O dom de arder, por Déa Januzzi

Por Maya Santana
     " A mulher que existe em mim está engessada"

“A mulher que existe em mim está engessada”

A mulher que existe em mim está dormindo. Um sono tão profundo que nem príncipe encantado pode acordar. Nem Maria nem Madalena nem Verônica nem Amélia. A mulher que existe em mim não consegue lavar, passar, cozinhar, arrumar, sofrer em silêncio diante do calvário de um filho. Nem enxugar o suor que escorre da via-crúcis de todo dia. Nem quer ser a mulher de verdade. Nem a que se arrepende do que fez. A que expia os seus pecados.

A mulher que existe em mim viajou – e de algum lugar do passado escreve cartas de alforria para as escravas da paixão. Desse lugar bem distante, a mulher que existe em mim manda recados urgentes, pede socorro. Grita, esperneia, mesmo em silêncio, emudecida.

A mulher que existe em mim evaporou, e as gotas ficaram condensadas no ar dessa opressão. Você ainda sente o perfume dessa mulher que, em noites de Lua cheia, exala na esquina da sua casa?

A mulher que existe em mim não tem nada a ver com Cleópatra, a rainha do Egito, que se banha em leite de cabra com pétalas de rosas e almíscar, que desenha os olhos com lápis crayon para chegar perto de sua nobreza. Nem com as gueixas, que se preparam, se enfeitam, se vestem, para agradar o outro.

A mulher que existe em mim está engessada. Ela não sabe mais dançar. Não tem mais ritmo próprio, se esqueceu dos passos, da ginga, das curvas, da festa que existia em seu corpo. A mulher que existe em mim está presa a uma tala de gesso. Não pode virar para um lado nem para o outro. Esqueceu os acordes da alma.

A mulher que existe em mim virou fantasma de uma outra que gostava de rir e de brincar, de celebrar a vida. Vive em sobressalto, em pesadelo constante. A mulher que existe em mim não sabe bordar nem costurar nem tricotar, muito menos fiar, pois sempre fere o dedo na roca. Não tem tranças para jogar lá de cima do castelo onde está presa. Essa mulher cansada está enroscada nos fios que ela mesma produziu.

A mulher que existe em mim foi passear e não voltou para mostrar que ainda é tempo de semear a sensibilidade, de conversar em calma, de confessar coisas boas, de compreender e de germinar. Mas a mulher que existe em mim vive em transe, por amar demais, sem medidas, sem pouso, sem sossego. De vez em quando, ela precisa ficar internada no hospício da própria loucura, pois a mulher que existe em mim não é lúcida, muito menos comportada. Nem pode ser colocada numa camisa de força. Nem em redoma de vidro. A mulher que existe em mim não se quebra nem se dissolve.

A mulher que existe em mim arde como flor de papoula que abriga o ópio dentro de sua beleza rubra e estarrecedora. Ela não mostra o afeto que possui para não gastar. Ela não ama em dobro para não desgastar, porque amor demais esgota.

A mulher que existe em mim desapareceu, se exilou em outras paisagens, no cair da tarde, entre nesgas douradas do crepúsculo. Às vezes, ela é a poeta que se descobriu já no entardecer da vida. Outras vezes precisa de colo, como uma menina.

A mulher que existe em mim briga o tempo inteiro consigo mesma, como se estivesse enjaulada num papel que não é o seu. Ela dorme um sono letárgico, entorpecedor, analgésico, ansiolítico – e acorda tonta, desmesurada.

A mulher que existe em mim, um dia, amanhece sem susto, renovada. Desperta sem cansaço, refeita, em paz, sem modelos para copiar, sem culpa, sem medo, sem gesso, sem molde, sem fôrma de bolo.

A mulher que existe em mim agora arde, incendeia, para clarear o próprio caminho. A mulher que existe em mim acordou, espreguiçou, sem beijo de príncipe encantado. Sem varinha de condão, sem nenhuma mágica, a mulher que existe em mim derrubou as paredes do tédio, arrebentou as grades da mesmice. Revirou-se pelo avesso, se contorceu, até encontrar o seu cerne.

A mulher que sou, não quer mais ser forte nem sofredora nem amarga nem estar em dívida consigo mesma. Muito menos carrasca de si própria. A mulher que existe em mim não é algoz, mas tem olhos profundos para decifrar o mundo.

Esta crônica da jornalista e escritora Déa Januzzi foi publicada originalmente no Estado de Minas.


