
Ricardo Bastos
Outro dia, sentei para jogar videogame com meu filho. Há algo de humilhante em tentar acompanhar alguém 40 anos mais novo dentro de um universo que parece ter sido criado na velocidade dos pensamentos dele. Meus dedos chegavam atrasados. Os olhos demoravam meio segundo para entender o que acontecia na tela. Quando finalmente eu percebia o perigo, já estava derrotado.
Ele não. Deslizava pelo jogo como quem nasceu conectado à corrente elétrica do século. Saltava, corria, atirava, desviava, construía estratégias e ainda encontrava tempo para rir da minha cara. Cada vitória vinha acompanhada daquela alegria exagerada que só os filhos têm quando descobrem que os pais não são invencíveis.
“Você nunca vai conseguir me ganhar”, disse, gargalhando. E talvez estivesse certo. Enquanto ele comemorava mais uma vitória, fiquei olhando para aquele menino atravessando mundos digitais com uma facilidade que para mim parecia ficção científica. Pensei então que talvez essa seja mesmo a ordem natural das coisas.
Os filhos precisam superar os pais. Precisam correr mais rápido. Entender mais cedo. Aprender linguagens que a geração anterior jamais dominará completamente. O progresso humano talvez exista justamente porque os filhos chegam onde os pais não conseguiram chegar.
Mas existe um detalhe que passa despercebido nisso tudo. Nenhuma geração sobrevive apenas daquilo que supera. Ela também depende daquilo que recebe.
Depois de muito riso e provocações, esperei o intervalo do jogo e disse: “Filho, faz um suco de laranja para mim?” Ele levou um pequeno susto. Como se o professor tivesse anunciado uma prova oral no meio da aula.
“Fazer?” Sim. Fazer um suco de laranja.
Foi até a cozinha confiante. Abriu a geladeira. Procurou uma garrafa pronta. Não encontrou. Havia apenas laranjas descansando na fruteira, absolutamente analógicas.
Da sala, expliquei: “É só cortar as laranjas, usar o espremedor e colocar no copo.” Silêncio. Depois ouvi gavetas abrindo. Objetos mudando de lugar. E uma hesitação crescente.
Então, ele apareceu na sala com uma expressão desarmada que eu jamais tinha visto durante o videogame. “Eu não sei fazer suco.” Não falou com vergonha. Falou com sinceridade.
Naquele instante aconteceu uma coisa estranha dentro de mim. Porque poucos minutos antes eu era o homem derrotado pela velocidade daquele século. Agora, diante de uma simples laranja, os papéis se invertiam outra vez.
Levantei devagar. Não ri. Não aproveitei a oportunidade para devolver o deboche. Apenas coloquei a mão em seu ombro e fomos juntos até a cozinha.
Mostrei como escolher a faca. Como cortar a fruta sem deixar escapar da mão. Como posicionar a metade da laranja no espremedor. Como a força não resolve tudo, às vezes o movimento certo vale mais. Ele observava em silêncio. E talvez ali estivesse acontecendo uma aula muito maior do que nós dois imaginávamos.
Enquanto o mundo ensina nossos filhos a navegar por telas, alguém precisa ensiná-los a reconhecer o peso das coisas reais. O cheiro da fruta recém-cortada. O barulho ritmado do suco caindo no copo. A pequena paciência necessária para transformar algo bruto em alimento.
Percebi, então, que educar um filho talvez seja exatamente isso. Aceitar que ele dominará tecnologias que jamais entenderemos completamente. E, ainda assim, deixar com ele algumas ferramentas humanas para atravessar o mundo.
Porque eficiência não substitui delicadeza. Velocidade não substitui presença. E inteligência nenhuma substitui a capacidade de cuidar de si mesmo e dos outros.
Mais tarde voltamos ao videogame. Continuei perdendo feio. Mas naquela noite dormi com uma estranha tranquilidade. Meu filho talvez nunca me deixe vencê-lo dentro daquele jogo. Mas agora sabe fazer um suco de laranja.
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