrace dizia e eu não conhecia. É o retrato perfeito, emoldurado por realismo e carinho. Parabéns pras duas, autora e personagem.
abraço ambas
Murilo

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Ricardo Lana 16 de agosto de 2015 - 17:29

Belo texto Dea. Me trouxe de volta os anos70 quando tanto você quanto Magrace, muitas vezes me entrevistaram sobre temas relacionados à proteção do Patrimônio Histórico Cultural de Belo Horizonte. Daqui de Los Angeles neste domingo ensolarado e muito quente envio o meu abraço fraterno e saudoso. A determinação e tenacidade da Magrace sao para todos nós um alento no enfrentamento das surpresas que a vida muitas vezes nos impõe. Que bons e verdadeiros amigos preencham todas as lacunas de seus dias. Amigos são o que realmente vale a pena.
Um
Forte abraço
.
Ricardo Lana

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Déa Januzzi 18 de agosto de 2015 - 15:05

Nossa, Ricardo Lana que bom saber de você. lembro-me bem de você e das nossas entrevistas. Obrigada, amigo, pelas palavras. Apareça de vez em quando, mande notícias, mesmo que pelo facebook. Beijos. Déa

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MaGrace Simão 15 de agosto de 2015 - 22:17

Déa, minha amada e distante em quilometragem amiga, seu texto é brilhante como sempre. À época em que trabalhamos juntas, eu tinha inveja da sua forma de escrever. Hoje, só lhe reservo a garantia de que você é uma grande escritora. Acima de tudo leal e colocada com tanto amor! Só tenho que te agradecer e muito! Amei a forma como você me colocou no texto. Um beijo e um abraço como se estivéssemos juntas de corpo. De alma tenho certeza que sim! MaGrace

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Lene 16 de agosto de 2015 - 12:34

Linda sua história! Linda sua força!

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