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10 Comentários

linda de oliveira 1 de setembro de 2017 - 13:17

Dea Januzzi
Hoje vc e´a primeira a me parabenizar pelo meu aniversario. Sua cronica e entre outras, porem chegou como este ato de existencia ,que sempre me alenta pelas mais sublimes identificaçoes e superaçoes.
Grata vc é simplesmente grande em sua capacidade de ser.
AFETUOSO ABRAÇO
LINDA.

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Dirce Saleh 5 de setembro de 2014 - 18:37

Dea Januzzi, boa tarde, querida.
Você retrata uma realidade em dualidade do ser. Um ser sujeito de si mesmo Toma a mulher como modelo em sua crônica No entanto vejo isto estar acontecendo nos dois gêneros Acabei de ver uma fita de crianças na Africa, entre 4anos a 10 anos, esqueléticas deitadas no chão como que esperando a morte Sem a mínima esperança que alguém possa fazer alguma coisa por elas Uma irrmâ de 12 anos dá o banho as transportam do chão para uma lona após o banho, Não andam. E ali ela lhes serve qq coisa para comer e come com eles Vivem ao relento O texto do video não sei se é pior do que a mulher que retrata sem esperança. Mas a irmã é uma heroina naquele desalento, uma guerreira É a segunda parte de seu texto entre esperança e o desespero. Só que ela quer ser forte ,e não sofredora , não se entregou ao desespero que a vida lhes oferece Vejo entre os dois texto o que vc diz no final Esta mulher que vi tem olhos firmes para decifrar o mundo e quer compartilhar esperança em seus irmãos Mesmo sem saber como Tenta.
Eu penso enquanto há vida temos que lutar e viver…
Bjs
Dirce

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yvone 5 de setembro de 2014 - 09:14

A mulher que existe em mim acabou de renascer. A mulher que existe em mim descobriu que é melhor soltar as rédeas, relaxar e aproveitar a vida tal qual se apresenta.

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Déa Januzzi 3 de setembro de 2014 - 22:06

Essa crônica é mais atual do que nunca. A mulher que existe em mim, desapareceu

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dea januzzi 22 de julho de 2014 - 01:03

Célio, obrigada por suas palavras que me emocionaram. Eu também sinto falta de leitores como você.. Saí do jornal depois de 38,5 anos de trabalho, mas com a promessa de que a crônica voltaria. Seis meses depois mandaram me avisar que não tinham dinheiro para me pagar e eu fiquei esperando, porque Coração de Mãe foi uma ideia do meu amigo, escritor e jornalista Roberto Drrummond, mas eles nem consideram isso. Obrigada Célio. muito obrigada mesmo.

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Célio Amorim 21 de julho de 2014 - 15:46

Célio Amorim
O seu comentário está aguardando moderação.
21 de julho de 2014 às 3:42 pm

Dois detalhes que me chamam a atenção:
1 – o horário está errado. O correto é 12,42h
2 – se me pedem um COMENTÁRIO e eu o faço, qual o motivo desse AGUARDANDO MODERAÇÃO???

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Célio Amorim 21 de julho de 2014 - 15:42

Muito recentemente fiz chegar até a DIREÇÃO do Jornal EM, minha manifestação singular sobre as ‘perdas’ que aquele diário vem sofrendo.

A última página do caderno CULTURA, brindava-nos com MARIA ESTER MACIEL, AFFONSO ROMANO DE SANT’ANA, MARINA COLASSANTI e FERNANDO BRANT e por medida de economia! segundo fiquei sabendo, ‘dispensou’ aquelas sumidades literárias.

Anteriormente, privou-nos daquele CORAÇÃO DE MÃE dominical que nos fazia chorar; rir; regozijar sempre nos transmitindo gostosa sensação de ler algo que saia do muito profundo coração da escritora Déa Januzzi.

Relendo aquela crônica acima, registro meu desejo da volta da Déa Januzzi ao Jornal Estado de Minas, pela excelência de seus escritos.

Responder
sirlene pereira dos santos gonçalves 21 de julho de 2014 - 01:26

Déa que mulher verdadeira !’PARABÉNS”.Hoje sou um pouco assim,que crônica maravilhosa:beijos!,

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Fátima abelini 20 de julho de 2014 - 17:18

Linda crônica…vi o meu interior.

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isa webb 20 de julho de 2014 - 14:36

lindo, lindo , lindo.

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