
50emais
A declaração de Paula Lavigne à revista Veja de que ainda mantém vida sexual com Caetano Veloso, 83 anos, provocou reações diversas nas redes sociais. Mas, para além da curiosidade sobre a intimidade do casal, a fala trouxe à tona um tema ainda cercado de preconceitos: a sexualidade madura.
“Não é igual há vinte anos, mas temos”, disse Paula, de 56 anos, ao comentar as transformações naturais do corpo e da libido após a menopausa. A sociedade ainda associa sexualidade à juventude, como se o envelhecimento significasse automaticamente o fim do desejo, do afeto e da intimidade. Os números mostram outra realidade.
O corpo muda, o afeto também
Estudos recentes indicam que grande parte das pessoas acima dos 60 anos continua fazendo sexo. Uma pesquisa publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva apontou atividade sexual em mais da metade dos idosos entre 65 e 74 anos. Outro levantamento revelou que 68,8% dos entrevistados afirmaram manter vida sexual ativa.
Especialistas afirmam que a sexualidade madura não desaparece, ela se transforma. A menopausa, por exemplo, pode provocar queda hormonal, diminuição da libido, secura vaginal e desconforto durante as relações. Mas não significa o fim da atividade sexual.
Mais diálogo e maior intimidade
No caso dos homens, o envelhecimento também traz alterações fisiológicas, como redução da testosterona, mudanças na resposta sexual e maior influência de fatores emocionais e cardiovasculares.
Leia também: Sexualidade ativa faz parte do envelhecimento saudável
A maturidade, no entanto, costuma trazer outros ganhos: mais diálogo, menos ansiedade, maior intimidade emocional, redescoberta do prazer sem pressão estética ou performance.
Em entrevista ao portal do médico Drauzio Varella, especialistas destacam que o sexo após os 60 assume características diferentes, muitas vezes mais ligadas ao companheirismo e à conexão afetiva.
Invisibilidade ainda é o maior tabu
O preconceito continua sendo um dos maiores obstáculos. Pesquisadores da USP observam que a sexualidade na terceira idade ainda é “pouco vista, estudada e comentada”.
A própria reação às falas de Paula Lavigne mostrou isso. Parte dos comentários nas redes sociais tratou o tema com ironia ou espanto, como se pessoas maduras não pudessem falar naturalmente sobre desejo e intimidade.
A geriatra Flávia Raquel Rosa Junqueira, citada em estudo da USP, resume: “A sexualidade continua latente até mesmo na velhice.”
Outros casos que ajudaram a quebrar o silêncio
Paula Lavigne não é a primeira figura pública a abordar o tema. A atriz Jane Fonda, hoje com 88 anos, já declarou que a maturidade trouxe maior liberdade emocional e autoconhecimento afetivo.
Leia também: O que eles e elas precisam saber sobre sexualidade depois dos 50
No Brasil, Susana Vieira também falou abertamente sobre sexualidade na maturidade, criticando o preconceito contra mulheres mais velhas que vivem relacionamentos afetivos.
A apresentadora Angélica, no programa 50 & Tanto, abriu espaço recentemente para conversas sobre menopausa, envelhecimento e autoestima feminina, ajudando a normalizar um tema historicamente tratado com silêncio.
Envelhecimento da população
O debate se torna ainda mais necessário porque o país mudou. Segundo o IBGE, o número de brasileiros com 60 anos ou mais cresceu 56% em pouco mais de uma década. Hoje, são mais de 32 milhões de pessoas nessa faixa etária. Envelhecer deixou de ser exceção. E falar sobre qualidade de vida inclui também saúde emocional, afetiva e sexual.
A declaração de Paula Lavigne talvez tenha causado impacto justamente por lembrar algo simples: pessoas maduras continuam amando, desejando, sentindo e construindo vínculos.
Leia também: Um guia para combater o preconceito de idade
O envelhecimento altera o corpo, mas não elimina a necessidade humana de afeto, carinho, toque e conexão. Talvez o maior aprendizado esteja exatamente aí: a sexualidade madura não precisa imitar a juventude para continuar existindo.





