O dom de transformar moda em gritos de dor

Por Maya Santana
Mary: "O excesso como fardo, mas também como liberdade, liberdade de criação”

Mary, sobrenome Design: “O excesso como liberdade de criação”

Déa Januzzi

       Primeiro, conheci as bijuterias dela que eu ficava horas namorando nos shoppings e nas lojas mais charmosas da Savassi, em Belo Horizonte. Bijuterias com design, cheias de graça, de vida e de ousadia. Diferentes de tudo, bijuterias com trama, com história, como se fossem bordadas: colares, anéis, tiaras, pulseiras a envolver o corpo das mulheres.

        Poesia pura, como se fosse uma oração, a desvendar o sagrado em cada uma de nós. Nada de santa nem de pecadora. As duas juntas, a enfeitar braços, pescoços, pernas, tornozelos, cabeças, a desnudar a alma, os gestos, a sedução.

A exposição sobre a loucura foi muito elogiada

A exposição sobre a loucura arrancou aplausos

      Depois, conheci a criadora, a mulher por trás da Mary Design, quase nome próprio, que nasceu Mary Figueiredo Arantes, lá pelos lados do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Em seguida conheci a poeta, cujos versos lembram os de Adélia Prado, pois fala sobre “as preciosas coisas banais”. Por coincidência ou não, as duas nasceram em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia.

    É por isso e pelos mimos que ela oferece (e também recebe, como o presente de uma abóbora gigante que a pessoa trouxe sozinha, de bem longe), que Mary é um poema, uma mulher incomum, nome também de sua coleção de 2013, quando ela simplesmente fez moda com a diferença. Revelando para o mundo histórias de mulheres, como a de Margareth, a gari do Parque Municipal de BH, que vive com o rosto, as mãos e os braços cobertos de piercings, broches e adereços. A coleção virou documentário e de repente, ela me surpreende com o convite para assisti-lo e conhecer cada uma dessas mulheres pessoalmente.

O desfile das criações de Mary foi na Minas Trend

O desfile das criações de Mary foi na Minas Trend

           Mary também compactua com a mesma amizade por Magui, a dama das ervas, que ela mesma define como alguém “com o poder de passar um cotonete nos cantinhos da alma da gente quando compartilha a alquimia e o milagre do pão, no Sítio Sertãozinho, em Moeda”.

       Mary é assim. De repente, manda uma mensagem me convidando para ouvir poemas ditos pela própria Adélia Prado, no museu, numa sexta-feira à noite. E, de repente, envia para o seu endereço uma cesta carregada de flores do seu jardim, lá no Bairro Mangabeiras ou chás com ervas indianas e biscoitos amanteigados.  

     Agora, Mary vem com uma bomba poética, capaz de me levar à loucura. No desfile de 2014, no Minas Trend, ela faz um elogio à loucura. Pedaço de mim põe na passarela da moda colares, corações recheados com linhas coloridas. De repente, ela me vem com essa loucura de modelos com roupas amarradas, como se tivessem acabado de entrar numa camisa de força depois de um surto psicótico. No palco da moda, Mary faz desfilar a insanidade dos choques elétricos, tão comuns em época não tão distante. 

Mary desfilou a insanidade

Mary desfilou a insanidade

        Porque Mary é assim: tem o dom de transformar moda em conceitos de vida, em denúncia, em gritos de dor. Mesmo num mundo de aparências, ela mergulha, aprofunda. O último desfile sobre a loucura arrancou admiração quando a maquiagem das manequins lembrava arranhões de sangue, feitas com pente e tinta.

       Foi a própria Mary que definiu a razão de tudo: “Cresci escutando minha mãe dizer que de médico, artista e louco, todo mundo tem um pouco. Mais tarde, dizia ter medo da loucura até que, já mais velha, a arterosclerose chegou e ela morreu sem saber que a loucura a visitava, entre grandes momentos de sanidade”.

Uma das facetas admiradas da estilista é a criatividade

A estilista é admirada pela criatividade

        Sem saber se “a loucura, era coisa sadia ou não, fui vivendo, a princípio com medo, olhando desconfiada, como boa mineira que sou. Passei a me interessar pelo assunto, antes mesmo do Bispo do Rosário ter ido à Bienal de Veneza e ter ficado cult! Ouvia os documentários da doutora Nise da Silveira falando sobre o trabalho de terapia ocupacional, onde ela substituía os tratamentos agressivos pela arte, a imagem como forma de tratamento. Enfim, escapamos da lobotomia e do eletrochoque. Isso mesmo, escapamos, pois antigamente, por muito menos, seríamos todos internados! Yayoi Kusama, artista que vive voluntariamente em uma instituição psiquiátrica, está aí para nos provar o quanto a loucura e a arte andam juntas. Ganhamos, de seu acervo imaginário, milhares de pontos e bolas coloridas”.

        Mary não quer calar: “ Louca eu? Melhor seria pensar que temos telhado de vidro. Eis aqui minhas pedras, trago-as para você, são contas coloridas, muranos, cerâmicas, ora lisas, ora floridas. Contos e contas que carreguei nestes mais de 30 anos de viagem. Fiz delas um grande acervo, muitas vezes engavetados em lugares escuros. Ofereço-as nem sempre com a leitura de um colar formal, nem sempre na orelha como brinco, mas brincando entre esses dois mundos em que vivemos: o real e o imaginário. São peças que construí ao longo de alguns meses, trazia para fora o que estava dentro. Parte dos bichos sendo expulsos, expurgados em objetos, muitos deles únicos, irrepetíveis, livres de qualquer julgamento da minha parte.”

O desfile sobre a loucura causou grande admiração

De médico e louco todo mundo tem um pouco

     Mary diz como usar as loucas e estonteantes bijuterias da nova coleção. “ Use-as no corpo, na sala, na cabeça, sobre um livro ou sobre um livro na cabeça. Não contêm bula, apenas uma tendência a serem fora de moda. A estética megalomaníaca, avantajada, de dimensões e contornos duvidosos, foram loucamente planejados. Até mesmo a postura, braços amarrados, a estética, o andar ensimesmado na passarela. O peso das peças, algumas delas em formas de bolas, como grilhões. O excesso como fardo, mas também como liberdade. Liberdade de criação”.

Ofereço-a à vocês, para que possamos andar mais leves.

“Enlouqueçamos pois!”


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5 Comentários

Beatriz Lima 14 de maio de 2014 - 23:53

Nossa Déa, você e Mary juntas só poderia dar neste texto de arrepiar. Uma completa a outra com as palavras. Divino

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lisa santana 14 de maio de 2014 - 23:48

Eu também a-do-ro- as bijuterias da Mary design. E vc me traduz a própria Mary de uma forma que deixa claro que por trás daquelas bijuterias tem alguém pulsante, pensante e viva.

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Leila Ferreira 14 de maio de 2014 - 16:00

Mary é poesia em estado puro, esteja ela fazendo bijuterias, objetos ou poemas. Conviver com ela é ter a chance de se espantar diariamente, tamanha e tão desconcertante é sua capacidade de criar. E ser amiga dela é presente da vida, desses raros, que a gente sabe que não merece mas faz tudo pra preservar.

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Sandra Fonseca 13 de maio de 2014 - 20:17

Gostaria de conhecer a Mary pessoalmente. Sou encantada com o trabalho dela e também por pessoas que “quebram” conceitos e regras prontas… Abrç Maia. Obrigada pelos artigos maravilhosos…

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mary 13 de maio de 2014 - 20:11

Amiga de longas datas, de vidas passadas, acabo de ler este texto, que como tudo que você escreve, vem dos rincões da alma. Os cabelos do meu corpo estão de pé, pois você fala de mim com uma propriedade que me assusta, sabe dos meus casos mais íntimos, como o do cotonete, e me desnuda frente a todos, por mais nua que eu já esteja. Deus te deu uma varinha de condão amiga, e disse, vai e escreve com ela, e magicamente você comove, comete loucuras com esta “pena” delirante. Ora te vejo pelos ares, voando no tapeto mágico, ora nos céus da Magui. Juntas querida, haveremos de mudar alguma coisa neste mundo cão, nem que seja com um caldeirão de palavras e poemas, nem que seja abrindo a camisa e mostrando as veias do coração.
Nem se eu fosse ate Cidinha do Norte, de joelho, conseguiria agradecer a você por todos os tesouros, como este e como tantos que vc já me deu. Com amor, carinho e agradecimento!

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